Na visita do Café Mais Geek ao Mercado Pardal, viu-se que o evento é muito mais que um ponto de venda. É um ponto de encontro de artistas, público e interessados pela arte e cultura pop. No bom ambiente do Mercado Pardal, encontraram-se clientes e artistas em cosplay, a partilharem histórias e interesses em comum – tudo num espaço íntimo.
Enquanto o Café Mais Geek procurou conhecer os artistas do mercado, a grande diferença entre um evento pequeno, como o Mercado Pardal, e eventos maiores tornou-se clara. Não só a familiaridade de todos envolvidos era evidente, como o próprio espirito do mercado era diferente. No Mercado Pardal, viu-se um ambiente de partilha e inclusão, em vez de um momento rápido de compra.
Face às recentes controvérsias e descontentamento da comunidade artística portuguesa para com eventos como o Iberanime, foi importante perguntar como é que a comunidade vê eventos tipo o Mercado Pardal. Para tal, o Café Mais Geek abordou duas mesas de artistas diferentes, para tentar alcançar diferentes perspetivas da comunidade de artistas do Mercado. Primeiro, o Café Mais Geek falou com Vorpal e Lisa, duas artistas em Cosplay:
O que é que vos traz ao Mercado Pardal? Porque é que vocês vêm cá todas as Edições?
V: Pela minha experiência, sinto que o Pardal é dos mercados mais acessíveis. Não só pelo que tem que oferecer, mas o público que traz. Tendo em conta que já fui a mercados em Lisboa, alguns no Porto, sinto que a organização conseguiu organizar isto de uma forma tão boa ao ponto de conseguir dar o merge perfeito de marketing, imagem, escolha de artistas e público que traz. Tens muita gente que vem sempre [ao Mercado Pardal]. Isso não é uma coisa que se note [noutros mercados], e é um algoque nos deixa felizes, como artistas; especialmente aqui.
L: Não sei o que mais acrescentar a isto. Acho que o Pardal também faz uma boa seleção de artistas, ao contrário de alguns eventos muito grandes. É acessível para nós; o preço que temos que pagar para estar aqui é um bocado simbólico.
O que é que vocês acham que falta em eventos maiores para sere mais bem reconhecidos e recebidos?
L: Falta noção. [É preciso] não levarem artistas que fazem tracing e A.I Art, e coisas assim. Isso depois dá um bocado de má imagem a esses eventos um bocado maiores.
V: [Os organizadores do mercado Pardal] têm um cuidado muito grande na seleção [de artistas]. Isso nota-se; transparece bastante. Quando vamos ver outros mercados, se calhar já não é a mesma coisa. Já não estou a falar das Cons grandes, estou a falar dos mercados. Isso falta, porque cria fidelização dos artistas e do povo.
L: Sinto que há muito respeito dos artistas para com O Pardal. Se calhar não temos o mesmo respeito por outros eventos.
V: Artistas, e o público.
Falando do público. Como é que diriam que é a vossa relação Artista-Público, aqui no Pardal e comparado com outros eventos?

V: Aqui querem saber de nós como artistas, enquanto que nos outros eventos querem saber de nós como quase vendedores de merchandise. Estamos ali, mas somos iguais ao vizinho do lado. Somos todos diferentes, à nossa maneira, e temos todos coisas diferentes para oferecer e aqui [no Pardal] reconhecem-nos isso. Lá fora nem tanto.
L: Nas Cons grandes costumamos estar misturados com revendedores de merch do AliExpress e coisas assim, que acabam sempre por afetar a nossa imagem como artistas. Há uma comparação muito grande de preços, que não são comparáveis. Há comparação de volume, muitas vezes; não conseguimos produzir da mesma forma que uma fábrica.
De seguida, voltamos a falar com Inês Guedes e o seu parceiro de mesa, Guiiness.
Do ponto de vista da vossa comunidade de artistas, qual é o maior obstáculo que têm relativamente aos eventos maiores?
I: A nível de preços, tem sido complicado – e acho que vai ser a resposta que a maioria de nós vai dar. Nem sempre são preços muito acessíveis para a comunidade de artistas, principalmente considerando as condições que são dadas. São eventos maiores, sem dúvida, dão muita visibilidade; mas outras coisas que se calhar acontecem nesses eventos – ao nível das condições – se calhar não correspondem ao que seria espectável do preço que está a ser pago. Eu acho que isso é algo importante a ter em conta. E mais uma vez, claro que isto acaba por ser algo que nós gostamos todos, é a personalização do evento. Sentir que a organização, e quem está por trás das coisas, está próximo e que está – e digo isto mesmo antes de organizar um mercado – gostava de participar em eventos em que sentia que a organização era uma pessoa a quem eu podia diretamente ir dizer algo, e acho que isso foi um dos motores para nós querermos que o Pardal fosse assim. É uma questão do tipo “Eu gostava que isto fosse mais assim. Bem, então vou esforçar-me para ser assim.” Acho que haver esse contacto é muito interessante, e é pena não ser possível em eventos de maior dimensão.
G: É exatamente a mesma coisa. Estou a começar e não me sinto confortável a ir a esses eventos, porque não tenho o dinheiro para fazer o investimento. Não são acessíveis à comunidade artística, enquanto que mercados como o Pardal são ótimos para começar, para vir, para explorar e para aprender. É incrível. Era bom que houvesse mais assim.
Como é a vossa relação artista-público, e como comparariam com a de mercados maiores?

I: Sinto que é uma relação bastante casual e informal. É muito interessante este tipo de coisa, porque a arte é sempre uma forma de comunicação e partilha, e estamos sempre a expor-nos, em parte, e estamos sempre a contar algo sobre nós. É brutal o facto que isso cria logo uma ponte de comunicação. Uma pessoa chega e vemos logo algo que temos em comum, percebemos logo que há ali um tema de conversa. É muito interessante ver estas conversas que não começam com “olá, eu sou…” Não. Começam com “Tu gostas disto? Eu também!” Esse tipo de comunicação é algo tão interessante e que não acontece diariamente, acontece neste tipo de contextos. Então, pessoalmente, gosto muito deste tipo de interações. Acho engraçado como se consegue ter toda uma conversa sobre um tópico que duas pessoas gostam e, ao fim de dez minutos a falar, percebemos que não sabemos o nome uma da outra. É muito engraçado e muito característico destes contextos.
G: Acho que o que gosto mais, em termos dessa relação, é ver todos os meses as mesmas pessoas a virem – e já os conheces. Já não são só clientes que estão ali e apareceram. São pessoas que já esperas ver, pessoas que já cumprimentas. O Pardal são os artistas, mas também as pessoas que vêm aqui; e há pessoal que se não vierem não é o mesmo Pardal. Deixa de ser só uma coisa em que estás a vender e um negócio, que eu sinto que é o que acontece nos eventos maiores. Estás ali no negócio, as pessoas são clientes, e não há mais conexão para além disso – aqui não. Aqui tu falas, crias ligações com as pessoas com quem estás, e eu adoro isso. Para mim é o melhor. As vezes não venho pela venda, mas pelo contacto.