Divergências: uma história em 3 atos

Uma denúncia inesperada desencadeou uma das maiores polémicas recentes do mercado editorial português. Entre acusações, comunicados oficiais e testemunhos de autores, esta é uma história com múltiplos lados e poucas certezas.
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Os autores pequenos ou independentes em Portugal mais parecem personagens de um livro de Dan Brown.

Não têm um minuto de descanso.

Esta é uma história com 3 lados. O de uma editora/distribuidora, o de uma associação de editores/livreiros e o dos autores.

E como em qualquer narrativa que prenda, há drama, acusações, segredos, vilões tornados heróis e reviravoltas surpreendentes. Preparem um bom chá e sentem-se para ler uma das histórias mais mirabolantes do mercado editorial português.

Ato 1: A revelação da Convergência

Ainda arrastando os restos de um inverno severo, março começou a ferver. Sem que ninguém esperasse, surge online a denúncia da DNL Convergência (em nome de 40 editoras independentes) sobre a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e a organização da Feira do Livro de Lisboa. No comunicado publicado no Instagram pode ler-se o seguinte: “A APEL tomou a decisão incompreensível de excluir a DNL Convergência, e consequentemente as vossas editoras e chancelas, da 96.ª Feira do Livro de Lisboa. Alegam ‘falta de espaço’, mas o que está em causa é a sobrevivência da bibliodiversidade (…). A DNLC já apresentou uma contestação formal à APEL, a qual aguarda resposta. Criámos também uma petição”.


A petição, movida por muitos autores e leitores indignados, atingiu mais de 2000 assinaturas em pouco mais de 24 horas. Já com a petição a correr as notícias, no dia 4 de março Pedro Cipriano, para muitos a cara da DNL Convergência, escreveu isto no seu Instagram pessoal: “135 mil euros de dinheiros públicos (teus!) para apoiar um evento que está a asfixiar os pequenos e a favorecer os grandes grupos editoriais. Mais de 40 editoras independentes silenciadas. Uma PME de Ansião (a DNL Convergência), que luta há 6 anos pela bibliodiversidade, impedida de trabalhar”.

Depois de ler estas palavras, também eu assinei a petição, deixando antes disso um comentário de apoio no post de Pedro Cipriano, com quem me solidarizei depois de ler tão fortes palavras.

Queria ver feita justiça!

Nada me fazia antever a reviravolta que se seguiria.

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créditos da imagem: Pexels/Pixabay

Ato 2: A APEL contra-ataca

Eu não vos disse que a vida dos autores portugueses se parece muito com os livros Dan Brown? Até temos o plot twist que ninguém esperava.

Quando (quase) toda a comunidade literária online estava empenhada em lutar pelo direito destas 40 editoras pequenas a estarem na Feira do Livro de Lisboa, fazendo da APEL a vilã desta história, eis que, numa reviravolta impressionante, a APEL lança um comunicado que vem confundir (ou esclarecer) toda a gente.

Eu tinha assinado aquela petição com as garras bem afiadas e prontas a defender os meus estimados autores independentes. O Café Mais Geek também partilhara a petição, procurando ajudar o mais possível quem estaria a ser deixado de parte pela APEL. Mas é então que tudo muda.

A 10 de Março a APEL faz revelações inesperadas: “é inteiramente falsa a afirmação de que ‘40 editoras independentes’ tenham sido afastadas da Feira do Livro de Lisboa”, diz o comunicado, onde é ainda possível ler mais detalhes pesados e que mudam totalmente a perspetiva sobre o que a DNL Convergência denunciara.

Sem rodeios, a APEL optou por pormenorizar o porquê de não aceitar a DNL Convergência nesta feira do livro:

“Esta decisão teve por base o histórico de participação da DNL Convergência, Lda., na Feira do Livro. A APEL tomou conhecimento de que alguns autores terão pago valores significativos para que os seus livros fossem expostos no seu pavilhão prática que estaria a ser novamente promovida em publicações nas redes sociais com vista à edição de 2026.”

“A APEL entende que este tipo de prática configura uma utilização comercial abusiva de um pavilhão da Feira do Livro (…). Este modelo de participação não salvaguarda os interesses nem os valores da classe editorial e livreira que a APEL representa”

“Na edição de 2025 foram registados incumprimentos reiterados do Regulamento da Feira pela DNL Convergência, Lda., mesmo após notificação formal para correção dessas situações, nomeadamente a ocupação abusiva de espaço com impacto económico direto em participantes localizados em pavilhões contíguos”.

“(…) A APEL recebeu ainda denúncias de autores e de outros editores relativas a práticas de mercado consideradas incorretas levadas a cabo pela DNL Convergência, Lda., incluindo relatos de não pagamento de venda”.

Como se não bastasse já este comunicado bastante revelador, a trama começa a adensar-se cada vez mais. É através do vídeo da influenciadora literária Andreia Machado, no Instagram, que começo a notar uma tendência. Tal como noutros posts semelhantes, parece haver sempre algum autor descontente e com acusações (umas mais diretas, outras mais subtis) nas caixas de comentários. E onde há fumo…

Há fogo! O texto da APEL falava em denúncias de autores. E foi aqui que eu soube que devia investigar mais a origem de tanto calor.

Falo primeiro com Andreia Machado, que confessa ter também agora algum arrependimento por ter assinado a tal petição. “Senti-me enganada”. E eu também, Andreia, e eu também. Ao fim de algumas mensagens e desabafos sobre a pobre vida de quem escreve livros em Portugal, a Andreia consegue-me o contacto de alguns autores ligados à DNL Convergência.  

E agora preparem-se. Porque se o plot já estava denso, a partir de agora não leitor (ou editor) que aguente com tanto subplot nesta história.

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créditos da imagem: Alessandro Matonti/Pexels

Ato 3: os autores saem da sombra

E como em quase tudo no mundo editorial, não é de estranhar que os autores venham por último. Mas cá estão eles. Mais vale tarde do que nunca.

Dos autores a quem consegui chegar, muitos não quiserem falar por medo de represálias ou por terem processos em andamento contra a DNL Convergência. Um dos autores confessa-me que gostaria muito de falar, mas que “são coisas que têm de ser bem faladas com um advogado primeiro”.

Depois de muito tentar, lá consigo chegar a dois autores que aceitam responder às minhas questões, com uma única condição: manter o anonimato.

Nota: Como prova da sua ligação à DNL Convergência, pedi aos autores que me dessem pormenores das obras publicadas, do trabalho feito em conjunto com a editora/distribuidora e da relação atual com a mesma. Para preservar o anonimato, esses detalhes ficarão de fora deste artigo e os autores serão sempre referidos como “o autor”(sem especificação de género).

“Todo o suposto grupo editorial não passa de praticamente um one-man show liderado pelo Pedro Cipriano, que usa várias designações – Divergência, Convergência, Foco, Trebaruna, etc. – fingindo ter uma dimensão que não tem. Existe o caricato, por exemplo, e tenho emails nesse sentido, de quando o Cipriano se queria escusar de responder a problemas levantados, descaradamente mentindo que não tinha nada que ver com a Convergência, dizendo que nem sequer trabalhava lá!” – é assim que começa o relato do primeiro autor, que só se enreda depois disto. Os autores alegam faltas de pagamento, falhas na comunicação e não só.

“Já há alguns anos que venho a apurar alguns fatos e acabei por formar uma opinião bastante sólida sobre alegadas más práticas na edição e comercialização do meu livro, assim como prováveis faltas de pagamento de direitos de autor, pelo que resolvi não renovar os meus contratos de edição. (…) Opus-me à renovação dos contratos, conforme estipulado em cada um, dentro do prazo e seguindo as indicações do contrato. E até nisso o Cipriano dificulta a vida aos autores, porque não recebe as notificações devidas, inventando moradas e voltando a mentir sobre essa matéria. Por aqui, já podemos aferir com quem estamos a lidar”.

Se para uns o lançamento da petição foi inesperado, para estes autores foi ainda mais. “Foi com imensa surpresa que tomei conhecimento da petição. Sabendo com quem tenho estado a lidar, achei de um descaramento incrível. Ora, daquilo que é do meu conhecimento, essas supostas 40 editoras independentes, são meramente distribuídas pela DNLC. Desde quando um vendedor tem poderes de representação? Achei terrível que ninguém tenha colocado as perguntas certas e pedido essa evidência. E desataram a partilhar uma petição que está alegadamente ferida de inverdades”.

Nem eu o imaginava, mas ao descer mais fundo nesta investigação, foi como abrir uma caixa de pandora de acusações. Este autor continua o seu relato sem se poupar nas palavras: “A DNL Convergência, representada pelo seu sócio-gerente Pedro Cipriano, está a dever-me o pagamento de direitos de autor e nem sequer considera pagar o que me deve. Nem responde aos emails e contactos. Eu só quero o que me cabe, por direito contratual, não lhe estou a tirar nenhum pedaço, ao contrário do que ele faz comigo e com outros autores, em que se vai alegadamente governando com os nossos livros e as nossas obras. Ao ler o comunicado da APEL senti que finalmente alguma coisa estava a acontecer a uma pessoa e a uma organização que continua a proceder de má-fé e a mentir, para construir uma imagem e uma narrativa que esconde o que ele faz. Não é normal, por exemplo, que eu já não consiga falar com o Pedro Cipriano por telefone! Não seria mais fácil resolver a situação a bem?”.

A frustração é palpável. Tinha preparado mais questões, mas estas nem chegam a ser necessárias. O autor revela até mais do que eu esperava. “Sim, há mais autores descontentes que, para não terem chatices, nem consideram revelar estas situações. É esta conspiração do silêncio que acaba por beneficiar a DNLC e o Pedro Cipriano”.

Mas há outra pessoa que decide quebrar esse silêncio e a história ganha novos contornos.

“Assinei a petição quando surgiu e arrependi-me”, afirma este autor no seu testemunho. Mas há mais: “Nunca me foi pedido qualquer valor monetário para estar na feira do livro, tanto a vender o meu livro como a dar autógrafos, não sei o que entretanto poderá ter mudado”.

“Inicialmente (quando vi a petição da DNLC), ainda achava que envolvia outra editoras independentes, e deixou-me furioso. Por isso, assinei. Depois, quando vi a última declaração da APEL, e percebi que eram apenas editoras ligadas à DNL. Aquilo que sinto, neste momento, é vitória, por ver exposto tantas mentiras e enganos que pautam esta editora/distribuidora. E principalmente pela responsabilização da pessoa que é responsável por tudo isto e que constantemente tenta culpar outras pessoas e entidades”.

Mas de onde vem toda esta revolta e descontentamento? A resposta parece ir de encontro às palavras do primeiro autor: “Há muita falta de comunicação interna. As culpas são atiradas para pessoas inocentes. Os pagamentos não são feitos ou chegam muito tarde (acompanhados de ameaças ou mesmo processos judiciais). Não são cumpridas as promessas”.

E se há todo este descontentamento geral, porque é tão forte a tal conspiração do silêncio? Necessito de mais evidências, de ir mais fundo, e obtenho a resposta que faltava: “Há bastantes autores descontentes. Já houve alguns que falaram publicamente, o que resultou num e-mail da Editorial Divergência com discussão entre os autores e o editor, mas com conhecimento de todas as pessoas publicadas por eles. Foi uma lavagem de roupa suja em público. Há também outros autores que pertenceram a editoras anteriormente representadas pela Convergência, e os próprios diretores dessas editoras, que também poderão ter algo a dizer. Espero que venha mais gente revelar, mas acho que, e infelizmente é típico em Portugal, vários autores vão escolher o silêncio, sobre pena e receio de mancharem o nome no mercado”.

E eis que chegamos a um impasse. Tantas vezes referido nesta história, assumindo já quase o papel de personagem principal, há um nome que ainda não falou diretamente, mas que importa ouvir nesta narrativa. O que terá Pedro Cipriano a dizer sobre estas declarações dos autores? Que comentários poderá apresentar em sua defesa contra as alegações destes autores?

Há outro ângulo, o ponto de vista de outro personagem, que ainda não conhecemos totalmente. Achando justo, e por direito, dar uma oportunidade de resposta a estas alegações, o Café Mais Geek procurou Pedro Cipriano que, em nome da DNL Convergência, nos enviou este esclarecimento. Deixarei o texto palava por palavra.

“Relativamente aos pontos mencionados, a DNL Convergência esclarece o seguinte:

1. Rigor Financeiro e Cumprimento de Obrigações

A DNL Convergência refuta categoricamente qualquer acusação de incumprimento generalizado. Reafirmamos que não existem dívidas de direitos de autor vencidas que não tenham sido liquidadas ou que não estejam em conformidade com os calendários contratuais estabelecidos. Só no último ano, a DNL processou o pagamento de mais de 10.000€ em direitos de autor, tendo inclusive efetuado adiantamentos por iniciativa própria para apoiar os seus autores.

2. Validação pelas Autoridades Competentes (AT e IGAC)

É fundamental sublinhar que a DNL foi alvo de auditorias profundas por parte da Autoridade Tributária (AT) e da IGAC na sequência de denúncias semelhantes efetuadas em 2025. Ambas as entidades concluíram pela total inexistência de irregularidades, validando a nossa transparência fiscal e contratual. Estranhamos que, perante a ilibação por parte das autoridades públicas, se tente sustentar uma narrativa de “más práticas” com base em testemunhos anónimos.

3. Delimitação de Responsabilidades

A DNL Convergência atua, em muitos casos, como coordenadora logística de editoras independentes. É imperativo distinguir as responsabilidades da DNL das decisões editoriais ou contratuais de terceiros que representamos. Imputar à DNL atos de outras entidades, sem conceder o direito ao contraditório prévio à exclusão da Feira do Livro, configura uma decisão arbitrária e de má-fé por parte da Direção da APEL.

4. Contextualização: Campanha de Difamação Identificada

Os testemunhos anónimos citados coincidem, no seu teor e timing, com uma campanha de assédio e coação que temos sofrido desde 2025 por um grupo restrito de indivíduos. Estes ataques, que incluem insultos documentados aos nossos colaboradores, visam apenas criar um ruído reputacional para justificar a decisão política da APEL — que, em reunião a 6 de março, admitiu a ausência de critérios objetivos para a seleção dos participantes na FLL.

5. Defesa da Bibliodiversidade e Ação Legal

Lamentamos que a APEL, associação da qual somos sócios, utilize os seus canais para atacar um associado em vez de proteger as pequenas editoras. A DNL Convergência reserva-se o direito de utilizar todos os meios legais para repor a verdade e defender o seu bom nome.

É importante notar que todos estes esclarecimentos e provas foram partilhados com a APEL em fevereiro de 2025, na sequência de denúncias idênticas. O facto de estas alegações, já refutadas e ilibadas pelas autoridades, estarem a ser recicladas agora, demonstra o caráter puramente difamatório desta ação. Estamos totalmente disponíveis para facultar provas documentais adicionais que comprovem o cumprimento das nossas obrigações fiscais e contratuais.”

Continua?

Não estranharei se o leitor até aqui ainda não tiver tomado uma posição ou se continuar com dúvidas sobre quem está certo e errado nesta história. Todos os pontos de vista, seja da DNL Convergência, da APEL ou dos autores, apresentam queixas e contrapontos que não facilitam conclusões, mas que são importantes para compreender tudo o que está por detrás de uma máquina tão complexa como é o mercado editorial português e, mais propriamente neste caso, a grande montra que é a Feira do Livro de Lisboa.

Escrever este artigo foi um ato de investigação demorado. Tentando chegar a todos os intervenientes, sem negar a fala a ninguém, foi importante trazer todos os elementos para a mesa. Só assim podemos ser justos.

Poderá esta história ter uma continuação, um desfecho diferente ou outra abordagem? Haverá outro ponto de vista que ainda nos seja desconhecido?

O tempo dirá.

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Filipe Branco
Fã de cultura geek em geral, mas é nos livros, videojogos e cinema onde mais me perco. Adoro escrever sobre o que me apaixona e eventos de gaming é comigo. Podem encontrar-me online ou à deriva num dos extensos corredores da próxima Gamescom.

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