Serial Experiments Lain

O quê? Já estamos quase no Halloween outra vez? Já se passou mais um ano? Nem parece que estamos na época mais sombria, mas eu venho por este meio da escrita apimentar as coisas. Podia apresentar e fazer uma análise de um anime de estilo Horror, porém sinto-me um ser alternativo para trazer algo que assusta. Decidi apelar a um lado mais metafórico, ao lado mental. E se a realidade, como nós a vemos, perdesse o sentido de ser realidade?

Escrito por Chiaki J. Konaka, Serial Experiments Lain é uma série de mistério com características psicológicas, que segue Lain enquanto ela faz escolhas cruciais que terão influencia tanto o mundo real quanto o mundo virtual. Ao fechar um mundo e ao abrir outro, Lain irá encontrar o seu significado.

Fazendo jus ao ano em que foi lançado, Serial Experiments Lain adota uma estilo que é estranho à primeira vista. Cenários com contrastes muito exagerados que fazem com que haja momentos em que só exista o preto e o branco. Mas não desgostei dessa parte, aliás, acho que está muito bem conseguida pois demonstra as transições entre o mundo real e o paranormal enfatizando instantes onde o quotidiano é quebrado por pensamentos agressivos e destruidores. A obra tem um olhar muito adulto sobre os acontecimentos que marcam a vida. Uma sociedade que descobre o que são computadores e sistemas de conexão, perde o caminho, havendo um esquecimento em relação aos sentimentos das pessoas e do contacto humano.

Conceitos que ainda se alastram pelos dias de hoje, existindo uma maior preocupação por meros pixeis, em vez do valor de cada um. Quando é que vamos parar de nos dar satisfeitos com simples vídeos ou fotos editadas num ecrã e começar a ver e simpatizar por aquilo que a vida e o mundo têm para oferecer. A plasticidade e fragmentação introduzidos nas diversas cenas e fenómenos mentais vão cimentando a ideia de que a realidade não é aquilo que aparenta ser. Ideia que também transparece nas sombras que não têm uma só cor, mas padrões e formas que fazem sublinhar que existe vida nos ambientes escuros, sem holofotes.

Gostei muito da forma como Lain, a personagem principal, é desenvolvida ao longo da narrativa. É primeiramente apresentada como uma personagem inocente que vive a sua vida de estudante do ensino básico, mas que vai sofrendo várias alterações a cada episódio. Também achei interessante o facto de existir uma dualidade de personalidades, como a criação de heterónimos de Lain, fazendo com que esta perca o controle das situações e de si própria.

É engraçado pensar que gosto mais da arte antiga do que a nova, que marca os dias de hoje. Os desenhos de antigamente remetem para um sentimento mais puro, apresentando traços próprios, mais espontâneos e genuínos. Enquanto as produções mais recentes dão um ar de indústria, de corrupção, de estúdios que não procuram criar, mas sim agradar o espectador, muitas vezes denegrindo a história, graças a uma procura desamparada pela sexualização de cenas e diálogos. Pode ser que esta queda, naquilo que é a identidade de cada obra, seja justificada pela demanda incansável do público, por uma sociedade que tem como principal característica o consumismo exacerbado, como a necessidade de absorver tudo o que é novo e fresco. Para que um produto, neste caso a adaptação de um anime, seja orgânico é preciso tempo. E falo de tempo, mas não me refiro ao demorar muito tempo. Toco neste conceito, pois cada produção precisa de um ritmo próprio, uma identidade que a caracteriza, não sendo perturbada por datas de entrega ou pelos interesses do público.

A verdade tem poder porque é a verdade.

Porque é que necessito de saber o que é a Ressonância Schumann? Se calhar é uma informação que me vai ser bastante útil no futuro, mas não esperava receber a sua definição durante um anime. Sim, Serial Experiments Lain interrompe um episódio, mostrando o que o conceito significa, mas começou a incomodar quando já era a quinta vez que apresentava um facto que não se relacionava com a história. Irritou-me? Sim. Deu vontade de não ver mais? Alguma. Fez sentido? Também. Fazendo uma retrospectiva para o momento em que estas interrupções se dão, conseguimos relacionar as duas coisas, isto é, existe uma mensagem. Podemos fazer a ligação com os dias de hoje, por exemplo, onde diariamente, somos confrontados por diferentes notícias, acontecimentos e informações que, de certa forma, desviam o nosso olhar daquilo que é importante. É verdade que existe mais facilidade para a posse de dispositivos digitais e o pensamento criativo tende a experimentar esses campos, porém o excesso de informações tem tendência para criar perturbações e desequilíbrios no recipiente racional e emocional do nosso sistema. Esta narrativa pode parecer que não faz sentido ao início, mas analisando as formas, os sentimentos que ela transmite, faz com que a experiência seja toda ela melhorada.

Também está representada a necessidade que os humanos têm de expressar o que vai dentro deles. Como antigamente, que faziam da pintura um ato de expressão de ligação para com o mundo, o ser humano procura diversões, vícios ou prazeres para poder se libertar. Esta liberdade é necessária quando existem restrições proporcionadas por padrões, regras que são impostas por uma sociedade opressora e cruel. Na narrativa é apresentada uma alternativa às fugas, uma oportunidade para poder escapar daquilo que é a realidade, de exprimir tudo aquilo que está comprimido dentro do seu ser, a podridão e malícia que advêm do stress do quotidiano. Apesar desta alternativa ser conveniente, é logo confrontada pela monitorização, uma vigilância que está presente nas ocurrências fugazes do cada um. Isto para demonstrar que qualquer ser é capaz de ter controle sobre si próprio, ou seja, fugindo às regras da sociedade e não dando muito nas vistas.

Por fim, quero deixar o meu apelo para que experimentem ver esta obra. Posso ter escrito de maneira muito subjectiva, mas acredito que este anime dá asas para que cada um tenha opiniões e pensamentos muito diferentes.

Este artigo pertence ao especial
Capa
8
Serial Experiments Lain
Muito Bom
Ano 1998 Tipo serie Episódios 13
Distribuição por
  • Exploração de ideias
  • Plasticidade nas formas e desenhos
  • Ideologias subentendidas na narrativa
  • Momentos de silêncio que resultam muito bem
  • Ambientes repetitivos
  • Falta de interacção entre personagens
Rui Brandão
Escrito por: Rui Brandão

Nascido no norte, mais precisamente no Porto. Desde novo que sempre gostei de jogar videojogos, principalmente de computador. Frequento a universidade, mas não deixo de me alimentar com entretenimento. Gosto muito de ver animes, mas também acompanho séries e filmes.