O herói que lançou um Género
Em 1938, Jerry Siegel e Joe Shuster, dois jovens judeus de Cleveland, criaram o Super-Homem, com o seu fato icónico, com capa e cuequinha vermelha, e claro, o símbolo “S”. Mas sabiam que o nosso Clark Kent não foi o primeiro Super-homem que eles criaram?
Em 1933, criaram uma história chamada de “The Reing of The Superman“, onde um sem-abrigo ganhava poderes psíquicos, mas em vez de um herói, era um vilão. Tentaram vender a personagem a várias editoras e jornais, mas acabaram por ser rejeitados.

Mais tarde, reformularam o Super-homem como um alien do planeta Krypton, que foi adotado por humanos e a viver disfarçado como Clark Kent.
Foi o Super-Homem que popularizou o género dos super-heróis e estabeleceu as suas convenções. Agora, se anteriormente existiam outras personagens, criadas antes do Super-Homem que tinham elementos que mais tarde definiriam o género dos super heróis? Sim! Personagens como o Zorro, criado em 1919 por Johnston McCulley, um justiceiro com identidade secreta, ou John Carter of Mars, criado por Edgar Rice Burroughs em 1912, um humano transportado para Marte com força e agilidade sobre-humana. Mas, foi o Super-Homem que cristalizou todos esses elementos numa só figura.
A venda do século
Em 1935, Shuster e Siegel começaram a trabalhar para a National Allied Publications, mas recusaram-se a vender a sua personagem por acharem que a National Allied era um negócio mal administrado. Só mais tarde, em 1937, aceitaram trabalhar para a Detective Comics, Inc, uma afiliada da National Allied Publicatiohns, que devido a uma cláusula especial, dava a Detective Comics o direito de preferência sobre qualquer material de banda desenhada que os artistas produzissem durante dois anos, podendo o empregador aceitar ou rejeitar o material num período de sessenta dias.
Em janeiro de 1938, a Detective Comics quis publicar Superman, e Siegel e Shuster decidiram vender os direitos do mesmo por 130 doláres.
Em 1938 , Superman foi publicado no livro Action Comics #1, e tornou-se um grande sucesso, o que levou ao arrependimento dos seus criadores. Mesmo assim estes dois artistas continuaram a trabalhar para a DC comics.
Siegel e Shuster e os direitos sobre os nomes Superman e Superboy
Siegel propôs à Detective Comics começarem a fazer histórias do Super Homem quando o mesmo era criança, e chamando-lhe de Superboy. Mas a DC recusou a ideia. Ele tentou novamente em 1940, com um script completo para a primeira história, mas nunca chegou a receber resposta no período acordado de sessenta dias.
Em 1944, a DC publicou uma história sobre o Superboy, baseada no script que Siegel tinha submetido à anos, e fez o mesmo sem informar Siegel. Sendo assim, Siegel e Shuster, desapontados e revoltados, decidiram processar a National Comics Publication para voltarem a ter o direitos das personagens Superman e Superboy, dizendo que o contrato que assinaram em 1938 não era moral.
O juiz não concordou e declarou que a personagem pertencia a National. Mas, a decisão sobre a personagem Superboy foi diferente. O juiz viu que Superboy era uma personagem diferente, uma entidade separada, logo declarou que Siegel era o criador original e o dono da personagem. Mas esta decisão foi mudada ao longo dos anos. Aliás, Shuster e Siegel, bem como os seus herdeiros passaram décadas a disputar os direitos sob a personagem do Superman, numa batalha legal que atualmente ainda se encontra acesa, mesmo após a morte dos dois criadores!
Superman (2025) e Mark Peary
Desde que este filme foi anunciado, de vez em quando apareciam notícias sobre o sobrinho de Joseph Shuster, Mark Peary, e como o mesmo estava a tentar impedir que o filme fosse lançado em vários países, devido a direitos de autor.
Direitos de autor? Mas os criadores não venderam a personagem? Sim. Embora tenham cedido os direitos do “Superman” à DC em 1938 , as leis de direitos autorais de países com a tradição jurídica britânica contêm disposições que encerram automaticamente essas cessões, 25 anos após a morte do autor. Sendo assim, e embora existam muitas pessoas a gozaram com este facto online, estes processos todos tem uma base legal legítima.
Image Comics, o seu modelo de publicação e comentário sobre a indústria
Quero tirar um momento neste artigo para falar da Image Comics. Uma companhia que penso ser relevante neste assunto. Fundada em 1992 por Todd McFarlane, Jim Lee, e Rob Liefeld, a Image Comics foi criada como um novo modelo para a publicação de Banda Desenhada. Esta companhia deixa os criadores manter a propriedade intelectual sob as suas personagens e histórias, dando-lhes a capacidade de lucrar com seu trabalho e manter o controle criativo.

Antes dos eventos de crossovers que todos nós adoramos, antes do Batman ter conhecido Spawn oficialmente, houve uma crossover secreta com a DC e a Marvel numa das bandas desenhadas de Spawn.
Nesta Banda Desenhada, Spawn encontra-se no inferno onde encontra uma prisão antiga cheia de super heróis reconhecíveis, que simplesmente não conseguem sair. Sendo que o Super-Homem claramente aparece, e até oferece os seus poderes para ajudar Spawn!

Com as figuras encapuzadas a representar os autores que tiveram que vender os seus direitos por dinheiro, e agora as suas criações encontram-se em angustia, esta Banda Desenhada serviu como comentário a situação dos direitos de autores na indústria.
Conclusão
Enquanto fã, sinto uma ligação profunda ao Super-Homem. Cresci a admirar esta personagem, e continuo a adorar cada adaptação que aparece da mesma.
Mas, este amor não me impede de reconhecer a tristeza que envolve a sua criação. Saber que Shuster e Siegel viveram maior parte das suas vidas sem dinheiro, em pobreza, enquanto que a personagem que criaram era um sucesso, apenas por terem assinado um contrato injusto.
É realmente um paradoxo. Adorar DC e o que a mesma tem conseguido construir com Super-Homem, mas ao mesmo tempo, não esquecer o que aconteceu aos seus criadores.
Honrar Super-homem não é consumir os filmes e as bandas desenhadas, mas sim, lembrarmo-nos que, atrás deste grande herói, existiam dois homens reais, sonhadores, e infelizmente, explorados. E, é por causa deles que devemos continuar a lutar por um futuro onde artistas devem ser tratados com dignidade.