O futuro do livro no mundo digital

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Como ávida leitora e estudante de literatura, o mundo digital em nada mudou a minha paixão pelo livro físico. A experiência de entrar numa livraria e folhear as vastas opções, dizer que não julgamos os livros pela capa mas fazer isso mesmo. Chegar à conclusão de que é aquele! Levar para casa, sentir o cheiro a livro novo, sentar no sofá e aproveitar a felicidade de uma adição à estante. É difícil trocar a vasta riqueza desta experiência por uma mera cópia digital. Contudo, serei eu a minoria? Será que o livro – na sua forma física – deixa de fazer sentido no mundo digital?

Os livros são a base de tudo. A documentação da história da Humanidade provém do poder da permanência da palavra escrita. No entanto, com o desenvolvimento do mundo tecnológico, levanta-se a questão: a permanência física ou a rapidez digital? 

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Em 2024, numa parceria com o Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica Portuguesa, a Wook lançou o Barómetro de Hábitos de Leitura dos Portugueses, um estudo com o objetivo “de acompanhar as práticas, as preferências e as tendências de leitura da população residente em Portugal”. Centrado na leitura no nosso país, este inquérito apresenta-nos uma visão esperançosa perante a perda das edições físicas dos livros: apenas 17% dos inquiridos apresentam uma preferência pela leitura no digital. Desse grupo de leitores, apenas 10% se encontram na faixa etária entre os 18 e os 24 anos. Posto isto, podemos concluir que até as gerações vistas como “mais tecnológicas” permanecem fiéis às suas narrativas preferidas em papel e, consequentemente, que o livro permanece uma força contra o domínio digital.

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Porém, dos 67% dos inquiridos portugueses que afirmam ler com regularidade, apenas 8% se encontram na faixa etária jovem. Esta pequena percentagem suscita dúvidas em relação ao futuro do livro: é necessário considerar que o decréscimo da venda do livro físico nada tem a ver com a emergência do livro digital, mas com o declínio do hobby da leitura em geral. Deste modo, pressupõe-se que o consumo de conteúdo proveniente de livros partilhe desse decréscimo; contudo, o mesmo não se verifica.

Tendo em conta a nossa plataforma geek, é crucial reconhecermos o livro como potenciador do mundo mágico. Como mencionei no meu último artigo, “Do papel ao ecrã: o que se perde e o que se ganha quando adaptamos livros”, as maiores sagas cinematográficas e, consequentemente, uma larga porção do mundo geek advêm das mais belas narrativas de fantasia. Assim sendo, parece impossível fandoms desta dimensão não reconhecerem as suas obras originais e consequentemente não gerarem mais leitores.

A resposta encontra-se num inquérito realizado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2020, realizou-se o “Inquérito às práticas culturais dos portugueses”. A partir do mesmo, concluiu-se que a percentagem de inquiridos que, em 2019, não leram qualquer livro impresso ronda os 61%. Apesar do número elevado, o livro físico não foi substituído pelo digital, sendo apenas lido por 10% dos inquiridos portugueses. A resposta para estes valores tão baixos encontra-se nos números elevados dados a outras formas de consumo de conteúdo: o cinema. 82% dos jovens entre os 15 e os 24 anos afirmaram ter ido ao cinema no ano em questão.

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A diminuição do hábito de leitura de livros físicos em nada ocorre devido ao aparecimento do livro digital. Aliás, o aumento de formas de consumo destas narrativas apenas expande as possibilidades de consumo do mundo literário. A perda dos hábitos de leitura deve-se ao mero desinteresse das novas gerações. Com a introdução das adaptações e do contínuo melhoramento do mundo cinematográfico, quem procura o mundo geek não necessita de o fazer num livro. Além do mais, a multiplicidade de plataformas focadas nestes fandoms permite a qualquer fã desfrutar as suas histórias preferidas sem nunca as ler.

Contudo, nada está perdido! (Pelo menos eu acredito que não). A adoração e prestígio dados a estas sagas pressupõe um amor pelos seus originais. Apesar de não receberem o respeito que merecem, o detalhe das suas palavras e complexidade destas obras não estão perdidos. Cabe-nos a nós, leitores geeks, partilharmos e adorarmos estas histórias de modo a que cheguem a todos e continuem a magia do livro, mesmo num mundo tão digital.

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Maria Afonso
Sou estudante de literatura na faculdade de letras e jogadora sub-21 de voleibol. Amante de livros e de ficção procuro descobrir e estudar tudo o que a fantasia tem para oferecer.

Colaboraram neste artigo

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