Exclusivo: A verdade por detrás do fecho da Merge Games

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O anúncio do encerramento da Merge Games apanhou todos de surpresa. Com um rico catálogo de jogos indie de aparente sucesso sob a sua distribuição, de onde se contam títulos como uma edição especial física de Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge e ainda Indika, Bramble The Mountain King e Dead Cells, nada faria adivinhar este desfecho.

Depois de ter marcado presença na Gamescom apenas há um mês, onde mostrou aos jornalistas jogos como Selfloss, lançado há semanas, e o aguardado Spirit of The North 2, algo pareceu não fazer sentido neste súbito anúncio de fecho desta editora e distribuidora independente.

Informações contraditórias

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A primeira imagem partilhada no Instagram da Merge Games.

Esta foi a imagem partilhada em todas as redes sociais com um texto que, resumidamente, dizia: “Após 15 anos, a Merge Games vai fechar. Começámos como uma pequena equipa de 22 pessoas num sótão apertado e trouxemos-vos centenas de joias indie. Se virem alguém da Merge, saibam que é uma pessoa incrível e muito trabalhadora. Obrigado por todos estes anos de gaming”.

Spirit of the North 2 teve grande destaque no stand da Xbox da Gamescom e isto foi algo bastante anunciado pela Merge Games antes do evento. Estive com as equipas desta sequela, um dos indies mais adorados dos últimos anos, e a de Selfloss. E o facto de ainda nem ter passado um mês sobre isto, deixou-me curioso. Havia algo que não me fazia sentido aqui. E foi por isso que decidi investigar.

Ainda mal me tinha sentado para procurar mais detalhes, quando vejo ser publicado no X e Instagram um novo anúncio com uma linguagem muito mais fria e… contraditória.

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O segundo anúncio, que substituiu o primeiro.

Esta nova imagem traz apenas a informação de que a Merge Games simplesmente se fundiu com a Maximum Entertainment, o que não faz sentido com o tom de fecho da comunicação prévia. Mais grave. A imagem da publicação anterior, que contava já com milhares de gostos e comentários de muitos fãs e colegas da indústria a manifestar a sua tristeza e apoio, foi simplesmente eliminada, como se esse anúncio (essa realidade) nunca tivesse existido.

As horas desta quinta-feira já iam tardias quando consegui, finalmente, chegar a um contacto da Merge Games que se dispôs a falar. É um ex-funcionário da empresa. Para preservar o anonimato, vamos chamar-lhe Jack.

A sua primeira confissão traz alguma luz ao caso: “A Merge despediu 20 pessoas hoje e manteve só 2 pessoas para gerir as vendas”.

E o que é, afinal, aquele segundo post nas redes sociais? “É apenas a nossa empresa-mãe, a Maximum Entertainment, a segurar o cadáver da Merge para tentar salvar a sua reputação” – diz-me, friamente, a revolta bem presente nas suas palavras.

Despedimentos, má comunicação e o futuro

Por ter tido este contacto tão recente com a equipa da editora, levantei questões sobre se nessa altura já teriam sido informados dos despedimentos. As datas, feitas as contas, trazem algum choque inicial. Pelo que parece, a equipa foi avisada logo após (ou ainda durante) a Gamescom. “Fomos avisados com 30 dias de antecedência, mas foi-nos dito que não podíamos falar publicamente sobre o despedimento, exceto para ajudar na nossa procura de emprego”.

Alguns jogos dos quais fizemos cobertura aqui no Café Mais Geek foram-nos trazidos por esta editora e alguns serão ainda publicados, supõe-se, pela Merge Games. Há dúvidas exatamente sobre o futuro dessas propriedades, que embora tenham os seus estúdios próprios, estão ainda ligadas à Merge. Jack mostra alguns receios quando falamos disto: “Esses títulos estão agora a ser geridos pela empresa-mãe, gostaria de pensar que serão bem tratados, mas não estou confiante.”

Acusações de assédio, dívidas e mais

Mas há revelações surpreendentes e que até já foram abordadas numa reunião com investidores aqui.

“A companhia não nos deu qualquer razão para o facto de ter apagado a primeira publicação, que era apenas um agradecimento aos nossos fãs, e depois ter feito uma nova, mas posso especular: a empresa é muito cuidadosa com a sua imagem porque está atualmente a ser alvo de uma ação judicial”.

Num comunicado com data de 9 de Setembro de 2024, destinado sobretudo a investidores e imprensa, tudo começa a fazer mais sentido. Jack acrescenta ainda alguma informação: “No comunicado sobre o assunto, podes ler coisas que vão desde o desvio de fundos até ao encobrimento de agressões sexuais e, dado que estão 45 milhões (de euros) abaixo do esperado, estão a tentar manter o máximo da boa vontade possível dos investidores”.

Este ex-funcionário, bastante envolvido na comunicação da empresa, não esconde a desilusão com este caso quando lhe pergunto qual é o sentimento geral na equipa depois de tudo isto ter vindo a público: “O post original nem sequer especificava o quão terríveis foram para nós e era um simples adeus sentido a todas as pessoas verdadeiramente fantásticas com quem trabalhámos. Nem sequer recebemos um adeus ou um obrigado e o que publicámos foi apagado. É como se quisessem fingir que o Bramble e o Smalland não eram os jogos mais rentáveis…”

Depois da nossa conversa, despeço-me do Jack e pergunto-lhe se posso publicar tudo o que me revelou. Afinal, não quero de forma alguma prejudicar ainda mais a sua posição. A sua resposta é inequívoca: “Estas coisas devem ser expostas. Força nisso!”.

Numa indústria que não tem vivido os melhores tempos com empresas, das maiores às mais pequenas, constantemente em apuros com alegações de assédio e discriminação, dívidas, videojogos extremamente caros e que não cumprem o desejado em vendas e despedimentos em massa, o caso Merge Games é mais um a somar a um gigante barco que parece ir afundando devagar, levando consigo demasiadas vítimas deste mar agitado.

Contactámos a Maximum Entertainment e aguardamos comentários e mais esclarecimentos acerca destas questões.

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Filipe Branco
Fã de cultura geek em geral, mas é nos livros, videojogos e cinema onde mais me perco. Adoro escrever sobre o que me apaixona e eventos de gaming é comigo. Podem encontrar-me online ou à deriva num dos extensos corredores da próxima Gamescom.

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