A 31 de Janeiro todas as 69 lojas GameStop na Alemanha irão fechar portas por uma última e derradeira vez. É o game over que, ainda que não caía completamente de surpresa, parece ter chegado mais cedo do que previsto.
Depois de ter recebido estas notícias, visitei duas das lojas GameStop em Berlim, comprei uns jogos com descontos e falei com um dos funcionários para esta reportagem especial do Café Mais Geek.

Algo errado
Entro na loja que à porta exibe cartazes digitais (irónico, não é?) a anunciar “Alles Muss Raus”, uma espécie de “liquidação total” em alemão. Mas a tradução literal seria “tudo tem de sair”. E é exatamente esse o sentimento que paira no ar enquanto percorro os pequenos corredores cheios de jogos para a Xbox, PlayStation (tem da 5, 4… e ainda da 3) e Switch. Outros cartazes mais pequenos anunciam descontos de final de vida destas lojas. Vão de 10% a 40%, sobre os preços já bastante convidativos dos jogos em segunda mão ali expostos. O stock ainda é bastante e terá de sair daqui em menos de um mês.
Acabo por pegar no Guardians of the Galaxy para a PS5, no Gotham Knights e no Prince of Persia: The Lost Crown para a Xbox Series X. Este Prince of Persia joguei-o no lançamento através do Ubisoft+, o serviço de subscrição que é uma espécie de Game Pass da Ubisoft. É verdade, cedi ao digital, e agora compro-o bem mais barato, porque quero tê-lo na minha coleção física. Mea culpa. E temos todos um pouco de culpa nisto, não temos?
Eu e os outros compradores aqui dentro somos agora como abutres em volta de um corpo moribundo. Estamos aqui porque as lojas vão fechar e os descontos são apelativos.
No entanto, há memórias que me confortam. Foi numa GameStop, em Frankfurt, que troquei o Destiny 2, que vinha com a minha Xbox One S, por um Batman Arkham Knight para a mesma consola. E foi nesta mesma GameStop em Berlim, onde estou agora, que comprei em segunda mão o meu primeiro jogo para a Switch, o Metroid Dread (um dos meus jogos favoritos na consola da Nintendo).
E sei, sim, que a culpa não é só nossa, dos jogadores. Produtoras, distribuidoras e lojas também cometeram erros pelo caminho.

Mudanças no cenário
Quem sempre visitou as GameStop sabe que nos últimos anos o cenário nas lojas foi mudando aos poucos. Os jogos começaram a ocupar cada vez menos espaço, dando lugar a figuras Funko Pop!, posters, camisolas e até snacks e bebidas vindos sobretudo do Japão (a preços nada convidativos, devo acrescentar). Foi um género de ataque desesperado na boss fight final que os gerentes destas lojas tentaram para salvar o negócio. Mas não foi suficiente. As causas? O mercado mudou. Drasticamente. Mas já lá vamos.
Nada disto seria tão assustador se não estivéssemos a falar da Alemanha, que se posiciona em 5º lugar no ranking mundial de mercados de videojogos, ficando apenas atrás de países como a Coreia do Sul, Japão, China e EUA.
E mais, este estudo do Game.de mostra como este mercado continuou a crescer na Alemanha em 2023. Então, se o mercado expande, se mais consolas são vendidas aqui, como é que lojas como a GameStop não conseguem acompanhar esse crescimento? O próprio estudo parece dar-nos a resposta, quando fala dos anos de forte crescimento e das receitas das vendas de serviços de jogos online/digitais: “Estes são serviços de subscrição que dão acesso a uma grande seleção de jogos, cloud gaming e multijogador. Exemplos destes serviços incluem o EA Play, o Nintendo Switch Online, o PlayStation Plus, o Xbox Game Pass e o Ubisoft+. As receitas destes serviços diminuíram 1 por cento em 2023, para 860 milhões de euros, mas estabilizaram a um nível elevado”.
O formato físico simplesmente não acompanhou esta evolução.

Palavras de um funcionário
Quando me dirijo à caixa para pagar, saco do meu cartão de membro GameStop, força do hábito, e o funcionário diz-me: “Posso passar o teu cartão, mas já não vais conseguir usar os pontos porque vamos fechar em Janeiro”. A máquina lê o cartão, num gesto que parece por momentos manter a ilusão de que a loja está ali para ficar. Mas não está.
“Recebi a chamada sobre o fecho de todas as nossas lojas na Alemanha no final de Novembro”, conta um funcionário que prefere permanecer anónimo. “Nessa manhã chorei um pouco. Não esperava essa chamada. Adorava mesmo este trabalho. Foi a melhor experiência laboral que tive na vida”.
Olho em volta e percebo porquê. O funcionário que me atende do outro lado do balcão veste uma t-shirt do Zelda e está rodeado de edições de colecionador raras, jogos para todos os gostos, consolas de edições especiais e pessoas que, tal como ele e eu, são jogadores de raiz. Parecia o mundo ideal, até se desfazer o sonho. “Gostava mesmo de chegar aqui todos os dias e saber quais seriam as novidades dos próximos lançamentos, falar com os meus colegas sobre o hype, nosso e dos clientes. Nenhum trabalho é perfeito, mas vou sentir muita falta. Ficam as memórias”, confessa.
Pago os meus jogos e despeço-me, ainda com a promessa de voltar para aproveitar outros descontos antes do dia em que a loja fechará de vez. Na prateleira dos jogos Xbox, ainda deixei um The Quarry que ando a namorar há algum tempo. Sei que conseguirei tê-lo a um preço mais baixo e isto volta a trazer-me aquele sentimento agridoce.
Ao sair da loja, o cartaz vermelho e de letras bem carregadas a amarelo brilha no seu ecrã digital: “Wir schliessen” (Vamos fechar). Anuncia o fim de uma era. É lá está, digital e dinâmico, o cartaz que nos relembra: o físico está a morrer.
No dia em que me sento para escrever este texto, acaba de sair um artigo do Eurogamer UK com revelações surpreendentes. No Reino Unido, em 2024, as vendas de jogos em formato físico diminuíram 35% devido à transição de cada vez mais jogadores para o digital. 35% é um número que chega a ser chocante, mas são os números do jogo mais vendido do ano, sem surpresa nenhuma o EA Sports FC 25, que deixam ainda uma impressão maior. 80% das vendas do colosso desportivo da EA foram digitais. 80%!
Não há muito mais a acrescentar. É fazer as contas.
Game over? Ou um restart necessário?
Custará a crer para muitos, sobretudo quando muito recentemente companhias gigantes como a Valve vieram a público clarificar que os consumidores ao comprarem no Steam não são donos do jogo mas sim de um género de licença temporária para o jogar. Ou ainda quando, no mesmo ano, um executivo da Ubisoft avisou que ”os jogadores precisam de se sentir confortáveis em não serem donos dos seus jogos” para que os serviços de subscrição tenham sucesso.
Mas parece que nada disto está a afectar quem se rendeu ao digital.
Estaremos nós, quem ainda compra jogos físicos, destinados a ser apenas um género de raridade em pessoa à procura de edições físicas também elas raras e perdidas nas prateleiras poeirentas de lojas antigas? Estarão estas lojas destinadas ao nicho de quem não quer deixar fugir esse passado em que o abrir de uma caixa para tirar de lá um jogo era algo… mágico?
Ou terão os jogadores consciência e poder para exigir um restart às políticas injustas das lojas digitais, exercendo algum tipo de boicote, levando a maior investimento no formato físico?
Pensarei nisso da próxima vez que voltar à GameStop, enquanto posso, para comprar mais uma daquelas caixinhas verdes, azuis ou vermelhas que, aos poucos, parecem só fazer parte de um tempo que já não existe para todos.