Moonspell regressam ao gótico nos 30 anos da sua consagração

Com o lançamento do novo álbum Far From God, os Moonspell regressam às raízes góticas na altura perfeita para um artigo especial sobre os 30 anos do histórico Irreligious.
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Na sexta-feira, dia 3 de julho, chegou o tão aguardado Far From God, o novo álbum de originais da banda de metal portuguesa Moonspell, depois de “cinco anos de procura criativa e derradeira redescoberta”, tal como referido no comunicado de imprensa divulgado.

Este álbum, um regresso ao metal gótico depois de dois álbuns mais “experimentais” – 1755 (2017) e Hermitage (2021) – afirma-se como uma resposta musical a uma verdadeira crise existencial e criativa que a banda tem enfrentado nos últimos anos. Com produção do colombiano Jaime Gomez Arellano, produtor de discos dos Paradise Lost, Ghost, Sólstafir e dos próprios Moonspell, inclui os três singles anteriormente lançados “Far From God“- que se revelou um imediatado sucesso, ultrapassando as 300 mil visualizações no YouTube e mais de 80 mil streams no Spotify em apenas algumas semanas – “Cross Your Heart” e o novo The Great Wolf in the Sky. Terá a sua apresentação ao vivo no dia 12 de setembro na Quinta da Ribafria, em Sintra, e no dia 31 de outubro no Hard Club do Porto, no clássico e tradicional concerto de Halloween.

Como referido no comunicado de imprensa divulgado pela banda, este álbum “percorre o amor baudelariano, a culpa existencial e a redenção, rejeitando o brilho artificial em favor de uma fantasia ancorada na sinceridade” e “reconecta os Moonspell ao espírito clássico de álbuns como Irreligious“. Precisamente este mês, o disco Irreligious, esse marco tão incontornável na trajetória da banda e na história do género como um todo faz 30 anos do seu lançamento, a 29 de julho de 1996.

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Depois de surgirem com a demo Anno Satanae (1993) e com o EP Under the Moonspell (1994), com a juventude e energia agressiva do black metal, e de editarem o primeiro LP Wolfheart (1995), com os seus primeiros uivos de metal gótico, romântico, sedutor e vampiresco, os Moonspell surgem com aquele que se tornaria o álbum mais importante da sua carreira e um dos mais marcantes do metal europeu: Irreligious.

Pouco interessados em repetir a fórmula de Wolfheart que os colocou no holofote, a banda procurou afastar-se um pouco das referências e sonoridades mais black metal e folk das suas origens e escavar ainda mais fundo na estética gótica. O resultado é um álbum que nos surge mais maduro e, sem dúvida, mais coeso, onde a teatralidade convive perfeitamente com o peso, o drama e a agressividade do metal.

Abre com “Perverse… Almost Religious”, um minuto de instrumental atmosférico e litúrgico que nos prepara e introduz perfeitamente a este universo de coexistência entre o profano e o sagrado, irrompendo sem aviso com “Opium”. Este hit, magistralmente composto em torno do Opiário de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa) é tudo o que poderíamos desejar: uma atmosfera densa, um riff memorável e hipnótico, uma letra sobre o vazio e a alienação da procura incessante por algo que transcenda a realidade, interpretada na perfeição por uma voz que alterna o grave e a declamação com momentos de explosão gutural. Um hino maior que pôs e põe metaleiros de todo o mundo a declamar Fernando Pessoa. A partir daqui, a fasquia está elevada e não se deixa baixar.

Awake” e “Mephisto“, provavelmente os dois momentos mais agressivos de todo o álbum, conduzem-nos, respetivamente, a uma reflexão sobre libertação e afirmação (“All of us visionaires / With a rope around our neck”), e a uma revisitação do clássico pacto faustiano, oferecendo dois dos refrões mais intensos e memoráveis da discografia da banda. “For a Taste of Eternity” recupera um dos grandes temas do disco, a transcendência e o desejo de superar a efemeridade da existência , enquanto “Ruin & Misery” e “Poisoned Gift” exploram a relação entre amor e morte. A primeira inspira-se numa notícia sobre um pacto de suicídio; a segunda parte da figura de Aleister Crowley para abordar a atração pelo proibido e pela transgressão.

Subversion” surge como um breve interlúdio atmosférico, preparando a entrada de “Raven Claws“, talvez o tema que mais remete para a identidade de Wolfheart. Aqui regressa a sedução do imaginário gótico, reforçada pela participação da cantora alemã Birgit Zacher, que já havia deixado a sua marca com uma prestação notável no álbum anterior.

Depois da já referida “Mephisto“, o disco encaminha-se para a reta final com “Herr Spiegelmann” (“Senhor Homem-Espelho”, em alemão), inspirada em O Perfume, de Patrick Süskind, mais concretamente na cena do julgamento do protagonista. Criador de uma fragrância capaz de fazer com que cada pessoa veja nele aquilo que mais deseja, o personagem é descrito de forma magistral na letra: “Nuns saw on him the Messiah in flesh / Satan’s adorers, the Prince of Darkness / Philosophers, the Supreme Being / Young females, an enchanted prince / Men, an ideal reflection of themselves.” Musicalmente, o tema culmina num solo de teclado magnífico e absolutamente irresistível.

A conclusão pertence a “Full Moon Madness“, a verdadeira apoteose do álbum. Regressando ao tema da procura de algo superior, a canção recupera simultaneamente a crueza e o lado mais visceral da banda, evocando o impulso primordial de rasgar a pele e abraçar a natureza lupina. É um desfecho perfeito, coroado por um brilhante solo de guitarra, e continua, até hoje, a ser uma peça incontornável de qualquer alinhamento ao vivo da banda.

Por falar em solo de guitarra, é impossível ignorar a presença do guitarrista Ricardo Amorim. Pedro Paixão, João Pedro Escoval (Ares) – no seu último álbum como parte da banda – e Mike Gaspar vinham reforçar o seu talento como teclista, baixista e baterista, respetivamente. Fernando Ribeiro afirma-se como um vocalista e letrista à altura dos grandes do género, capaz de declamar, cantar e gritar com a mesma força. No entanto, o destaque vai sempre recair sobre Ricardo Amorim. Estreante, substituto de Duarte Picoto (Mantus) e João Pereira (Tanngrisnir) já com o processo de composição em andamento, as suas guitarras foram essenciais para dar vida às novas canções e consolidar o rumo que a banda pretendia tomar. Com riffs mais definidos, harmonias elaboradas que privilegiam a construção de atmosfera e não só a distorção, as guitarras de Amorim vêm sustentar o clima sombrio e elegante do álbum. Todos este anos depois, é impossível imaginar a história dos Moonspell sem ele. A sua estreia em Irreligious marcou o início da sua parceria de composição com Pedro Paixão, uma das mais duradouras do metal europeu, tornando-o numa peça fundamental na evolução artística da banda e um dos principais responsáveis pela consistência, identidade e, ao mesmo tempo, constante reinvenção do seu som ao longo das décadas.

30 anos depois, este disco continua e continuará sempre a afirmar-se como uma obra maior do gótico e do heavy metal como um todo, um álbum que continua a fascinar com a mesma intensidade de há três décadas, com a sua eloquência, a sua mestria e a sua originalidade. Pela minha experiência pessoal, se Wolfheart ou o mais recente Extinct (2015) me despertaram para o género e para os Moonspell, Irreligious foi uma descoberta fundamental para que esta banda da Brandoa chegasse ao pódio da música nacional, disputando, muitas vezes, o primeiro lugar. Com a chega de Far From God, esta é a altura perfeita para o revisitarmos.

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Rodrigo Samuel Duarte
Aprendi a ler com a BD franco-belga e descobri o Cinema com o Miyazaki. Sou licenciado em Cinema e mestrando em Ciências da Comunicação. Escrevo curtas-metragens, crónicas, contos, críticas, análises. Ideologicamente estou algures entre a filmografia completa do Carpenter e a do Ozu.

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