John Romita Jr. na Comic Con Portugal: “Sou melhor contador de histórias do que artista”

Conversámos com a lenda da Marvel sobre a "brutalidade" do storytelling, a sua visão sobre a IA e o peso emocional de carregar o apelido Romita. Descobre os segredos por trás das páginas de um dos maiores nomes da banda desenhada mundial.

O Segredo da Narrativa: Porquê sacrificar a “Imagem Bonita”?

Durante a nossa conversa na Comic Con Portugal 2026, abordámos um dos pontos mais marcantes do trabalho de John Romita Jr.: a sua capacidade única de transmitir cinética e peso físico em cada painel. Questionado sobre como decide quando sacrificar uma imagem esteticamente “bonita” em favor de um impacto narrativo cru e brutal, Romita foi direto: a transição é a chave.

Para o artista, a transição entre uma cena de conversa e a brutalidade de uma luta não pode ser brusca. “Sempre detestei quando um artista não ligava as cenas suficientemente bem”, confessou, sublinhando que tem de haver uma “gradação” ou sinais prévios (até no fundo da imagem) de que, por exemplo, o Homem-Aranha está prestes a ser atacado.

A Escola Romita: O Cinema e o Legado de um Pai

Muitos poderiam pensar que a mestria de JRJR vem apenas da banda desenhada, mas a fonte é outra: o cinema. O artista recordou como, nos dias de mau tempo em Nova Iorque, via filmes com o seu pai, John Romita Sr., que lhe ensinava a prever o que vinha a seguir no ecrã.

Esta base cinematográfica moldou a sua visão da banda desenhada como um “filme de stop-motion básico”. Com uma humildade desarmante, Romita Jr. afirmou: “Sei que sou um artista mediano… mas sou melhor contador de histórias do que todos eles”. Para ele, a arte é uma ferramenta para servir a história, e não o contrário.

O Olhar como a “Melhor Câmara do Mundo”

Um dos momentos mais emocionantes da entrevista foi quando JRJR partilhou o conselho artístico mais valioso que recebeu do seu pai. Longe de serem técnicas de desenho, as lições focavam-se na observação constante. “Olha para tudo. Para cada pessoa, para os olhos, para o para-choques de um carro… Essa é a melhor câmara do mundo”, dizia-lhe o pai.

Esta capacidade de absorver e recordar visuais sem precisar de referências externas é o que permite a Romita Jr. criar com tanta fluidez. Ainda hoje, o artista confessa que gosta de se sentar em aeroportos apenas a observar as pessoas para usar esses detalhes no seu trabalho.

A Alma Humana contra a Inteligência Artificial

Numa era dominada pela perfeição digital e pela IA, Romita Jr. mantém-se fiel ao papel e à borracha. O artista acredita que o “elemento humano” e a visão que nasce do fundo da cabeça e do coração é algo que uma máquina nunca poderá verdadeiramente replicar. “É preciso originar uma ideia da parte mais profunda da alma”, afirmou, expressando o desejo de que o toque humano na arte prevaleça muito para além da sua reforma.

Uma Ligação Inquebrável com os Fãs

Ao viajar pelo mundo, JRJR encontra uma constante: o carinho dos fãs pelo seu pai. O artista descreveu como “emocionante” receber condolências e palavras de inspiração de jovens que nunca conheceram Romita Sr., mas que foram tocados pelo seu trabalho. “Ele era um amor de pessoa e fico feliz por fazer parte disso”, concluiu, visivelmente grato pelo legado que continua a construir.

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Estação 42
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