Vita e Virgínia


Inspirado na peça de teatro por Eileen Atkins, que por sua vez terá sido inspirada nas cartas de amor entre as escritoras Vita Sackville-West e Virginia Woolf, chega aos cinemas portugueses este filme que instantaneamente se tornou um dos meus preferidos. Com o seu ponto de fantasia, conta-nos a história do romance intenso (e real) entre estas duas mulheres, embriagadas pelas palavras uma da outra, num tempo em que ainda existiam muitos dogmas e absolutos tóxicos para ultrapassar. Também me sinto eu embriagada pela excelente (e mágica!) banda sonora da compositora Isobel Waller-Bridge que nos faz mergulhar no ambiente boémio dos loucos anos 20 através do volátil e encantador electro-house. O contraste entre os cenários, as roupas vintage e a música contemporânea criam na verdade uma fusão que é praticamente perfeita.

Vita, interpretada por Gemma Arterton (Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo, 2010) é uma aristocrata petulante que vive de paixão em paixão. Casada com o diplomata Harold Nicolson (Rupert Penry-Jones), têm um acordo matrimonial entre si: os dois são homosexuais e cada um pode ter os amantes que quiser, desde que haja descrição. Porém, Vita é tudo menos discreta e acumula já uma reputação escandalosa na alta sociedade, para horror da sua mãe, Lady Sackville (Isabella Rossellini), que a ameaça tirar-lhe os filhos. Quando Vita conhece Virginia (Elizabeth Debicki, O Grande Gatsby, 2013), deseja-a mais do que tudo e começa então a caça do lobo à ovelha. Especial destaque para a cena da primeira troca de olhares, onde as atrizes dizem tanto sem proferir uma só palavra. Vita sente-se fascinada com a mente da então já famosa escritora, que cedo se tornaria épica, e esse fascínio traduz-se num desejo carnal ao qual não consegue resistir.

Elizabeth Debicki está excepcional como Virginia Woolf. A maneira como se move, as lutas internas entre uma mente brilhante que também sofria de algum tipo de doença maníaco-depressiva, completamente mal diagnosticada e vítima de uma medicina masculina onde as mulheres eram ignoradas. Quem tenha lido já de Virginia Woolf, nem que seja um pouco, ter-se-a deparado certamente com alguém à frente do seu tempo, alguém que analisava a vida tão intensamente que não conseguia evitar deixar-se levar por temas mais sombrios. No filme vemos como, apesar de resistir aos avanços de Vita ao princípio, é pelas cartas que trocam entre si ao longo de meses que, finalmente, a faz apaixonar por Vita. Virginia vê ramos e folhagens negras que surgem do chão e se estendem pelas paredes quando se deixa levar por Vita, mas também vê corvos que a atacam vindo do céu quando Vita está longe do seu alcance ou a ignora e não responde às suas cartas. 

As cartas são lidas defronte da câmara, olhar fixo na lente, como se estivessem na mesma sala, apesar de Virginia permanecer em Londres e Vita viajar pelo mundo fora como mulher de diplomata. Gostei especialmente do detalhe subtil de humanidade quando Vita não responde às cartas e a vemos de olhar fixo, mas silencioso. Uma versão vintage de “ghosting”, podemos dizer.

É um romance já condenado à partida pois como o próprio marido de Vita afirma “(...) you do like to have your cake and eat it, Vitti. And so many cakes.”. Virginia escreve “Orlando, uma biografia” como uma carta de amor a Vita: dá-lhe o que ela poderia ter tido se tivesse nascido homem, herdar a casa de família e viver livre. As duas mulheres permanecem boas amigas, muito depois do seu romance, até à data do suicídio de Virginia em 1941.

Confesso que este é daqueles filmes que aponta a um público alvo muito específico. Onde eu vejo harmonia e poesia, outros poderão ver algo pesado e desconfortável. Porque mexe com temas que ainda hoje são tabu. Temas que quebram os alicerces de crenças já tão intrínsecas na humanidade que será preciso um bulldozer para as mandar abaixo. O ritmo é confuso, sim, mas delicioso ao mesmo tempo. Assemelha-se ao de uma relação, altos e baixos, atribulado, não constante. Recomendo vivamente a quem está preparado para ser arrebatado e sacudido entre emoções contraditórias e essencialmente, acima de tudo, de poesia.
Catarina Loureiro
Escrito por:

Autora. Artista. Cismadora.

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