BookTok e o futuro do livro

O BookTok aumentou vendas e aproximou jovens da leitura. Mas estará também a moldar a qualidade literária? Uma reflexão sobre algoritmos, tendências e o futuro dos livros.
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Com a vasta seleção de livros hoje em dia, é fácil perdermo-nos à procura da nossa próxima leitura. Gostos requintados necessitam de pesquisas requintadas. Contudo, é crucial um olhar crítico não só perante as nossas fontes, mas também pelo leque de opções que se encontram disponíveis na estante do mundo literário moderno. 

Tal como a maioria das indústrias no século XXI, os livros foram vítimas da expansão do universo tecnológico. Entrar numa livraria já não significa apenas julgar um livro pela sua capa, mas ser apresentado à “a nova sensação do tiktok” ou ao “dark academia que viralizou” ou mesmo a áreas dedicadas às obras mais discutidas online. É essencial compreender até que ponto estas plataformas impactam não só a leitura dos jovens, mas também o futuro da venda literária.

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Com isto, refiro-me ao surgimento do tão amado “BookTok”. Para os consumidores mais passivos das redes sociais que não estão familiarizados com este conceito, o BookTok é uma espécie de comunidade online — tal como o nome indica, especificamente no TikTok — que aborda  e discute o conteúdo literário mais recente. Assim sendo, é como um clube de leitura aberto a todos os utilizadores da plataforma.

Como uma das plataformas mais utilizadas pelos jovens, o TikTok abrange um público vasto e diversificado. Segundo um estudo do The Washington Post, o vício na aplicação pode ser explicado pelo seu algoritmo único e personalizado para cada utilizador. O BookTok funciona do mesmo modo, apresentando livros que vão ao encontro de gostos específicos. Será que esta publicidade surge como a única potenciadora das vendas no mundo literário? Será que a comunicação tradicional das editoras já não é necessária?

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A meu ver, esta questão não é de todo simples, principalmente tendo em conta a dimensão da emergência do BookTok. Segundo o Observador, a venda de livros em Portugal no segundo trimestre de 2025 aumentou quase 10% em comparação com o ano anterior, resultando na venda de mais cerca de 3 milhões de unidades. Este crescimento notório foi em grande parte devido ao jovens “motivados por redes sociais e clubes de leitura, com muita atividade e muita partilha”.

É nesta linha que entram as tão conhecidas influencers. É a partir da sua partilha recorrente que estas obras chegam aos ecrãs dos jovens, propagando os seus ideais literários e opiniões nas sensações do momento. Devido às suas capacidades inquestionáveis de moldar as vendas neste setor, cabe às editoras adaptarem-se. Tomemos como exemplo o mais recente Programa de Parcerias LeYa 2026: com inscrições abertas em fevereiro, a editora procura criadores de conteúdo literário que partilhem livros com “paixão e originalidade”. A constante aposta no marketing digital apela ao crescimento do BookTok como potenciador da difusão de novas obras literárias, tornando-se a melhor aposta para novos escritores que procuram reconhecimento. 


Contudo, o mero aumento da divulgação de livros não deve ser compreendido como algo intrinsecamente positivo. É essencial questionarmos não só o conteúdo que nos é apresentado, mas também a sua implicação inevitável na literacia dos jovens.

Em primeiro lugar, uma das características fundamentais desta rede social é a rapidez com que o conteúdo é partilhado e consumido. A introdução de conteúdo literário nesta vertente pressupõe a simplificação de obras de modo a serem superficialmente compreendidas e captarem a atenção dos utilizadores. Expressões como “enemies to lovers” e “romantasy” passaram a ser utilizadas para caracterizar até obras clássicas. O foco dos leitores é, assim, deslocado para a presença destes componentes em detrimento da narrativa como um todo.

A procura contínua destes elementos gera uma produção dedicada a satisfazer os seus leitores, criando escritores modernos que priorizam cumprir os requisitos considerados cruciais pelas redes sociais. Não é surpreendente que as “sensações do BookTok” sejam acusadas de ser meras cópias umas das outras: a demanda por estes produtos cria livros de baixa qualidade, escritos apenas para satisfazerem o ideal literário mais recente.

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A meu ver, a componente momentânea das redes sociais, principalmente do TikTok, não serve as necessidades da indústria literária. Aplaudir influencers por partilharem recorrentemente o mesmo género de livro, é aplaudir a estagnação das obras literárias modernas e dos jovens leitores que não procuram mais. É enaltecer um método comunicativo que se foca meramente no número de vendas e não no conteúdo escrito.

A literatura, como todos os outros modos de expressão artística, ocupa uma dimensão demasiado poderosa para ser compactada num mero vídeo de quinze segundos. Com isto, não pretendo afirmar que a partilha e a discussão de obras literárias não sejam um incentivo forte ao crescimento da leitura nos jovens. Contudo, é crucial que a qualidade literária não sofra em detrimento da sua comercialização.

Assim sendo, ofereço uma perspetiva que visa proteger o universo literário do decréscimo da literacia alimentado recentemente nas redes sociais. É em locais como o Café Mais Geek que devemos procurar partilhar as nossas histórias preferidas — espaços dedicados especificamente a enaltecer conteúdo fantástico, sem as preocupações das tendências momentâneas ou do impacto dos algoritmos.

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Maria Afonso
Sou estudante de literatura na faculdade de letras e jogadora sub-21 de voleibol. Amante de livros e de ficção procuro descobrir e estudar tudo o que a fantasia tem para oferecer.

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