Fantasporto – 46º Edição

O icónico Cinema Batalha voltou a ser o palco da 46.ª edição do Fantasporto. Como já é tradição, fomos espreitar os grandes vencedores e o veredito é claro: o cinema de género está mais vivo (e perturbador) do que nunca!
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De 27 de fevereiro a 8 de março realizou-se mais um Festival Fantasporto no Batalha Centro de Cinema.

Tendo tido a oportunidade de ir ao último dia do festival, pude ver os filmes premiados desta que é a 46º edição do maior festival de cinema do Porto criado, organizado, dirigido por Mário Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira.

Nos três últimos anos, criei este hábito de viajar até à cidade invicta, propositadamente para, pelo menos, conhecer os premiados desta celebração do cinema Fantástico. Com a certeza que terei sempre à espera obras, que dificilmente encontraria numa sala generalista das grandes distribuidoras.

Durante a semana de Festival, distribuiram-se pelas duas salas do Cinema Batalha curtas e longas metragens assim como uma panóplia de atividades culturais ligadas à 7º arte.

Seleção deste ano

Cativos, de Luís Alves – Vencer do prémio melhor filme cinema português.

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O primeiro filme que vi foi um thriller psicológico.

A história foca numa mulher aprisionada por um homem que não conhece, apesar deste teimar que não são estranhos. Passado numa cave, apenas com dois personagens e com uma atmosfera bastante claustrofóbica, a ideia por detrás do filme e todo o mistério envolto nas motivações do Sequestrador são bem conseguidos.

Porém, a sonoplastia puxou-me muitas vezes para fora da narrativa. Numa narrativa onde toda a ação tem por base diálogos, estes têm que ser percetíveis. Principalmente, porque o diretor vai dando pistas através de um jogo de citações de filmes que os personagens têm ao longo da história. Uma ferramenta narrativa divertida, mas que peca se o áudio não é audível.

No entanto, como pessoa que não está assim tão habituada a ver longas produções portuguesas, fiquei satisfeito com a ideia, a sua atmosfera e a própria conclusão com um bom twist.

Wild Nights, Tamed Beasts, de Tony Wang – Vencedor de melhor filme semana dos realizadores

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O segundo filme e o mais longo dos quatro que vi, foi uma produção chinesa que conta a história de Ye Xiauling, uma mulher que, fingindo ser cuidadora de idosos, serve-se dessa função para os matar durante o sono. O conceito de “anjo da morte” como uma figura assombrada pela vida, que consegue criar empatia por aqueles que, mesmo estando vivos, anseiam pela paz e misericórdia da morte e pela libertação que daí advém.

Está feito de uma forma bastante delicada, dramática, mas nunca entediante. A personagem principal também choca, não só narrativamente, mas filosoficamente, com o filho mais novo – Ma Deyoung – de um dos idosos que ficam ao seu cuidado. Ma Deyoung é exatamente o oposto de Ye Xiauling, apesar de nunca ter sido bem visto pela família e ter tido problemas de saúde, agarra-se com todas as forças à vida. Passa os seus dias a cuidar de um leão e da casa do seu pai, sendo desprezado pela sua família.

Fiquei muito espantado pela cinematografia do Tony Wang. Não só tem planos lindíssimos como está constantemente a enquadrar o duo principal enjaulado. Ao ver os personagens como se fossem o Pipi, o Leão idoso, enjaulado, à espera de ser colhido pelo circo, a esperar lentamente pela morte, vemos como cada um dos protagonistas olham para a mortalidade. Um a querer dar um fim digno a qualquer ser vivo, o outro a não ser capaz de desistir da vida por mais sôfrega ou curta que possa ser.

Talvez tenha sido o filme que mais me surpreendeu no seu todo.

#Iwilltellyouthetruth, de Keisuke Toyoshima – Vencedor do melhor filme Orient Express

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Nesta obra japonesa acompanhamos um segurança de um prédio que junta-se a um amigo para verem uma livestream de um canal famoso. Nesse programa milhares de pessoas candidatam-se para, em anonimato, contarem histórias assombrosas ou chocantes com a única condição de terem que ser 100% verdadeiras, podendo receber donativos dos espetadores.

O segurança, Kiriyama, tenta a todo o custo ser selecionado para contar a sua história para poder angariar dinheiro para pagar as suas dividas.

O que acabamos por ter é uma antologia de contos de suspense e horror, num ambiente que faz muito lembrar Black Mirror. Não é algo necessariamente mau, e o conceito do filme está bem conseguido, ao ponto de facilmente dar a entender que seria possível, aos dias de hoje, um programa destes, com histórias destas, poderia existir.

Tem algumas reviravoltas e o fim combina bem com a reflexão, que este sub-género de terror tecnológico gosta de deixar para o espetador. Sem ser mandão ou muito pretensioso, consegue entreter e criar tensão de uma maneira bastante real e divertida.

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The Dollmaker – José Maria Cicala -Vencedor do grande prémio fantástico

Para encerrar mais uma edição do Fantasporto, a última sessão foi do vencedor de melhor filme.

Encantador na sua língua original, The Dollmaker é um filme argentino que conta a história de uma pacata cidade onde mulheres começam a desaparecer.

Acompanhamos um detetive recentemente chegado à localidade, que encontra resistência dos habitantes na sua investigação, uma mãe solteira, e um jovem- Arturito- que tem como hobbie colecionar bonecas.

Tudo isto soa familiar, tudo ideias que já vimos noutros filmes. E ao ver o produto final, é indubitavelmente uma obra criada por alguém que adora Horror.

Ao longo da história vemos imensas referências a clássicos do género, como Texas Chainsaw, Psico, Carrie e até Shining . Cicala faz um trabalho fantástico a transmitir a sujidade e o ambiente lynchiano que trespassa do inicio ao fim o espetador.

É violento, gráfico e consegue surpreender até ao fim. Eduardo Calvo faz um grande trabalho como Artur, conseguindo mostrar vulnerabilidade, timidez, loucura e brutalidade . É campy quando tem que ser, é dramático quando tem que ser, tudo em doses exageradamente propositadas.

O facto da Final Girl se chamar Argentina não parece ser por acaso. A protagonista sofre episódios psicóticos e apesar de bondosa, é injustiçada e usada. No fim, Arturito, o menino protegido pela vila, com um histórico perturbado com a sua mãe, com os seus próprios delírios psicóticos e um sonho juvenil de ser presidente, triunfa.

Um conto de terror que é um deleite para fãs de terror. Tendo estômago para tal e abrindo as portas ao absurdo e imundo mundo criado por José María Cicala e Grizelda Sanchez – que também interpreta Argentina – ficamos com um empolgante e angustiante slow burn que apesar de não inventar a roda, utiliza-a a seu favor.

No fim, tendo ido apenas no dia das premiações e tendo que optar sempre entre duas salas, apenas vi quatro dos oito filmes premiados. Ainda assim, estes quatros filmes, muito diferentes em tom e origem, mostram as infinitas possibilidades que este Festival com quase meio século traz para os espetadores.

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André Pereira
Os meus gostos vão de filmes e séries, até aos board games e animes. Tenho uma paixão grande pelo Cinema, tendo que dar destaque ao género de terror e ao humor nonsense. Defenderei até à morte que o Babylon é uma obra prima.

Colaboraram neste artigo

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