Eu já (vi)vi este filme!

Valor Sentimental, de Joachim Trier, é um filme profundamente banal no melhor sentido da palavra. Uma reflexão sobre relações familiares, ausência e a honestidade dos chamados filmes “básicos”.
blank

Desengane-se quem, ao ler o título, pensou que este texto pudesse ser sobre filmes como Scarface (Brian De Palma, 1983) ou um qualquer filme da Marvel. Embora seja fácil projetarmo-nos em heróis e/ou vilões, a verdade é que identificar a nossa vida na de Tony Montana é, de certa forma, problemático…

Não obstante, este texto é sobre filmes “básicos”. Considero um filme “básico” quando o seu contexto não extrapola para além daquilo que vivemos diariamente. As rom-coms são, comummente, filmes “básicos”, pois tratam a temática do amor de forma bastante simples. Olhemos para Frankie and Johnny (Garry Marshall, 1991); talvez não seja o melhor exemplo do que é o amor no seu estado mais puro, mas é sem dúvida um bom exemplo desta minha ideia: duas pessoas normais, sem glamour, sem grandes acontecimentos nas suas vidas, mas ambas com medo, com desejo, com os seus passados e as suas fragilidades. Filmes como este não precisam de um grande evento dramático para justificar a sua existência, porque o conflito nasce das relações que temos entre nós.

É uma proposta básica, simples na sua génese, mas honesta, acima de tudo. E é essa a maior força dos filmes “básicos”: a honestidade. A vida é básica e existe uma enorme probabilidade de nunca atingirmos um clímax extremo ao longo das nossas vidas. Tudo depende, lá está, do contexto, mas a verdade é que nem todos possuímos no nosso quotidiano um sentido de urgência.

É neste momento que este texto se transforma numa subtil análise do filme Valor Sentimental (Joachim Trier, 2025), que vou afirmar ser um filme profundamente banal. Que a palavra utilizada não lhe tire qualquer tipo de mérito, pois a sua banalidade é, na verdade, uma das suas maiores virtudes. O filme demonstra como a vida, só por si, é complicada. Como, por vezes, a maior urgência não é uma bomba que pode rebentar a qualquer instante, mas sim a incerteza do que nos espera no dia de amanhã.

Vamos aos básicos: Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) são filhas do realizador Gustav Borg (Stellan Skarsgård). Gustav foi um pai ausente, que reaparece na vida das filhas após o falecimento da mãe das mesmas.

Este reaparecimento traz, no entanto, “água no bico”. Gustav quer que a filha mais velha, Nora, estrele o seu novo filme. Um filme que alega ter escrito propositadamente para ela. Nora é uma atriz de teatro, modalidade que o pai odeia, e portanto não compreende o porquê deste desejo do pai. Acima de tudo, existe um conflito de interesses: Gustav quer trabalhar com a filha, mas a filha gostava de ter tido um pai presente. Esta tensão que existe entre ambos faz com que Nora afirme não conseguir trabalhar com o pai.

Voltemos à temática inicial; Quem nunca teve uma desavença com um dos pais? É natural que aconteça. À medida que crescemos começamos a tornar-nos independentes, especialmente a nível ideológico. É nesta altura que começamos a olhar para os nossos pais e a perceber que talvez não consigamos concordar totalmente com aquela pessoa que, até ali, nos pareceu sempre a dona da razão. É natural e faz parte do desenvolvimento do ser. No entanto, talvez muitos de nós nunca tenhamos passado pelo abandono de uma das partes. É uma situação mais específica e que não será transversal a todos os espectadores. Mas de certo que alguém se identificará com ela. 

É certo que o cinema tem o poder, quase mágico, de nos fazer sentir empatia por realidades que nunca habitaremos; podemos, por momentos, projetar as nossas angústias na vida vertiginosa de Henry Hill, em Goodfellas (Martin Scorsese, 1990). No entanto, existe uma diferença entre a empatia pelo extraordinário e o reconhecimento do banal. Enquanto a vida de um membro da máfia nos fascina e nos faz padecer de uma curiosidade distante e quase infantil, a situação de Nora é, inevitavelmente, muito mais familiar.

Aliás, a situação é familiar dentro do próprio filme: Gustav sente o que Nora sente. A sua vivência não é ligada apenas pela relação pai/filha, mas sim por terem vivido situações semelhantes em algum momento de ambas as suas vidas. São vivências separadas que em tudo se unem, pelo meio do ser. E o “ser”, neste caso, refere-se ao ser humano. Não o Ser Humano, enquanto espécie. Mas o ser humano, enquanto vivência.

Cada pessoa terá um filme favorito, e o filme favorito de cada um dependerá de quem essa mesma pessoa é. Por alguma razão esse filme foi (ou é) marcante. O mais provável é que exista um sentido de identificação pessoal, tornando o filme uma experiência muito mais apetecível e singular.

Talvez alguém se tenha identificado com a mente brilhante e inquieta de Will Hunting (O Bom Rebelde, 1997). Talvez alguém tenha visto a sua relação no grande ecrã ao ver Antes do Amanhecer (1995). Talvez alguém se tenha identificado com Arthur Fleck (Joker, 2018) e com a sua incapacidade de se enturmar na sociedade, ainda que as suas ações sejam em (grande) parte descabidas… Afinal, é um filme, e independentemente de qual seja a identificação e/ou associação feitas, serve isto para dizer que nunca estamos realmente sozinhos. 

A solidão é, por vezes, uma construção da mente para assegurar e/ou validar um estado emocional. Não digo que a solidão não seja real, mas a verdade é que nunca estamos realmente sozinhos. Quando pensamos que ninguém nos compreende eis que surge alguém, do outro lado do mundo, que escreve uma narrativa que exemplifica, quase na perfeição, aquilo que sentimos. A nossa solidão não é validada por nos identificarmos com a solidão do outro. Aliás, é essa mesma identificação que retira força à nossa solidão.

O nosso quotidiano acaba por ser o verdadeiro blockbuster: muito pouca gente morre em explosões, mas todos perdemos alguém. Todos falhamos e todos já ficámos a olhar para o teto, às três da manhã, a pensar no que poderia ter sido. Provavelmente, a vida não tem muito de Kill Bill (Quentin Tarantino, 2003), mas de certo que terá muito de Valor Sentimental.

Picture of Duarte Valério
Duarte Valério
Mestre em Audiovisual e Multimédia (ESCS), Duarte Valério abomina quem se descreve, inicialmente, pelo título académico... E na terceira pessoa. Com uma paixão e frequente contacto com o mundo do Cinema, da banda-desenhada e dos vídeo-jogos, decidi dedicar-me à escrita pois considero que seja a melhor forma de expressão, superando a oralidade.

PUBLICIDADE

Últimos artigos

PUBLICIDADE

Achamos que também podes gostar disto

PUBLICIDADE