O mundo respondeu bailando

O Super Bowl falou em espanhol e o mundo inteiro respondeu bailando. Uma análise ao Halftime Show de Bad Bunny e ao impacto cultural de um espetáculo que foi muito mais do que entretenimento.
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Sim, eu sei que o evento decorreu há já uns dias. No entanto, não podia deixar de vir aqui comentar sobre ele. Estive a respirar ideias, opiniões e a conhecer mais sobre a história do Super Bowl.

Desde 1993, o Super Bowl oferece-nos alguns minutos de boa performance. Pessoalmente, não sou adepta de desporto, não acompanho nenhum e pratico – apenas porque a saúde me obriga. E foi exatamente para atrair seres como eu que a National (dos EUA) Football League começou a organizar estes halftimes. Cada ano vira uma montra de cultura pop mundial.

Este ano, a atenção foi particularmente intensa. Primeiro, pela dimensão do fenómeno Bad Bunny (não é por acaso que os bilhetes em Portugal esgotaram em menos de 48 horas). Depois, porque algo que parecia impossível aconteceu: o cantor trouxe a maior arena mediática dos Estados Unidos para um espetáculo quase totalmente em espanhol.

Não foi apenas um halftime show – foi um manifesto cultural. Apesar de outras/os artistas latinas/os, como a Shakira ou a Jennifer Lopez, já terem atuado nesta ocasião, Bad Bunny foi o primeiro, hispanófono, a solo, a liderar o concerto redondamente em espanhol, lembrando a sua herança sem tradução, sem filtros e sem concessões. Durante cerca de treze minutos, este acontecimento deixou de ser apenas futebol e transformou-se numa festa sul-americana observada por cerca de 135,4 milhões de espectadores em plataformas de televisão e digitais.

Para mim, a apresentação deste ano foi uma aula de produção ao mais alto nível. Num panorama conhecido pela precisão das suas transições e pelo rigor técnico extremo, a performance destacou-se pela forma como conciliou escala, identidade e narrativa. Cada segundo parecia cronometrado: câmaras em movimento contínuo, mudanças de cenário invisíveis ao olho desatento e uma iluminação pensada para transformar o relvado num teatro mutante, numa rua quente de San Juan, numa pista de dança global. Bad Bunny não entrou em palco, tomou conta dele.

O cantor transformou o Super Bowl num mosaico de ritmos e referências latinas. Reggaeton, merengue, mambo, salsa, dembow, e ecos de música caribenha e porto-riquenha criavam um diálogo entre tradição e contemporaneidade. As cores vibrantes, tão próprias da América Latina e que me envolvem numa pulsação imediata ao observá-las, os figurinos e a presença de bailarinos de diferentes origens reforçaram a ideia de comunidade e diversidade. Saltando também para participações inesperadas de Lady Gaga e Ricky Martin, que reforçaram a dimensão comum da proposta, e a presença de músicos tradicionais como Los Pleneros de la Cresta trouxe ao campo a pulsação histórica das ilhas. Na mesma encenação conviveram ascendências distintas e ritmos nascidos na era digital. Foi uma demonstração de como a influência latina deixou de ser “convidada” e passou a ocupar o centro da peça mundial. Provavelmente mais de metade do estádio não falava espanhol – e ainda assim, todos os presentes cantavam e dançavam.

Mais referências pop surgiram de forma orgânica: a fusão entre streetwear e alta-costura, os visuais inspirados em videojogos, cultura clubbing e estética Y2K, tudo integrado num enredo visual que falava a várias gerações. Houve momentos de nostalgia, outros de futurismo e muitos de puro entusiasmo contagioso.

Ao mesmo tempo, a exibição carregava uma subtileza política que não podia ignorar. Sem discursos explícitos, a própria presença de um artista latino a conduzir o maior palco mediático dos Estados Unidos funcionou como mensagem. A escolha de cantar maioritariamente em espanhol, a valorização das raízes e a celebração da fusão de influências transmitiram uma resposta elegante a debates recentes sobre fronteiras, pertença e visibilidade. Mais de um milhão de imigrantes do Sul entram no Norte da América. A ascensão económica dos Estados Unidos deve muito à comunidade latina, que hoje representa o verdadeiro motor demográfico e produtivo do país. Com um PIB interno que ultrapassa os 3,2 biliões de dólares – que a tornaria a quinta maior economia do mundo. Mais do que uma questão migratória, a presença latina é um pilar: perante o envelhecimento da população, são estes trabalhadores e consumidores que rejuvenescem o mercado, sustentam o consumo interno e garantem a competitividade americana num cenário global cada vez mais desafiante.

Nada foi dito diretamente – e talvez por isso tenha sido ainda mais eficaz.

E o nosso protagonista fez-nos relembrar de cada país pertencente a todo o continente, mencionando um a um (a mim assaltou-me uma vontade irresistível de me unir e fazer parte daquela energia e voar até cada um desses países).

Estes treze minutos são uma cápsula do tempo da música pop. Mesmo que não aprecies futebol ou não conheças Bad Bunny, estes treze minutos mostraram quem está agora no centro da música pop. Um momento que daqui a uns anos usaremos como referência.

Quando terminou, ficou no ar uma sensação de completude. Dancei, chorei, ri, acenei e concordei. Foi alegria, comemoração e paridade como forma de resistência e afirmação. Foi mais do que um concerto do halftime. Foi diversão, foi engenharia, foi cultura, foi argumentação. Este ano a história do Super Bowl falou em espanhol – e o mundo inteiro respondeu bailando.

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Daniela Carvalho
Literatura. Ativismo. Feminismo. Teatro. Doutorada em Epidemiologia, Data Manager por profissão e escritora por necessidade. Escrevo contos, crónicas, textos de opinião e crítica - sobretudo de teatro e livros. Sou autora de dois livros, atriz e encenadora amadora. Feminista, ativista e preocupada pela saúde mental. Gosto tanto de super‑heróis como do mundo Disney.

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