Do papel ao ecrã: o que se perde e o que se ganha quando adaptamos livros

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A meu ver, não há nada como um livro. A magia da imaginação provou ser, vezes sem conta, cúmplice das mais belas histórias contadas. Assim sendo, o mundo do fantástico é tão adorado que apenas ser concebido na cabeça dos seus leitores não é suficiente. Com o vasto crescimento dos fandoms e da sua adoração por estas histórias, os fãs querem mais. Posto isto, a adaptação cinematográfica evoluiu quase como uma necessidade dos leitores dos originais. Contudo, é crucial ter em conta que o sucesso não é garantido: a construção de uma nova peça de um mundo já criado pode ser calorosamente acolhida ou ser responsável pela sua destruição. Desta maneira, é crucial perceber de que modo estas adaptações afetam a compreensão das obras, especialmente no que toca às complexidades da criação de universos fantásticos.

Como ávida leitora e estudante de literatura, custa-me aceitar a realidade: apesar de serem fontes de grandes sucessos de bilheteira, a pessoa comum prefere ver grandes narrativas no cinema a ler a obra original. Esta triste preferência ilustra perfeitamente o principal benefício da adaptação para o big screen: visibilidade. Tendo em conta a percentagem de crianças e adultos que acham livros entediantes, torná-los experiências cinematográficas aumenta o seu alcance e a consequente probabilidade de sucesso. Por outro lado, uma experiência positiva diante destas adaptações pode despertar uma curiosidade que leve mesmo à leitura do original. Tomemos como exemplo um dos grandes sucessos da Netflix, Bridgerton. A série catapultou a saga de Julia Quinn para o topo das listas de best-sellers em todo o mundo. Os livros, que já existiam há anos, tornaram-se um fenómeno de vendas a cada nova temporada.

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Contudo, nem todas as obras originais precisam do impulso da adaptação para se tornarem conhecidas. Uma série ou um filme baseado num livro com uma fanbase minimamente ativa expõe-se a inúmeras expectativas e desejos que nem sempre são cumpridos. Detalhes cruciais são eliminados, personagens favoritas são esquecidas e cenas estrondosamente impactantes são meramente cortadas.

Isto leva-nos à limitação mais óbvia do mundo dos ecrãs: o tempo. Mesmo que um livro seja adaptado para uma série, a impossibilidade de incluir todas as variantes e complexidades resulta numa produção que nem sempre faz jus ao original. Percy Jackson e o Ladrão de Raios (2010) é um claro exemplo de uma adaptação falhada. A saga de Rick Riordan contava com uma multidão de fãs que demonstraram o seu desagrado face às vastas alterações, tanto da história como das personagens principais. O descontentamento e as críticas negativas à adaptação levaram à sua descontinuação após o segundo filme.

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Dito isto, acredito que o maior problema das adaptações seja a sua desnecessária experiência de criação e inovação. A meu ver, chega a tornar-se cómica a tentativa de alterar um original que, por si só, já era amado. Adaptações como Eragon (2006) e A Bússola de Ouro (2007) foram extremamente condenadas pelas suas falhas em capturar a essência e profundidade dos livros originais, criando filmes genéricos e apressados que em nada se assemelham aos seus modelos, levando ao consequente cancelamento de ambas as sagas.

Não querendo que as minhas palavras sejam mal interpretadas, não defendo que qualquer tipo de mudança seja intrinsecamente má. Se assim fosse, a discussão das adaptações nem seria um tema. Contudo, acredito que seja crucial identificar até que ponto os fãs aceitam estas mudanças. Temos como claro exemplo a saga Harry Potter que, apesar dos inúmeros detalhes apagados ou alterados, continua a ser uma das minhas adaptações preferidas e a saga fantástica com maior sucesso nas bilheteiras.

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No entanto, adaptações live-action recentes de clássicos da Disney, como A Pequena Sereia (2023) ou Branca de Neve (2025), foram arrasadas por fãs e críticos, descritas como “tentativas falhadas de reviver sentimentos de nostalgia”, “cópias baratas sem a magia do original” e “remakes extremamente desnecessários”. Este forte sentimento de desilusão e raiva por parte do público levanta a questão: até que ponto é que os fãs aceitam mudança? Há características cruciais a serem mantidas para uma boa adaptação?

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Em suma, acredito que o sucesso de uma adaptação literária reside na capacidade de criar conteúdo com visibilidade comercial que respeite a obra original. Não sendo possível prever a opinião da fanbase com exatidão, é fundamental que a equipa de produção procure um equilíbrio entre a fidelidade narrativa e a inevitável reinvenção. A capacidade de criar atmosferas condizentes com a essência dos livros demonstra a homenagem necessária a estas histórias tão amadas. A recompensa final de uma adaptação bem-sucedida transcende a bilheteira: toda a gente gosta de ver as suas personagens favoritas ganhar vida. Acima de tudo, é importante realizar esse desejo.

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Maria Afonso
Sou estudante de literatura na faculdade de letras e jogadora sub-21 de voleibol. Amante de livros e de ficção procuro descobrir e estudar tudo o que a fantasia tem para oferecer.

Colaboraram neste artigo

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