Este ano, 2026, a Comic Con Portugal cruzou-se com 25 de abril. Dia da Liberdade em Portugal. Celebração de uma ditadura. Não seria minha intenção escrever um texto sobre este evento e articulá-lo com uma consciência ativista. Em primeira análise, os temas não coincidem. Mas sim. Se há evento onde se torna visível uma liberdade, sem limites, sem constrangimentos e com respeito, é precisamente aqui.

Circulam pessoas de todas as idades, crianças que acompanham os pais entusiastas da cultura pop, carrinhos de bebé que atravessam corredores, jovens, adultos e pessoas mais seniores. Uns envergam calças de ganga e t-shirt, outros por trajes mais elaborados. Cosplays ligeiros, maquilhagens carregadas, figurinos minuciosos. Desfilam princesas, feiticeiros, vampiros e bruxas. Um constante jogo entre “não faço ideia de quem seja aquela personagem” e “ah! Que Wonder Woman tão bem construída”.
Um homem careca que apareceu como Gru, Mal Disposto, uma família de cinco elementos que surgiu como The Addams Family, casais em caracterização a par e grupos de amigos que trouxeram as Navegantes da Lua. Pais e mães seguem os filhos menores. Alguns assumem o papel de fotógrafos, outros incorporam a atmosfera, com uma cabeleira, um vestido ou um qualquer signo mínimo de uma personagem, ainda que desprovidos de adereços elaborados.

Aqui tudo parece possível. Se pensaste, se imaginaste, podes dar-te a conhecer assim mesmo. Ganha o mais criativo e ninguém sai derrotado. Não há julgamentos. Não há olhares torvos nem censórios. O Batman saudou outro Batman, apesar de nunca se terem encontrado ou conhecido antes. Eu, sem qualquer indumentária criativa, fui cumprimentada por alguém com cravos na mão.

E, enquanto escrevia este texto, testemunhei dois jovens adultos – com um cosplay que desconheço – a dirigirem-se a um miúdo de (quê, 13 anos?) pedindo para tirar uma fotografia com o seu costume – que também não sei qual é. Sem condescendência, sem receios, sem vergonha, sem distância geracional. O miúdo aceitou com evidente felicidade e a foto ficou super colorida e vibrante.
Vejo partilha, acima de tudo. Partilha de fotos, imagens, mas também partilha de acessórios, de microfones, de espaço, de conhecimentos e de técnicas.
O espaço é fechado, contudo, ninguém está triste. É um território de expansão identitária, onde se pode experimentar ser sem sanção externa.

Eu nunca tinha presenciado uma zona de restauração tão organizada e desprovida de confusão. O que seria improvável, pois entre espadas, varinhas, caudas e chapéus, a logística poderia ser complexa. Em todos os pontos de comida se vende álcool. Ainda assim, não vi um único sinal de descontrolo ou embriaguez.
Aqui, o propósito é simplesmente estar. Descobrir-se e ser-se, vestir-se como não se pode vestir fora destas paredes.
Desde o traje mais quotidiano e o mais discreto, até a mais exuberante caracterização, a Comic Con é o momento de todos, todas e tudo. Há exposições. Há conversas. Há entrevistas. Há de tudo sobre qualquer coisa, para quem quiser. São filmes, são livros, são culturas. É cultura, afinal. É liberdade, com expressão concreta, vivida e coletiva.
