O filme mais recente da saga dos Avengers, Avengers: Doomsday, chega aos cinemas este dezembro, e com a adição do Robert Downey Jr como Doctor Doom continua a ser impossível ignorar um dos maiores problemas do MCU: o embranquecimento e apago étnico de tantos personagens.
Os primeiros exemplos que vêm a mente são, claro, a Wanda e o Pietro Maximoff. Ambos personagens são Romani e judeus na BD, com a Wanda descrita, e desenhada (pela maior parte), como tendo pele morena.

Porém no MCU (tanto na franquia original, como nos filmes dos X-Men), ambos aspetos das identidades dos gémeos são apagados, com os atores (Elizabeth Olsen, Aaron Taylor Johnson, e Evan Peters) sendo brancos e não judeus, e como visto em Captain America: Civil War, aliam-se à Hydra que, ainda no presente, mantém ideologias Nazis.
O mesmo acontece com o Doutor Doom. O Robert Downey Jr foi anunciado como parte do elenco de Avengers Doomsday em julho de 2024, o que desapontou muitos, e surpreendeu a maioria. O personagem fez o seu debut em Fantastic Four #5 (1961), como um rival do Quarteto Fantástico, com a sua origem desenvolvida em Fantastic Four Annual #2 (1964). Esta história, em particular, introduz o passado do Doom, a lidar com pobreza e mostra a compaixão que ele sente por comunidades marginalizadas.

O Doutor Doom, tal como a Wanda e o Pietro, é Romani, e mais uma vez, a identidade, e história do personagem, está a ser apagada, a favor do que parece ser nostalgia bait.
Estes não os únicos personagens onde isto acontece. O Marc Spector, conhecido na banda desenhada por ter uma relação complexa com o seu judaísmo, é retratado por Oscar Isaac, ator não judeu, e uma das duas cenas relacionadas com a religião que o personagem tem na série (Moon Knight), consiste do Marc, a atirar o seu kippah no chão, algo que é bastante desrespeitoso no judaísmo. A America Chavez, originalmente morena, com pele escura, e porto-riquenha, é retrata por uma atriz mexicana de pele clara (Xochitl Gomez), a Anciã de Doctor Strange, é tibetana, e também retratada por uma atriz branca (Tilda Swinton). E uma das adições mais recentes, Lilia Calderu, também mulher Roma é retratada, mais uma vez, por mulher branca (Patti Lupone).
Na mesma série(Agatha All Along, os roteiristas também apagam a cultura e religião de um personagem icónico. O Billy Kaplan (Wiccan), é um dos personagens mais marcantes no que se trata à banda desenhada da Marvel, e um dos poucos na qual a identidade se cruza do judaísmo e queerness; outros exemplos incluem Kitty Pryde (bissexual), Arnie Roth, e Bobby Drake (gay).

Criado por um escritor judeu e gay, o judaísmo do Billy é mencionado através das várias aparições do personagem, incluindo o casamento com o Teddy Altman (Hulking), que acontece em Empyre #5 (2020) (que tem cameos dos criadores Allan Heinberg e Jim Cheung), e Empyre Aftermath #1 (2020). No MCU ele é retratado por Joe Locke (mais conhecido por Heartstopper), que não é judeu. E enquanto os roteiristas tentaram incorporar o judaísmo do personagem, a forma e as razões pelo qual o fizerem deixam bastante a desejar.
De coisas mais pequenas, como o Billy a entrar dentro de um forno sem hesitação, algo que fãs judeus tomaram ofensa, pois durante o Holocausto, as pessoas judias depois de mortas em campos de concentração, não eram enterradas, mas sim queimadas em fornalhas, e poços. Isto é bastante desrespeitoso, pois as cremações são consideradas destruição de propriedade no judaísmo, à história de origem do Billy.

A primeira aparição do Billy foi no terceiro episódio de WandaVision, Now in Color, onde a magia da Wanda a faz engravidar com o Billy e o Tommy, e vemos-os a crescer (idades 5 e 12) no episódio cinco, On a Very Special Episode…, até que desaparecem quando o hex é desmembrado, no episódio oito, The Series Finale. E depois veio Agatha All Along.
Durante o seu tempo em WandaVision, o Billy nunca foi mostrado como a pertencer a alguma religião. Porém a história foi diferente em Agatha. O episódio seis, Familiar By Thy Side, começa com o William Kaplan, também retratado por Joe Locke, no seu bar mitzvah, lendo do Torah; fazemos a transição para a recepção do bat mitzvah, onde conhece a Lilia Calderu pela primeira vez.
Até aqui, tudo bem, tirando o facto do ator não ser judeu, mas depois acontece o maior problema nesta história. Na volta a casa, o William, e os pais sofrem de um acidente de carro, quando o hex de Wandavision é assimilado, a câmara foca no William, coberto em sangue, e nós ouvimos o coração do William a parar. O William morre, e no segundo depois, o Billy possui o cadáver dele. E para adicionar à ofensa, os pais do William, Jeff e Rebecca, nunca são dados a oportunidade de lamentarem a morte do filho deles, pois o Billy nunca lhes conta o que realmente aconteceu.
A forma como isto continua a acontecer é deplorável. Podemos ver outras propriedades, até mesmo da Marvel, como Echo. A Maya Lopez, é indígena na banda desenhada, sendo parte da tribe Cheyenne, e surda. No MCU, a Maya faz parte da tribe Choctaw, mas apesar da atriz (Alaqua Cox) ser da Menominee, os diretores do elenco conseguiram encontrar uma atriz indígena e surda.
O que traz a pergunta, porquê que as outras comunidades marginalizadas, especialmente as comunidades judias e Romani, não merecem este mesmo respeito?
Isto não é para dizer que não podemos apreciar a franquia e os personagens, contudo é necessário reconhecer que representação e autenticidade são das coisas mais importantes na arte, e este padrão vai diretamente contra isso.