Duas histórias, dois murros no estômago: o novo Hermann da Arte de Autor

Duas histórias assinadas por Hermann Huppen e Yves H. que prometem um retrato cru da violência, da culpa e da humanidade, agora reunidas num único volume da Arte de Autor.
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Há livros que não pedem pressa. Pedem atenção, silêncio e alguma disponibilidade emocional do nosso lado. Este novo volume da Arte de Autor, que reúne duas histórias assinadas por Hermann Huppen e pelo seu filho Yves H., parece encaixar exatamente nessa categoria.

À primeira vista, é mais uma edição cuidada de autores consagrados. Mas basta olhar para os temas, para o peso das sinopses e para a identidade visual das páginas para perceber que estamos perante um livro que não procura facilitar a leitura nem oferecer conforto.

A América que nunca deixou de sangrar

A primeira história leva-nos ao Mississippi dos anos 60, num território onde o racismo não é apenas contexto, mas motor narrativo. Hermann e Yves H. constroem um retrato cru e profundamente humanista de uma América marcada pela violência estrutural, acompanhando um velho afro-americano que decide agir após a morte da esposa e o assassinato impune da neta.

É uma narrativa dura, sem atalhos morais ou heróis clássicos. Tudo parece pesado, inevitável e profundamente humano, num tom que provoca desconforto e convida à reflexão, especialmente num momento histórico em que estes temas continuam assustadoramente atuais.

Um western sobre herança, culpa e redenção

A segunda história muda de cenário, mas não de intensidade. Num registo western, pai e filho exploram a herança da violência e o peso da culpa ao longo do tempo. Acompanhamos um pai e o seu filho separados por escolhas erradas, pelo crime e por uma distância emocional que parece impossível de reparar.

Mesmo neste primeiro olhar, percebe-se que este não é um western de ação fácil, mas um western de silêncios, consequências e feridas abertas. A redenção existe como possibilidade, nunca como promessa.

Primeiro olhar: o encontro de duas gerações no mesmo tom

Este volume cartonado, com 112 páginas a cores e lançamento previsto para o final de janeiro, transmite desde logo a sensação de uma edição pensada para durar. Não apenas pelo acabamento prometido, mas pelo peso temático do que reúne.

Neste primeiro contacto, fica clara a coerência entre as duas histórias, mesmo partindo de géneros e épocas diferentes. Racismo, violência, culpa, justiça e humanidade atravessam o livro de forma consistente, num diálogo evidente entre duas gerações de autores que partilham a mesma visão dura, adulta e sem concessões.

Não parece ser um álbum para ler de uma assentada, nem para fechar e esquecer. Tudo indica que será daqueles livros que ficam a ecoar, muito depois da última página virada.

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Eduardo Rodrigues
Considero-me um geek da cabeça aos pés. Adoro uma boa leitura, apreciar a arte da BD e da Manga, ver de uma assentada aquela série ou anime incrível, ir ao cinema e devorar um filme e deliciar-me com uma aventura interativa nos videojogos e nos jogos de tabuleiro. Sou um adepto da mágica Briosa e um assistente fervoroso no estádio.

Colaboraram neste artigo

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