Os livros gengibre
Publicado a 22 Jan, 2021

Há livros que lemos por prazer, livros que o dever nos obriga a folhear e depois há os livros gengibre. O leitor sabe bem o que é um livro gengibre, ainda que só agora tenha lido o termo pela primeira vez. Um livro gengibre está, para a pilha de leitura mensal de um leitor assíduo, como uma folha de alface está para um devoto de um buffet de carnes. Não é, nem de perto nem de longe, a nossa refeição favorita, está longe de ser a principal, mas pode ser sempre um bom acompanhamento.

É uma limpeza de palato.
Um lavar a boca dos sabores adocicados dos nossos géneros e autores favoritos que, de tanto consumo, podem correr o risco de se tornar enjoativos ou prejudiciais. Sim, prejudiciais. Por exemplo, eu sou um apreciador de livros de fantasia, mas não posso ler mais do que dois ou três seguidos. Porquê? Simples, a minha vida começa a parecer estranhamente aborrecida. Então, mas eu vou ao Intermarché, um sítio que alguns também conhecem como Os Mosqueteiros, e não sou desafiado para nenhum duelo de espada? Que raio de Mosqueteiros são estes que se preocupam mais com o gume das facas de cozinha do que das espadas?

Estão a perceber a ideia.
Ou se calhar não estão porque tem uma saúde mental superior à minha. Se for esse o caso, alerto para o facto de que vos fica mal atirarem isso à cara das pessoas. Vão por mim, no outro dia gozei como uma pessoa com transtorno de personalidade e a minha cara nunca mais foi a mesma. Vieram os três ao mesmo tempo, não tive hipótese.

Mas sobre os livros.
Para mim o melhor gengibre é sempre o mesmo: exatamente o contrário daquilo que andei a ler. Se estou a precisar de mudar de ritmo depois de dois ou três livros de um autor de ficção científica, por exemplo, está na altura de ir para não ficção. Se a não ficção já está a chatear (porque spoiler alert: o mundo é um sítio com tendência para cenas tristes, do aquecimento global às opiniões do Camilo Lourenço) é altura de ler umas crónicas, ou um título de humor.

A variedade na literatura é uma das suas grandes vantagens e uma que, confesso, me faz alguma confusão que não seja mais aproveitada. Pessoas que dizem que só leem romance, ou só gostam de policiais são pessoas de quem desconfio. Talvez seja preconceituoso da minha parte, admito, mas qual destes leitores tem a autoridade moral de me dizer alguma coisa? As mesmas pessoas que acham que é sempre a classe operária (o mordomo) o culpado do assassinato? Ou os fãs de romances de cordel e das grandes histórias de amor que, por acaso, tem sempre malta branquinha como uma t-shirt depois de ir à máquina com a TIDE?

Tenho de parar, prometi à minha médica que não me enervava*.
Além disso chega de mim, passemos a pessoas interessantes: Quais são os vossos livros gengibre?

*A minha esposa acaba de me informar que o que eu prometi à médica foi que tinha cuidado com o colesterol, a minha dieta e os doces. Enfim, cada um ouve o que quer.

Escrito por:
Tiago Lacerda
O Tiago é um budista reformado que neste momento vive em Portugal, mas que já residiu no estrangeiro. Nomeadamente, no Algarve. Fala para cima de 110 línguas diferentes. Infelizmente, 108 desses idiomas só ele os entende. Tem o hábito de inventar descrições sobre si próprio e ainda bem pois é um individuo que não convém conhecer.