Os Seniores também Assombram: Stephen King e as personagens que desbloqueiam o medo

Aos 78 anos, o mestre do horror moderno continua a provar que o envelhecimento não é uma perda, mas sim uma evolução narrativa. Com a ajuda de Josh, do canal Red Fury Books, exploramos a riqueza das personagens seniores na obra de King: desde a solidão e fragilidade de Ralph Roberts no clássico Insomnia (1994) até à liderança espiritual e sábia da centenária Mother Abigail em The Stand (1978).
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Ilustração de Pedro Roberto

É impossível falar sobre a evolução do medo e deixar de fora obras como “IT” (“A Coisa”, 1986), “The Shining” (“O Iluminado”, 1977) ou “Pet Sematary” (“Samitério dos Animais”,1983). Com uma carreira com mais de 40 anos, Stephen King assombra as nossas leituras, com a sua escrita intensa e dá-nos pesadelos com as suas histórias originais e personagens únicas. E mesmo agora, com 78 anos de idade, os leitores continuam a seguir o seu trabalho e a devorar os seus livros. Stephen King não mostra sinais de querer abrandar, provando que o medo não envelhece, só fica mais apurado. Ele também é conhecido por escrever outros gêneros, como suspense, crime, ficção-científica, fantasia e mistério. Com mais de 60 romances e mais de uma centena de contos e novelas publicados, King é o mestre do Horror moderno.  

Com tantos livros a circular pelo mundo, surgiu a curiosidade sobre a escrita de personagens seniores e a sua importância na sua obra. Para me ajudar com esta questão, pedi auxílio ao Josh,  que é um grande fã do escritor e tem um canal do youtube Red Fury Books (Red Fury Books – YouTube ) com inúmeros vídeos sobre os livros de Stephen King. Ao ser questionado sobre a existência de personagens seniores e a sua relevância nos livros do escritor e se havia alguma que se destacava, Josh respondeu que a personagem mais memorável para ele era o Ralph Roberts (“Insomnia”, 1994). 

Um livro que conta a história de um homem (Ralph Roberts) com mais de 60 anos, de Derry, Maine (quem sabe, sabe) que, depois de enviuvar, começa a sofrer de insónias e a ser testemunha de fenómenos estranhos que o colocam no centro de forças sobrenaturais e de um conflito maior.  King usa a idade e a fragilidade de Ralph como uma amplificação do medo, tornando a personagem facilmente identificável para qualquer leitor: viver com a perda de alguém, medo de desaparecer, de perder o controle e a profunda necessidade de encontrar sentido para aquilo que nos rodeia. 

“Specifically in Insomnia, as the central protagonist, Ralph IS the story here, in fighting his insomnia.  King is a great character writer and I found my connection to Ralph despite our age difference both times I read the book, to be strong.” – Josh, Autor do canal de Youtube Red Fury Books

Mother Abigail ou Abigail Freemantle (“The Stand”, 1978) foi outro exemplo dado por Josh como uma boa referência para uma personagem sénior relevante no mundo de Stephen King. Com 108 anos, Mother Abigail é descrita como uma anciã sábia e espiritual que guia os sobreviventes após o colapso da civilização. Em termos narrativos podemos descrevê-la como uma personagem que lidera e inspira outros individuos, enquanto Ralph é sobretudo um protagonista  mais observador e solitário.

“Perhaps a greater contrast to explore would be Mother Abigail in The Stand, as an extremely old character amongst a new community that has people of all ages.”- Josh, Autor do canal de Youtube Red Fury Books

Existem outras personagens que também merecem ser mencionadas, como Dick Hallorann, chefe de cozinha do Overlook Hotel em “The Shining”, ou Ted Brautigan, o misterioso reformado de “Hearts in Atlantis” (1999), que auxiliam as personagens principais a enfrentar o medo, o trauma e o sobrenatural, demonstrando que, nas obras de Stephen King, o horror e a perturbação psicológica não escolhem idades.

“I’d honestly have to reread a lot to confirm this, but my overall feeling is that as King aged, he got better at this.  Probably as a result of his knowing what it’s like to get older. While I often praise King for his great portrayel of young characters, I feel he is equally adept at older characters.” – Josh, Autor do canal de Youtube Red Fury Books

Esta foi a resposta dada, quando questionado sobre a evolução e representação da terceira idade nas obras iniciais em comparação com as mais recentes de Stephen King. Contudo, tanto esta entrevista como a investigação sobre estas personagens mostraram-me que, nas obras de Stephen King, o envelhecimento não enfraquece estes indivíduos; pelo contrário, oferece-lhes humanidade e profundidade narrativa. O facto de, já nas suas obras mais antigas, King criar figuras de terceira idade complexas e memoráveis, sem receio de explorar as suas fragilidades, mas também valorizando a sua experiência, sabedoria e conquistas, leva-me a acreditar que, hoje, aos 78 anos, o autor compreende o envelhecimento não como uma perda, mas como uma evolução e aprofundamento da importância da nossa identidade.

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Valérie Agostinho
Designer gráfica especializada em design editorial, com mestrado em Práticas Tipográficas e Editoriais Contemporâneas, com grande interesse em investigação relacionada com a terceira idade e o seu empoderamento na literatura. Adoro criar projetos literários e fanzines.

Colaboraram neste artigo

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