Nós encontramo-nos numa época extremamente deliciosa em termos de entretenimento, onde uma pessoa pode seguir os seus sonhos sem ter que se juntar a uma corporação gigante. Videojogos, cinema e animação independente têm andado a subir cada vez mais alto nestes últimos anos. Neste caso, quero chamar a atenção para a animação independente que tem andado ao rubro graças ao Youtube.

Já tinha mencionei num outro artigo, uma série muito popular chamada de The Amazing Digital Circus, que estreou no canal de Youtube “Glitch” e que rapidamente arrecadou milhões de visualizações. E porque é que isto é importante? Porque a popularidade desta série incrível colocou este estúdio no centro das atenções. E, em vez de se limitarem a explorar a mesma fórmula vencedora, algo que, nem sempre pode resultar, a equipa da Glich escolheu revestir este sucesso na criação e apoio de novos projetos de animação.
E é aqui que entra Dana Terrace!

Dana Terrace é uma animadora, escritora e artista de storyboards conhecido pelo seu trabalho em Gravity Falls e, como criadora de uma série de animação da Disney chamada de “The Owl House”. Esta série acompanha a personagem principal Luz Noceda, que acidentalmente encontra um portal para outro mundo, com bruxas e demónios. Apesar de não conseguir utilizar magia como as bruxas deste novo mundo, Luz quer tornar-se bruxa e torna-se aprendiz da Eda, autointitulada como a bruxa mais poderosa das “Boiling Isles”. “The Owl House” rapidamente ganhou popularidade, tornando-se uma das mais populares da Disney, o que levou a surpresa de milhares de fãs quando a mesma foi cancelada! Porquê? Porque esta série aparentemente não se enquadrava com o estilo “family friendly” (tinha representação LGBT+) e episódico que Disney queria para o seu canal.
“I was very open about my intention to put queer kids in the main cast. I’m a horrible liar so sneaking it in would’ve been hard haha. When we were greenlit I was told by certain Disney leadership that I could NOT represent any form of bi or gay relationship on the Channel.” – Dana Terrace
Isto foi confirmado por Alex Hirsh, criador de Gravity Falls: “Back when I made [Gravity Falls] Disney FORBADE me from any explicit LGBTQ+ rep. Apparently ‘happiest place on earth’ meant ‘straightest.”

Estes criadores não têm vergonha de falar das suas experiências com a Disney, e sem dúvida que não são os únicos que passaram por estes problemas (Rebecca Sugar, Steven Universe e Cartoon Network, ND Stevenson com She-ra and the Princesses of Power e Dreamworks Animaton/Netflix).
Apos o cancelamento da série, Dana Terrace teve de mudar a sua história para a mesma acabar de uma maneira satisfatória. Apos a sua conclusão, Dana saiu da Disney, e ficaram os fãs a pensar como seria o futuro de uma das nossas artistas favoritas.
Nova serie de Glitch Productions em 2D, de Dana Terrace – Knights of Guinevere
Glitch Productions revelou a primeira série 2D do estúdio, num pilot que estreou no canal oficial no Youtube em setembro de 2025. Esta série criada por Dana Terrace em colaboração com Jonh Bailey Owen e Zach Marcus rapidamente ultrapassou mais de 8 milhões de visualizações nas primeiras semanas.
Somos apresentados a Park Planet, um parque temático gigante, casa da mascote robótica Princess Guinevere. Esta personagem parece uma autêntica princesa da Disney, mas à medida que a história vai se desenrolando, um universo distópico capitalista e corporativo vai-se revelando!
Enquanto muitos pessoas já foram incorporando pequenas “picas” à Disney ao longo dos anos, esta série parece levar a sátira a um nível elevado. Este planeta funciona como uma caricatura a corporações que vendem “sonhos”, mas que usam o seu lucro para algo mais… sombrio…

A própria escolha da mascote, uma princesa android que pode ser programada para representar a magia do parque, mas acaba por ser uma ferramenta de vigilância, funciona como uma critica as grandes empresas de entretenimento, que historicamente limitam os seus temas para manter uma imagem de conteúdo para famílias altamente rentável.
Claro, e isto é importante, Dana nunca disse explicitamente que esta série era de forma alguma uma “vingança” contra a Disney, mas que sim, as suas experiências na vida influenciam a maneira dela de contar histórias.
Um thriller sci-fi psicológico, que se passa num futuro distante, que te convida a um parque de diversões nas nuvens! Um lugar onde sonhos são fabricados, máquinas sangram, e a felicidade tem um preço. Uma história sobre uma princesa android que pode ser o bilhete para uma vida melhor para as nossas duas personagens principais! Ou talvez, levar a sua morte…
O episódio tem personagens incríveis e um mundo genuinamente interessante, e em termos visuais é uma delicia! Animação 2D, com charme de animação tradicional. Movimentos fluidos e cenários extremamente detalhados, que ajudam na criação do contraste ente o bonito e luminoso “Park Planet”, e o mundo industrial que existe debaixo do mesmo.

Conheci Glitch Productions graças à popularidade de The Amazing Digital Circus, e, desde então que este pequeno estúdio não me para de surpreender com a sua ambição e qualidade dos seus projetos.

Criatividade não deve ser restringida ou censurada, e o Youtube tem sido um grande aliado na divulgação de projetos independentes. Se ainda não conhecem o trabalho da Glitch, têm de dar uma vista de olho no canal deles. Não se vão arrepender!