1986


Bem-vindos, caros leitores. Vocês estão a ler o blogue Café Mais Geek e na edição de hoje trago-vos 1986, uma comédia dramática histórica criada por Nuno Markl que, logo desde o tema de abertura, nos transporta de volta a (surpresa!) 1986, onde vira o foco sobre a cultura pop da altura, nomeadamente a música, o cinema e a TV. Apertem os cintos, agarrem-se às cadeiras e abram bem os olhos, porque vamos atingir as 88 milhas por hora e a única paragem é daqui a 33 anos para o passado. Agora, só para vocês, aqui fica o trailer.


A história segue as aventuras de um adolescente chamado Tiago (Miguel Moura e Silva) num Portugal em vésperas de eleições. Não se assustem. Nesta série, a política é usada principalmente como ferramenta para criar conflito, contextualizar e dar uma ou duas lições morais, principalmente baseadas no ridículo de levar as crenças ao extremo. Aliás, a série tanto mostra rivalidade política como poderia mostrar a rivalidade entre fãs de dois clubes futebolísticos. Se bem que, visto que vivemos em democracia, a rivalidade entre ideais políticos acaba por ser mais pessoal ou, pelo menos, espera-se que tenha mais consequência.

Enfim, vou ser sincero, para não variar. Por norma sou muito crítico no que toca a criações portuguesas, especificamente de música, televisão e cinema. Creio que será da língua, que é tão crua e verdadeira, que me cai mal quando não é bem cozinhada. A televisão em particular. Quando era miúdo não ia muito ao cinema, nem ouvia muitos discos, rádio ou cassetes, mas todos os dias estava em frente à televisão. Durante os dias de escola ansiava por ver as comédias ao fim do dia e aos fins-de-semana via os desenhos animados de manhã, os documentários da BBC à hora de almoço (que o meu pai tanto adorava) e os filmes durante a tarde.

Neste momento, os canais abertos da televisão portuguesa para mim resumem-se às manhãs e tardes do "Ligue para o número no ecrã", pontuadas por telejornais que alternam entre desgraças e futebol com algumas amostras pouco profissionais de jornalismo e terminadas com horas de telenovelas sem sal onde as personagens não se afastam dos extremos morais o suficiente para serem humanas. Entretanto, eu mudei e a televisão também. Acabei por desligá-la e passei a ter uma presença ainda menor de arte portuguesa na minha vida. Por isso, encontrei esta série como alguém que encontra uma pepita de ouro no meio de um areal.

Bom, mas ninguém veio ler isto para saber de mim. 1986 não passa na televisão (que eu saiba), mas podem encontrá-la na RTP Play, onde os 13 episódios de 40 minutos podem ser visualizados tão gratuitamente como num canal aberto da TV. Melhor até, porque hoje em dia já se pode ver em quase tudo o que tiver um ecrã. Afinal, não é como se ainda vivêssemos em 1986.

Então, Tiago, o nosso protagonista, vê-se apaixonado por Marta (Laura Dutra), uma colega de escola. As peripécias começam com o cenário clássico em que um rapaz algo reservado quer meter conversa com uma rapariga, mas não terminam por aí. Qual romance de Romeu e Julieta, Tiago vê-se a querer namorar uma rapariga cuja família tem opiniões políticas que divergem para o extremo oposto das da sua e, com as eleições a aproximarem-se, os ânimos andam exaltados.

Além de Marta, entre os colegas de Tiago encontramos Sérgio (Miguel Partidário), um típico adolescente obcecado em perder a virgindade; Patrícia (Eva Fisahn), uma jovem rebelde gótica; e Gonçalo (Henrique Gil), um "rufia com uma mota" que faz a vida negra ao nosso herói ao mesmo tempo que rouba as atenções de Marta.



Juntos, formam um grupo de jovens (ini)amigos que a certa altura me fez lembrar "Uma Aventura" ou "Os Cinco". No entanto, e na minha opinião, as gargalhadas devem as palmas a Adriano Carvalho, que faz o papel de Eduardo, o pai do protagonista, um crítico de cinema com fortes convicções. Com um jeito muito típico português, o homem tão facilmente nos rouba "aw" como "ahah" e até mesmo um ou outro "oh" nostálgico ou um "ah" matemático.

É com ele que Tiago vive, enquanto ambos tentam lidar com a falta da mulher das suas vidas. Já do outro lado do espelho, Marta tem uma família numerosa, cujo patriarca administra um clube de vídeo (para quem ainda sabe o que isso é) e, apesar de ser o único ser do sexo masculino a viver na sua casa, muitas vezes se esquece de apreciar as presenças femininas que partilham o interior das quatro paredes. Talvez haja aqui um ponto de auto-reflexão para nós machos. Os holofotes apontam principalmente para Tiago, mas alguma luz recai também sobre o pai e a sua busca por felicidade, que pode ver alguma esperança em Alice (Teresa Tavares), uma professora do filho.

Pessoalmente, costumo preferir comédias que se encaixem em 30 minutos, mas 1986 tem um bom ritmo e mal se dá pelo passar do tempo. O humor é leve, discreto e entregue da forma certa, usando o formato do vídeo para "contar" as piadas, em vez de as "dizer". Por vezes, achei o enredo um pouco previsível, mas não menos encantador.  Afinal, a viagem vale mais que o destino.

Ainda falando do estimulo visual, é certo que nasci já na década de 90, mas epá... senti-me velho a ver isto. Isso é mau? Claro que não. A nostalgia (que agora está muito na moda) rebenta pelo telhado, especialmente com a ajuda dos cenários, guarda-roupa e banda sonora, onde encontramos pérolas do fim do século passado. A série é aconselhável para... bem, uma parte das idades, mas quem viveu em pleno os anos 80 vai-se rever e ter uma ligação emocional maior.

1986 não se censura e usa bom português para nos transmitir aquilo que quer dizer. Enfim, "vive a tua vida", "preocupa-te com conhecer-te a ti mesmo, antes de procurares a felicidade através dos outros" ou simplesmente "não tenhas medo, somos todos humanos" são algumas das pequenas grandes lições que mais me saltam à vista. Quero dizer, se calhar não as disse bem. O melhor mesmo é ver a série.

Honestamente, não sinto que vos vá convencer a ver, mesmo com uma descrição enfatizada e enfeitada da história e deixando-vos num "cliffhanger". Não, esta série precisa de ser provada e degustada, como um vinho velho, mas sem a parte do cuspir ou de ficar ressaca.

Concluindo, vale a pena ver? Bem, pelo menos para experimentar, não é? Mas ficam avisados. É difícil ver um episódio sem ver o seguinte. O humor e o drama para mim estavam no ponto, mas cada um tem um paladar diferente. O que vos posso dizer é que a série, apesar de parecer experimentar e saltitar um pouco para nos dar uma refeição completa, é bastante constante. Se gostarem dos primeiros episódios, irão gostar do resto.

Eu cá fico à espera do 1987.
Pedro Cruz
Escrito por:

"Spawned" em Aveiro no fim do início da década de 90, apreciador de amostras de imaginação e criatividade, artesão de coisas, mestre da fina e ancestral arte da procrastinação e... por hoje já chega. Acabo isto amanhã...

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