Acho que em algum momento da vida já todos olhamos para algo e dissemos “ah isso até eu fazia!” ou então, num tom menos pejorativo, havia aquele pensamento de desejar estar do outro lado e criar algo em vez de sermos apenas um mero consumidor. Ter voz ativa na criação, do início ao fim, comandar algo a bom porto e lançá-lo ao mundo… e vê-lo a ser trucidado por quem outrora havia sido eu!
E para alguém como eu, que ao longo da vida sempre teve ligado a coisas mais criativas, é difícil não achar que eu conseguia pintar um quadro, ou escrever um livro, ou fazer uma escultura… ou fazer um videojogo.
Sozinho, há muito que posso fazer, sendo a listagem em cima uma lista consideravelmente pequena de tudo o que já tentei fazer, algumas com mais prazer e sucesso que outras, mas que em algum momento percebo que não era bem aquilo, ou perdi o interesse, ou afinal tenho outra ideia, entre tantas outras desculpas ou limitações que vão surgindo.
Com o tempo, vim a perceber que se calhar não preciso de me isolar, e talvez o ideal seja procurar quem tenha também a mesma vontade que eu e alinharmos as ideias e prosseguir com algo, apenas começar a fazer. Mas desta vez, não ia apenas às cegas, ia mesmo fazer a coisa como deve ser.
Assim dito, assim feito. Numa sequência algo inesperada de acontecimentos, duas pessoas juntaram-se a esta aventura e desde então temos estado para lá e para cá a pensar em coisas que podem ser feitas.

Vamos fazer um videojogo!
Inicialmente, a coisa surgiu como que numa resolução de ano novo. Eu odeio-as, mas foi mais um clique do que propriamente resolução. Numa qualquer noite acabadinha de estrear em Janeiro, o meu namorado vira-se e diz “Este ano quero ter algo criado! Não quero passar mais um ano sem ter feito nada!”.
Depressa comecei a escrutinar o que seria esse algo que ele queria criar, se já havia ou não alguma ideia ou se estava aberto a sugestões e que tipo de criação estava ele a falar ao certo. Não demorou muito a que concordássemos que entre mim e ele, era totalmente possível criarmos algo, fosse mais pequeno ou maior, estava perfeitamente ao nosso alcance conseguirmos ter alguma coisa feita, e que esse algo deveria ser, quase de certeza, um videojogo.
Ele, engenheiro informático que já tinha dado alguns passos a programar videojogos, eu, designer gráfico que sabe modelar e animar 3D, e a nossa imaginação.
Passaram-se algumas semanas e percebi que Fevereiro tinha começado e ainda não havia uma ideia e comecei a remoer a coisa. Não havia pressão alguma de nenhum lado mas só de perceber que um mês havia passado e nada foi decidido, começou a mexer comigo e voltei a trazer o assunto ao de cima. Sem compromisso, e sempre que nos lembrávamos, íamos atirando coisas ao ar.
E foi então num momento rotineiro, enquanto nos preparamos para dar por terminado o dia, que ele atira ao ar algo, que vinha no surgimento de uma conversa totalmente banal, e ficamos em silêncio mas conseguimos ouvir bem alto as rodas dentadas a trabalhar.
Depressa começamos a atirar um ao outro que tipo de opções tínhamos, o que dava para explorar, como iremos explorar, será que já existia algo, e assim surgia a primeira ideia naquilo que decidimos pensar como um cozy roguelike. Algo calmo e reconfortante, cheio de planeamento e tensão de um roguelike, chega de estarem sempre tão confortáveis!

A ideia base, não era mais que um jogo típico de cultivo, tal como um Stardew Valley ou até um Farmville, mas em vez do jogador estar à vontade, tinha elementos de roguelike que iam causar alguma pressão em manter o cultivo saudável, proteger das efemeridades das estações e infestações, e por aí fora.
O que se seguiu foram semanas e semanas de planeamento, folhas de cálculo a ser recheadas de conteúdo, mecânicas a ser estudadas, quando é que tomates são plantados, que estações são mais apropriadas ao cultivo da beterraba, idealizar um estilo visual e fazer pequenos testes a ver se resultava, e perceber qual seria o ponto de destaque desta nossa criação.
Parece estar a ganhar forma, há aqui algo palpável, o que estamos a pensar faz sentido e resulta em algo suficientemente diferente e que provavelmente terá um público mais restrito mas ainda assim um público!
É para avançar!