História de Duas cidades

Viajar para Londres é uma experiência. Mas explorá-la durante a Revolução Industrial através de Assassin’s Creed Syndicate é outra completamente diferente. Quando os videojogos se tornam máquinas do tempo.
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Londres. Outrora a capital de um vasto Império que se estendia por todos os continentes do planeta, era por aquelas ruas que passava tudo o que era considerado de extrema importância, fosse de natureza política, científica ou meramente comercial. Uma cidade viva, a dar os seus primeiros passos na Revolução Industrial, que, por um lado, ganhava um aspeto mais sujo e cinzento e, por outro, trazia inovação através da criação de novas formas de circulação, tanto de pessoas como de informação. 

Em 2026, toda essa mixórdia de acontecimentos que aconteceram há centenas de anos, embora revolucionárias, acabam por ser mais uma página da História que acabamos por decorar e vomitar num teste, onde passadas semanas, senão mesmo dias, já ficou em grande parte esquecida. 

Recentemente, tive a oportunidade de visitar a cidade: ficar hospedado em Fleet Street, rua bem conhecida pela história do barbeiro demoníaco Sweeney Todd; visitar a catedral, o Big Ben e todos os grandes marcos da cidade (e, claro, os estúdios de Harry Potter). E, como grande fã de História, havia sempre um pensamento a martelar-me a cabeça — como seria andar por estas ruas durante o período da Revolução Industrial? 

Podia pegar num livro de Charles Dickens e tentar transportar-me para o caos de Londres, mas ainda faltava algo: a verdadeira experiência de lá estar. Podia observar a arte da época, mas continuava a faltar o movimento caótico de uma cidade em ebulição. Podia pegar num filme ou numa série como Taboo (2017), mas continuaria a ter uma experiência na terceira pessoa, e não minha, onde EU é que tomo as rédeas da experiência. E é aqui que entra a magia dos videojogos. 

 Ao chegar da viagem (claramente alguns dias depois), liguei a minha PlayStation, abri o catálogo do PlayStation Plus e comecei a instalar Assassin’s Creed: Syndicate. Um jogo que, aquando do seu lançamento, foi visto como mais do mesmo, numa saga que atravessava uma clara fadiga artística. No entanto, passados todos estes anos, posso dizer que envelheceu muito bem, sobretudo tendo em conta que saiu poucos meses depois do fiasco de Unity (outro que depois de ver resolvido os seus bugs, acaba também por ser um pouco injustiçado).  

Depois de o jogo finalmente instalar na consola, de começar a jogar, ultrapassar os primeiros capítulos mais lineares e entrar, por fim, na parte da história em que o mundo se abre e nos diz “vai lá e diverte-te”, foi aí que percebi que era neste formato que poderia, verdadeiramente, ter a experiência que procurava. 

Enquanto na minha memória estava uma Fleet Street carregada de carros, bicicletas, alcatrão, smartphones e dezenas de restaurantes take-away das mais variadas cozinhas do mundo, no jogo via ruas cheias de gente a atravessar a estrada enquanto carroças puxadas por cavalos tentavam desviar-se. Via uma catedral ao fundo, ainda mais grandiosa, sem arranha-céus a comprometer a sua imponência, catedral que, hoje em dia, quase parece engolida pelos edifícios à sua volta. No jogo, este é, para mim, O Edifício para experienciar de perto e escalar, oferecendo uma das melhores vistas cénicas de Londres e do Tamisa. 

Da Catedral de São Paulo podemos ainda avistar, do outro lado do rio, a imponente Casa do Parlamento Britânico e consequentemente o relógio do Big Ben, que aos dias de hoje, não importa a hora, está sempre rodeado de turistas ansiosos por uma foto junto a uma cabine telefónica coberta de stickers de bandas e, nada surpreendentemente, do Benfica. No jogo, para além de escalar este grande edifício, podemos conhecer um dos grandes inventores do século XIX, Alexander Bell, que fala entusiasticamente de objetos que permitirão à população comunicar à distância. I know, crazy

Mas como Alexander Bell, há muitas outras figuras ilustres com quem podemos conversar no jogo e trocar algumas ideias, tal como DickensDarwinMarx entre muitos outros. Isto faz com que o jogo não seja apenas um meio de viajar no tempo, mas também uma forma envolvente de aprender. Sem dúvida, um recurso assim bem implementado, poderia ajudar muitas pessoas que têm mais dificuldade em se concentrar a ler. 

Existem certamente experiências que chegam perto da realidade desses tempos, como, por exemplo, no Madame Tussauds, quando entramos na área dos serial killers e vemos um Jack the Ripper em tamanho real (mesmo que, hoje em dia, ainda não se saiba quem ele era) e o aspeto sujo do edifício com a tabuleta a dizer Whitechapel. Mas, lá está, trata-se apenas de uma experiência efémera, de poucos minutos, onde não tens a liberdade de pensar: “ok, hoje explorei as fábricas perto de Southwark e Lambeth, que tal ir até ao Palácio Real ou à Trafalgar Square?”, onde és tu que decides o que gostarias de fazer.  

Os jogos dão esta liberdade, quer seja, com este exemplo concreto de Assasin’s Creed: Syndicate, que nos transporta para Londres durante o período da Revolução Industrial, quer seja com a atualidade, onde Grand Theft Auto V, é um excelente exemplo de um jogo que nos faz sentir que estamos a caminhar pelas ruas Los Angeles.   

Pelo meio de ruas sujas, edifícios imponentes e a interação com inúmeras figuras histórias, percebi que viajar através dos media, pode ser muito mais do que apenas observar ou ler, mas sim interagir e explorar. O Império Britânico, felizmente, já não existe, mas graças aos videojogos, podemos sentir que fazemos um pouco parte da História.  

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Francisco Santos
Apaixonado por jogos e cinema. Tento partilhar essa paixão com as outras pessoas.

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