A polémica das adaptações

De Bridgerton a Harry Potter e Wuthering Heights, as adaptações literárias geram cada vez mais polémica. Analisamos a linha ténue entre a liberdade criativa e o respeito pelos fãs.
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Falta de imaginação ou invenção a mais? As adaptações para os grandes ecrãs são cada vez mais recorrentes e mais polémicas. Contudo, será que o público tem razão?

Desde animações da Disney até clássicos literários, todas as histórias procuram ser adaptadas para os grandes ecrãs, sejam em formato série ou filme. Não chega a ser necessidade, mas antes um gosto por reutilizar o que já foi pensado e criado por outros. As adaptações não são intrinsecamente “más”, mas a simples  notícia da sua criação parece gerar um descontentamento imediato por parte dos fãs. Seria de esperar que mais conteúdo nos seus universos favoritos fosse fonte de felicidade; contudo, torna-se cada vez mais clara a existência de certos critérios necessários para tal acontecer.

Geralmente, as adaptações que geram maior controvérsia são as literárias, tendo em conta a dificuldade de recriar histórias que foram concebidas inicialmente apenas para o imaginário. Os autores, as músicas, o vestuário, é crucial garantir a imagem perfeita do que outrora foram apenas palavras numa folha de papel. O público tem uma ideia muito clara do que quer e a desilusão é óbvia e forte quando o mesmo não se sucede. Em pleno 2026, estas são as adaptações mais odiadas.

Bridgerton – 5º temporada

Dado o inegável sucesso da sua quarta temporada, Bridgerton permanece no top 10 das séries mais globalmente vistas na Netflix. A confirmação da produção da próxima temporada foi quase imediata e com ela, surge a polémica do próximo casal sensação: Francesca e Michaela. Originalmente Michael, primo do falecido Jonh, seria o próximo grande amor da Bridgerton Francesca, sendo então adaptado para a personagem Michaela.

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Dizer que os fãs ficaram descontentes com esta decisão é pouco. As justificações são várias, desde o desejo que a série siga a ordem original dos livros — devendo então ser a temporada da Eloise — até a defesa da perfeição da obra original, alegadamente arruinada por esta mudança. A introdução de um romance queer, pelo menos segundo a maioria dos descontentes, arruína a componente histórica da série.

De qualquer modo, acho importante mencionar a falta de personagens queer (ou de cor) nos livros originais. Muitos dos fãs dos originais criticam a autora e o seu papel na adaptação da narrativa original para o ecrã, dizendo que esta mudança significativa — e, a meu ver, uma grande parte do sucesso da série — terá ocorrido apenas como uma tentativa de atrair mais espectadores através de uma nova “inclusão”.

A desilusão perante esta temporada pode ser justificada segundo duas vertentes muito claras: os fãs genuínos da narrativa literária original, que desejavam ver personagens por quem tinham tanto carinho na televisão, ou, indivíduos que questionam a introdução de um casal lésbico numa série de época (em que a rainha é uma pessoa de cor).

De qualquer maneira, acredito que a crítica apenas deve ser feita depois da visualização desta temporada e, desiludidos ou não, acredito que a curiosidade seja característica de todos os fãs.

Harry Potter – Adaptação HBO

Depois do sucesso inquestionável tanto dos livros como dos seus filmes, a saga Harry Potter finalmente chega ao formato televiso de série. Apresentada pela HBO, estas personagens mágicas voltam a ganhar vida, interpretadas por um novo elenco.

Esta adaptação ocorre segundo o pedido de ninguém em particular. O último filme nem saiu à 20 anos e já estamos encarregues de os recriar para uma nova geração. Contudo, dizer que os primeiros filmes foram um sucesso é um eufemismo. As plateias vibravam com cada trailer e comentavam a inegável semelhança com os livros originais. A série, de modo a tornar-se a sua própria adaptação, em nada ganharia em recriar exatamente os filmes originais. Contudo, até que ponto as mudanças alteram o rumo da história?

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A diferença mais notória — e claramente mais discutida — é a caracterização da personagem Severus Snape. Outrora representado pelo ícone Alan Rickman, o professor passa a ser interpretado por Paapa Essiedu, um ator britânico conhecido pelos seus papéis no I May Destroy You and Black Mirror.

O backlash foi quase instantâneo. A mudança de raça do professor foi criticada como uma adaptação imperdoável, uma perda da magia original da personagem e uma alteração drástica no rumo da narrativa. A personagem outrora descrita como tendo “pele pálida e amarelada” é interpretada por um ator que difere desta característica.

Apesar de à primeira vista o parecer, acredito que esta discussão não é simples. Tal como referi acima, creio que podemos dividir novamente os fãs: aqueles que se sentem desiludidos pelo impacto que esta mudança pode ter na história e aqueles que são simplesmente e indiscutivelmente racistas. Escolho colocar estes indivíduos em diferentes categorias, dado as possíveis interpretações que esta alteração pode gerar. Então o professor mais odiado, mais temido, aquele que o trio mágico desconfia logo de início, é o único professor negro de Hogwarts? A ironia não se perde.

Contudo, tal como em Bridgerton, espero ansiosamente o resultado desta produção.

Wuthering Heights

Por fim, uma das adaptações mais recentes — e neste artigo a única que já está aberta ao público — o filme Wuthering Heights. De modo a comentar de maneira semelhante e justa, a análise foca-se apenas nas críticas que têm surgido, tal como nas séries acima, e não na sua visualização.

Como adaptação de um clássico literário, o filme Wuthering Heights automaticamente carrega consigo o peso de todas as interpretações que já foram feitas da obra desde a sua escrita e publicação em 1847. A diretora Emerald Fennell tornou claro desde o início que esta produção se tratava de uma interpretação pessoal, salientado esta ideia com a alteração do título do filme para “Wuthering Heights”. Contudo, não foi suficiente para ficar isenta de críticas fortes.

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O descontentamento é geral. Contrariamente a outras polémicas, o filme foi criticado por quase todas as suas escolhas: o elenco principal não ser em nada semelhante aos originais, o vestuário não ser característico do século, a banda sonora não ser adequada, entre outros. A apresentação da obra cinematográfica como adaptação e não interpretação levantou uma série de críticas às alterações marcantes.

Deste modo, apenas consigo considerar as críticas como expectáveis. Não que acredita que haja algo intrinsecamente errado com uma representação pessoal de uma obra clássica, mas creio que a clara insatisfação do público é uma consequência direta de tentar mudar algo que, em nada, pediu para o ser.

Tendo estes exemplos em conta, acredito que a forte insatisfação do público se deve ao seu desejo de reviver a sensação e a magia do original, culpabilizando as diferenças criativas da nova versão. Especialmente na área literária, recriar algo que antes existia apenas no imaginário pessoal de cada um é um risco, e os exemplos acima tornam isso evidente.

Contudo, apesar de não estar particularmente descontente com nenhuns dos exemplos apresentados, não consigo dizer que não compreendo o descontentamento pelas novas versões. Para aqueles que procuram exercer a sua liberdade criativa, talvez fosse mais vantajoso fazê-lo em conteúdo novo, em vez de tentar reinventar o que já foi inventado.

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Maria Afonso
Sou estudante de literatura na faculdade de letras e jogadora sub-21 de voleibol. Amante de livros e de ficção procuro descobrir e estudar tudo o que a fantasia tem para oferecer.

Colaboraram neste artigo

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