Matt Murdock is also Daredevil. That’s why his life is about to fall apart.
Tinha 14 anos quando li Demolidor: Renascido pela primeira vez. Foi a primeira história da personagem que li, porque, sendo honesto, não gostava particularmente do Demolidor. Não via motivos para querer acompanhar super-heróis urbanos – excetuando, claro o Batman – e, neste sentido, um vigilante cego com (quase) nenhum superpoder pouco ou nada me atraía. Eu queria cor, super poderes, queria os X-Men.
No entanto, o Frank Miller é o Frank Miller e há uma altura nas nossas vidas em que só queremos devorar os clássicos. Já tinha lido o Regresso do Cavaleiro das Trevas, já percebia minimamente o porquê do alarido todo em torno do autor e tornava-se impossível continuar a ignorar esta obra que incessantemente me recomendavam. Fiz o sacrifício e lá o li. Tornou-se na minha BD favorita – pelo menos no que ao género de super-heróis diz respeito – e, agora, com o aniversário dos 40 anos do início da sua publicação (em fevereiro de 1986) e a presença do Frank Miller na próxima Comic Con Portugal, esta pareceu-me a ocasião perfeita para finalmente a reler.
Feitas as considerações iniciais, falemos então deste clássico maior.

Depois de revolucionar o género com – e isto parece-me unânime -, a run mais importante e definidora desta personagem (1979-1983), Frank Miller aceita voltar e continua a partir da saída de Denny O’Neill, acompanhado pelo sempre formidável David Mazzucchelli, que se revela uma peça fundamental para a genialidade desta publicação. Um pormenor a ter em conta quando pensamos no regresso de Miller a este título, e que, apesar de tudo, faz toda a diferença na forma como o vemos, é o facto de, ao contrário do que fez com o Batman, também em 1986, com a publicação do já mencionado O Regresso do Cavaleiro das Trevas, Miller ter entregue uma minissérie canónica, totalmente parte da cronologia da personagem e aceitando e assumindo todas as implicações e consequências do que estava prestes a escrever.
Em 1986, já Peter Parker tinha desistido de ser Homem-Aranha (1967), num arco escrito por Stan Lee e que conta, coincidentemente, com o Rei do Crime como vilão principal, e já tinha perdido a Gwen Stacy quando a sua identidade secreta é desvendada pelo Duende Verde (1973). No futuro, o Super-Homem havia de ser morto pelo Apocalipse (1993) e o Batman havia de cair às mãos do Bane (1993), ambos os vilões criados para cumprir as missões de derrotar os dois maiores ícones da DC Comics. No entanto, nenhuma “queda” me parece tão impressionante como esta que, fazendo jus ao título traduzido no Brasil, é muito mais uma queda de Murdock do que uma queda do Demolidor.
A história diz-nos ao que vem logo na primeira prancha. Karen Page, ex-namorada de Murdock e agora toxicodependente, vende a última coisa de valor que lhe resta: a identidade secreta do Demolidor. Em duas páginas, esta informação chega às mãos de Wilson Fisk, o Rei do Crime, para quem atacar um ente querido, como o Duende Verde fizera, ou matar a sua nemesis num combate épico, como o Apocalipse viria a fazer, não bastavam. Fisk condena antes Murdock a uma tortura lenta, meticulosamente planeada e verdadeiramente angustiante.
Miller, que já tinha sujeitado o Demolidor a experiências impensáveis para o mainstream americano – lembremo-nos do momento icónico em que o herói faz uma roleta russa com um Bullseye hospitalizado – conduz Matt Murdock, e a nós por arrasto, por um calvário digno do messias em quem ambos partilham a crença, a um ponto em que acabamos o primeiro capítulo e já está tudo “perdido”. Assim, se pensarmos nesta obra mais como uma queda do que uma ressurreição – ponto de vista contrariado pelo próprio título, que, aproveito para dizer, ganharia ainda mais se se tivesse optado por Demolidor: Ressuscitado -, o segundo capítulo é o seu verdadeiro ponto alto, mesmo não sendo o seu clímax.
Ao longo de toda a obra, Miller usa e abusa das narrações em “voz-off” que nos levam para a cabeça das personagens, tão características do seu estilo e, na época, uma abordagem inovadora à forma de pensar e escrever “didascálias”, elementos tão facilmente datados da BD de super-heróis. No segundo capítulo, esta técnica é levada ao seu expoente máximo, numa série de páginas em que estamos, quase exclusivamente, dentro da mente alterada e paranoica de Murdock. É nestas páginas que, ao o vermos a duvidar até da lealdade do seu melhor amigo Foggy Nelson ou a esganar o senhorio porque o vê como um enviado de Fisk, temos a certeza que já não estamos a ler uma história de super-heróis. O Demolidor desapareceu, quase literalmente, no capítulo anterior, e vai demorar a reaparecer. O que estamos a acompanhar agora é um homem desesperado que perdeu tudo, a casa, a carreira, sanidade, preso no fundo de um posso impossível de escapar. A única coisa que lhe falta perder é a vida, e parece disposto e perdê-la muito facilmente para um inimigo que está só à espera do momento certo. Quando saímos enfim da sua mente deteriorada é para o vermos como uma criatura sanguinária que, nem minimamente interessado em defender uma carruagem de metro de um assalto, está disposto a espancar polícias e assaltantes com a mesma vontade, a mesma raiva e a mesma brutalidade. Tal como nos diz Wilson Fisk, acabamos de testemunhar a morte de um homem nobre. Esta espiral para lá do fundo do poço, que se “arrasta” por mais um capítulo, só termina quando, no momento em que pensávamos já não haver forma de escapar, Miller nos traz finalmente a luz, apropriadamente, em forma de freira.
E, se falamos em freiras e em ressurreição, é impossível ignorar a paixão de Cristo, inspiração maior para a abordagem de Miller e Mazzucchelli a esta minissérie. Se já não bastassem os elementos religiosos evidentes e constantes, desde os títulos dos capítulos –Apocalipse e Armagedão, por exemplo – até à magnífica e emblemática prancha em que a combinação da cama e da parede do convento tornam Murdock no messias crucificado, Miller quis emular no diabo cego da Marvel a caminhada de Cristo até à cruz, afastando a obra da superficialidade expectável de um punhado de referências baratas trazidas por um escritor católico numa minissérie de uma personagem também católica.
No entanto, não se resumindo a religião os seus interesses e “objetos de estudo”, Miller tem ainda tempo para nos falar sobre nacionalismo e perversão de valores patrióticos e para criticar a política militar imperialista americana, na figura do super soldado Nuke, introduzido como um antagonista fanático e incontrolável, capaz de dizimar um bairro inteiro para defender os valores americanos, “os nossos soldados”. Esta vertente da escrita de Miller, muito presente em outras obras suas deste período, torna-se ainda mais interessante de analisar se pensarmos no caminho político que percorreu nestas primeiras décadas do século XXI.
Por último, é fundamental referir aquele que é o maior atrativo e, sem dúvida, o ponto forte desta banda desenhada: a composição das páginas. David Mazzucchelli, que começava a experimentar cada vez mais na forma de desenhar e de pensar e compor as páginas, entrega-nos pranchas absolutamente, e perdoem-me a utilização desta palavra, geniais. Desde as emblemáticas pranchas inicias dos primeiros quatro capítulos que nos mostram o deteriorar de Murdock através dos locais, e das condições, onde dorme, até à montagem de vinhetas que vão alternando os diferentes pontos de vista e as diferentes narrativas, passando pela sequência de tirar o fôlego, em que o repórter Ben Urich ouve, pelo telefone, um polícia a ser morto, o que temos aqui é, sem qualquer mínima dúvida, uma das mais bem sucedidas combinações argumentista/desenhador de sempre – sendo também importantíssimo fazer-se aqui a devida menção ao trabalho excecional da colorista Christie Scheele. Mazzucchelli, condição estabelecida por Miller que o fez aceitar voltar a escrever o Demolidor, revelou-se uma peça fundamental para esta obra que, com todas as suas falhas – que existem, claro – continua a ser um dos melhores produtos já surgidos do mainstream de super-heróis. E, dependendo de quando me perguntarem, sou bem capaz de achar que é o melhor.