Netflix – O princípio do fim ou o fim de um princípio?

Quando a Netflix anunciou que iria tomar medidas quanto à partilha de contas, em 2021, não faltaram críticas à plataforma. Os utilizadores, indignados, pediram um maior investimento em séries de qualidade, em vez de as cancelar, gerando também Memes e diversas piadas. Em Fevereiro de 2023, a plataforma anunciou, oficialmente, as novas regras que proíbem, ou dificultam, a partilha de contas entre utilizadores, levantando uma nova onda mundial de protestos e de declarações de cancelamento da plataforma.

Vejamos a questão por partes. Enquanto estudante (e até mesmo para um trabalhador comum), em Portugal, é difícil conseguir pagar por todas as plataformas streaming disponíveis no mercado, sendo a Netflix – dependendo da subscrição – a mais cara. Muitas das vezes, as pessoas recorrem a contas de amigos próximos, sem, ingenuamente, entender que ao cometer essa ação, estão a lesar a empresa que produz esse conteúdo, pois, querendo ou não, a mesma só está a receber o dinheiro de uma pessoa. Podemos chegar ao ponto de entender isso como uma “pirataria dissimulada”, onde uma pessoa paga pelo conteúdo para outras dez ou vinte pessoas o verem, prejudicando toda uma equipa de realizadores, atores e técnicos envolvidos?

Fonte: Forbes

Se olharmos bem para a política de partilha de contas da Netflix, a plataforma já proibia a disseminação da mesma conta em vários dispositivos (independente do tipo de subscrição) embora não tivesse nenhum mecanismo para restringir essa atitude. Ficava ao cargo do dono da conta em gerir e partilhar a mesma com quem entendesse. Com as novas regras, há a necessidade de se verificar a conta através do Wi-fi (IP) fixo. Ao colocarmos a questão: “Qual o impacto e a dimensão dos prejuízos causados à Netflix com as contas partilhadas?”, e tomando conhecimento de como muitos terceiros usufruem da plataforma sem pagar, talvez percebamos as razões que levaram ao cancelamento de muitas séries e da razão por detrás das motivações, por parte da plataforma, em querer efetuar esta mudança. Vendo as coisas nesta perspetiva, questiono os críticos cibernautas que adotam o discurso destrutivo contra a Netflix e que tem acesso ao seu conteúdo através de contas partilhadas por outros utilizadores. Por mais estapafúrdia que pareça a comparação: “é como se um ladrão fosse reclamar, à pessoa que furtou, pela fraca qualidade do conteúdo roubado”. Posto isto, é compreensível que, necessariamente, algo teria que ser alterado. Contudo, será que realmente foi a atitude mais certa da plataforma?

Fonte: Netflix

Reconheço que seria interessante, por parte da Netflix, de modo a mitigar o problema das perdas financeiras com as partilhas de contas e sem criar grandes entraves aos utilizadores, de criar novas subscrições que se adequem ao perfil dos mesmos, um pouco como acontece, por exemplo, no Spotify. Neste sentido, seria interessante possibilitar os utilizadores de aderir a pacotes familiares, de grupo, serviço duo ou serviço para estudantes, com preços adaptados e pensados para cada um, trocando a verificação do IP, por um email que permitisse a utilização, quantificada, em determinados aparelhos (Pc; Tvs; Telemóveis; Consolas; etc.). Por outro lado, seria igualmente interessante expandir a plataforma para outros aparelhos, como no caso das consolas portáteis Nintendo Switch.

O verdadeiro problema da Netflix e das novas medidas reside na questão não terem distinguido os tipos de partilha com terceiros – entre amigos ou entidades do seio familiar. Fomos do 8 para o 80. Neste momento basta ser uma criança com residência alternada, um estudante em residência universitária, um trabalhador que viaje muito, uma família em residência alternativa/férias, e já estamos impossibilitados de usufruir a Netflix, por causa desta lei de confirmação de IP. Agravando o problema, introduziu-se ainda a adição da publicidade para as subscrições mais baratas (que faz qualquer um revirar os olhos) e deram-se novas regalias às subscrições mais caras da plataforma.

A Netflix pode ter aberto uma “caixa de pandora” para a gestão das plataformas streaming, uma vez que a Disney+, HBO, Amazon Prime, entre outras, estão, curiosamente, muito caladas ou ausentes no que toca à projeção de medidas futuras para travar a partilha disseminada de contas. Imaginemos agora que todas plataformas streaming adotariam o mesmo modelo, ou semelhante, ao da Netflix? O mercado iria sustentar-se e teríamos todos séries de grande qualidade ou seria o fim das plataformas como hoje as conhecemos? A questão fica em aberto.

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Francisco Costa
Um apaixonado pela cultura Geek que adora tecer comentários e criticas às mais novas formas de arte! Sou uma pessoa um pouco reservada, mas sempre pronto para debater, por largas horas (ou em escassos minutos) qualquer assunto!. Tenho como hobbies favoritos o desenho e a fotografia de rua.

Colaboraram neste artigo

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