A 22 de janeiro foram anunciados os nomeados para a 98.ª edição dos Óscares, cuja cerimónia terá lugar a 15 de março. Entre algumas surpresas (F1, estamos a olhar para ti), omissões inesperadas e filmes que pareciam ter lugar garantido ainda antes da estreia, a lista deste ano confirma que a corrida está tudo menos previsível.
Em baixo, fica uma análise aos dez nomeados para a categoria de Melhor Filme — a mais aguardada da 7.ª arte — sempre, claro, com o mínimo de spoilers possível.
Frankenstein
Dir: Guillermo del Toro – 150min

Este ano, juntamente com a Netflix, o celebrado realizador Guillermo del Toro (GdT) — Pinóquio, The Shape of Water, Pan’s Labyrinth, entre outros — presenteou-nos com a sua versão de uma história que vem sendo contada há mais de 200 anos, desde que Mary Shelley publicou o seu romance Frankenstein.
Uma história que não é novidade para ninguém, mas que, aos olhos de GdT, ganha uma nova e atualizada vida. Com Jacob Elordi no papel da Criatura, Oscar Isaac como Victor Frankenstein — que, diga-se de passagem, não é estranho ao papel de criador obcecado, como já tinha demonstrado em Ex Machina — e ainda com o apoio de Christoph Waltz e Mia Goth, a narrativa segue, como seria de esperar, a obsessão de Victor Frankenstein em conseguir criar vida após a morte. Ao juntar diferentes partes de corpos, o doutor acaba por ser bem-sucedido e faz renascer uma Criatura interpretada por Jacob Elordi, feita à base de remendos.
A Criatura renasce com a inteligência de um recém-nascido, para grande frustração de Victor Frankenstein, o que gera um sentimento crescente de animosidade para com a sua própria criação. É a partir daqui que GdT diferencia a sua história de todas as outras. Entre uma excelente escolha para o design da Criatura, os figurinos de época e uma torre/laboratório dignos de um vilão clássico, a narrativa ganha força ao focar-se nos sentimentos de não pertença, na ausência de amor e na busca da Criatura por compreender porque é que, apesar de ser um “recém-nascido”, a sua simples existência gera medo, desconfiança e, consequentemente, violência contra si.
Frankenstein, de Guillermo del Toro, é uma história clássica com temáticas profundamente atuais. Sendo uma produção da Netflix, os meios financeiros não lhe faltaram, e isso nota-se. Bons cenários, um excelente costume design e uma representação marcante da Criatura justificam plenamente a nomeação para o Óscar de Melhor Filme.
Se vai ser o vencedor do maior galardão da Academia? Dificilmente. É um filme respeitado, admirado e tecnicamente irrepreensível, mas não o tipo de obra que gera unanimidade emocional, e nos Óscares, isso costuma fazer toda a diferença.
One Battle After Another
Dir: Paul Thomas Anderson – 162min

Depois de Licorice Pizza (2021), Paul Thomas Anderson (PTA) regressa com uma história épica sobre revolucionários, obsessões e uma produção soberba.
Com um elenco de sonho — Leonardo DiCaprio, Benicio del Toro, Sean Penn, Regina Hall, Teyana Taylor e a novata Chase Infiniti — PTA entrega-nos uma narrativa como só ele sabe fazer. Seguimos Bob (DiCaprio), que, após 16 anos de inatividade como revolucionário no grupo French 79, vê-se obrigado a sair do anonimato para salvar a sua filha Willa (Chase Infiniti), depois de esta ter sido raptada pelo implacável Coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), numa tentativa de forçar um ataque direto ao grupo.
DiCaprio entrega uma interpretação sólida, não explosiva, mas perfeitamente ajustada ao papel. PTA escreve e conduz a história com clareza e propósito, levando-nos numa viagem em que muitas sequências (como a impressionante perseguição de carro) nos mantêm agarrados ao assento. Benicio del Toro, Chase Infiniti e Sean Penn destacam-se com desempenhos que valem real atenção, e Jonny Greenwood, responsável pela música, compõe uma banda sonora que acompanha o ritmo narrativo de forma fulcral.
One Battle After Another é um filme com produção técnica impressionante, muito aclamado pela crítica e com desempenhos fortes em várias frentes. Será que é desta que Paul Thomas Anderson vence o seu primeiro Óscar? Existe essa possibilidade, talvez mais real do que em qualquer outro momento da sua carreira. Ainda assim, a história dos Óscares lembra-nos que o prémio de Melhor Filme nem sempre vai para a escolha mais óbvia.
Sem dúvida um dos filmes mais marcantes do ano, venceu o prémio de Melhor Filme nos Critics Choice Awards 2026 e arrecadou vários Globos de Ouro, incluindo Melhor Motion Picture, Musical or Comedy. Resta agora esperar pela noite dos Óscares para perceber até onde esta batalha poderá chegar.
Sinners
Dir. Ryan Coogler – 138min

Bem, não vale a pena esconder, este é o filme mais adorado do ano para o público no geral. Todas as páginas, pessoas, revistas, sites, mães e pais falaram dele. Fica a questão, será isto o suficiente para ser o grande vencedor da noite dos Oscars?
Do realizador Ryan Coogler – Black Panther, Black Panther: Wakanda Forever, Creed, entre outros- chegou-nos em 2025, Sinners com Michael B. Jordan no papel principal (ou deveria dizer nos papéis principais) dos irmãos Smoke & Stack.
Smoke e Stack regressam ao Delta do Mississippi (Clarksdale) após anos em Chicago a ganhar dinheiro de formas pouco legais, e ainda menos honrosas. Esta informação nunca é dita de forma explícita, mas, enquanto audiência, fica claro que a vida que os irmãos deixaram para trás estava profundamente ligada ao crime.
De regresso à sua terra natal, decidem abrir um juke joint, essencialmente um bar com música, e, para isso, começam a reunir as pessoas que os poderão ajudar a concretizar o plano. Ao mesmo tempo que reencontram velhos amigos e amores desencontrados, uma força antiga começa a ganhar ímpeto, ameaçando o bem-estar da população do Delta.
Sinners faz um excelente trabalho ao contar uma história que, à partida, parece simples, mas que se revela cheia de nuances, desde questões raciais à importância da música numa comunidade marginalizada, passando pela forma como mistura elementos de folclore e fantasia.
O filme conta ainda com músicas originais dignas de tocar na rádio, algures haverá certamente alguém a dançar Rocky Road to Dublin ou a cantar I Lied to You no chuveiro, sendo esta última uma das nomeadas ao Óscar de Melhor Canção Original. A banda sonora, composta por Ludwig Göransson (Oppenheimer, Tenet, The Mandalorian), é soberba e desempenha um papel fundamental na forma como a história é contada.
Já vimos com Moonlight que narrativas desta natureza podem ser bem-sucedidas na noite dos Óscares; resta saber se Sinners conseguirá repetir a proeza. Não será, certamente, a escolha mais óbvia em termos puramente técnicos, mas é impossível ignorar que a receção do público e a pressão mediática também pesam nas decisões da Academia.
Bugonia
Dir. Yorgos Lanthimos – 118min
Depois de Kinds of Kindness e Poor Things, Yorgos Lanthimos e Emma Stone continuam a sua colaboração, desta vez com uma adaptação do filme coreano de 2003 Save the Green Planet, realizado por Jang Joon-hwan.

Em Bugonia, Michelle Fuller (Emma Stone) é a CEO de uma poderosa empresa farmacêutica. Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) são dois irmãos cuja mãe está a ser tratada pela empresa de Michelle. Convencidos de que os extraterrestres existem, e de que Michelle é uma deles, engendram um plano para a raptar, com vista a obter uma confissão que valide a sua teoria.
A história de Bugonia dificilmente poderia ser contada por outro realizador que não Yorgos Lanthimos. Ao longo de todo o filme, o espectador é mantido num estado constante de dúvida: aquilo que começa como uma ideia aparentemente absurda ganha, aos poucos, peso suficiente para nos deixar completamente desamparados e ansiosos por um desfecho.
Como é habitual no cinema de Lanthimos, o filme constrói um clima de insegurança e desconforto, pontuado por comédia absurda, culminando num final que faz valer o tempo investido.
Bugonia acaba por funcionar como um retrato fiel dos tempos absurdos em que vivemos. A normalização de teorias da conspiração, a obsessão com conteúdos de culto e gurus da internet, algo que Eddington de Ari Aster (2025) já tinha explorado, encontram aqui um reflexo inquietantemente próximo da realidade.
A verdade é que estas pessoas estão quase sempre mais perto de nós do que gostaríamos de admitir. E, num mundo moldado por algoritmos e inteligência artificial, a sensação que fica é a de que estamos todos a um passo de começar a acreditar que as gelatinas são feitas de corpos humanos decompostos ou que os nossos vizinhos fazem barulho de madrugada porque estão a receber visitas de outros planetas.
Apesar de ser uma obra fascinante, que evidencia a capacidade de adaptação de Lanthimos e conta com interpretações fortes de Emma Stone e Jesse Plemons, Bugonia dificilmente será o favorito da Academia. Não por falta de qualidade, mas porque continua a habitar um território criativo que raramente se alinha com aquilo que os Óscares tendem a premiar na categoria de Melhor Filme.
F1
Dir. Joseph Kosinski – 156min

F1 é, sem dúvida, uma das grandes surpresas desta edição dos Óscares. Se Sinners não choca ninguém pela sua presença, F1 faz precisamente o oposto: surpreende, e não necessariamente pelas melhores razões.
O blockbuster de verão realizado por Joseph Kosinski (Top Gun: Maverick, TRON: Legacy) acompanha Sonny Hayes (Brad Pitt), um antigo piloto lendário que sai da reforma para liderar a recém-criada equipa APXGP – ou APEX, fundada por Ruben Cervantes (Javier Bardem). Ao seu lado está Joshua Pearce (Damson Idris), jovem promessa da Fórmula 1, e Kate McKenna (Kerry Condon), engenheira da equipa. No papel, tudo parece alinhado para uma história de sucesso, a questão é se isso basta para justificar a sua nomeação.
Tecnicamente, F1 é irrepreensível. Contou com a produção de Lewis Hamilton, a participação de pilotos reais como Max Verstappen e Lando Norris, e sequências de condução filmadas diretamente nos carros e cockpits. A produção chegou mesmo a ter uma oficina própria em fins de semana oficiais de Fórmula 1, garantindo uma representação extremamente fiel do desporto. E isso nota-se, e o público aprecia.
O problema surge em tudo o resto. O argumento é previsível, as decisões narrativas raramente surpreendem e a história nunca vai além do esperado. F1 acaba por ser, no essencial, um filme de ação sobre rodas: eficaz, espetacular, entretido qb, mas pouco mais do que isso.
O filme faz bem aquilo a que se propõe. O que fica mais difícil de defender é a decisão de o nomear para Melhor Filme do Ano, especialmente quando outras obras, artisticamente mais ambiciosas e narrativamente mais sólidas, ficaram de fora.
Hamnet
Dir. Chloé Zhao – 126min

Hamnet é daqueles filmes que parecia já ter um lugar garantido na lista de nomeados para Melhor Filme ainda antes de chegar às salas.
Realizado por Chloé Zhao (Nomadland), a partir do romance homónimo de Hamnet, o filme acompanha Will (Paul Mescal) e Agnes (Jesse Buckley) numa história de amor marcada pela perda, uma tragédia íntima que viria, segundo a ficção, a inspirar William Shakespeare a escrever Hamlet.
Para além de um drama de época, Hamnet é um ensaio sobre o luto e sobre a forma como duas pessoas que partilham a mesma dor a vivem e interpretam de maneiras profundamente distintas. É também uma ode à arte — e ao artista — e ao peso quase invisível que a criação carrega na vida de quem cria e de quem é tocado por essa criação.
Como se destaca face à concorrência? Num ano em que surgiram narrativas de grande escala e impacto como One Battle After Another ou Marty Supreme, Hamnet impõe-se pela intimidade. Enquanto outros filmes impressionam pela ambição ou pela dimensão do espetáculo, aqui a força reside na contenção e na vulnerabilidade emocional.
É talvez o filme que mais facilmente permite ao público projetar as suas próprias experiências de perda e amor naquilo que vê no ecrã, e essa identificação íntima, silenciosa, tende a pesar bastante quando chega o momento de votar.
Temos aqui um forte candidato ao prémio máximo da Academia. Resta saber se os votantes reconhecerão em Hamnet a complexidade silenciosa que o define ou se optarão por uma obra de impacto mais imediato e espetáculo mais evidente.
Marty Supreme
Dir: Josh Safdie – 150min
Marty Supreme é dos filmes de 2025 mais divertidos de assistir, ainda que, na sua essência, não seja de todo uma comédia.

Realizado por Josh Safdie (Uncut Gems, Good Time) e com Timothée Chalamet no papel principal de Marty Mauser, Marty Supreme é uma história de ambição desmedida, manipulação e personalidades narcisistas hiperbolizadas. Importa mencionar também a presença de Gwyneth Paltrow (Kay Stone), Odessa A’zion (Rachel Mizler) e Tyler Okonma (Wally), mais conhecido pelo seu nome artístico, Tyler the Creator.
Marty Mauser é uma jovem promessa do ténis de mesa nos Estados Unidos. Indiscutivelmente o melhor jogador do seu país, tem toda uma carreira pela frente e, aparentemente, assegurada. Ou pelo menos era isso que pensava até que, após o levantamento das restrições impostas no pós-Segunda Guerra Mundial, os jogadores japoneses voltam a poder competir internacionalmente. É nesse contexto que Marty enfrenta Koto Endo na final do Mundial de Londres, acabando derrotado.
À semelhança de Uncut Gems, torna-se quase inevitável que Marty Mauser percorra um caminho próximo do de Howard Ratner. Incapaz de aceitar que não é o melhor do mundo, transforma a frustração em obsessão. Manipula, mente e ultrapassa qualquer limite para garantir uma nova oportunidade frente a Endo, não apenas para vencer, mas para restaurar a narrativa que construiu sobre si próprio.
Importa ainda mencionar a incrível banda sonora criada por Daniel Lopatin, que acompanha belissimamente a jornada de Marty Mauser. A música de Lopatin dita o compasso da história e afirma-se como um trabalho que merece ser notado e apreciado independentemente da narrativa que acompanha.
Deliciosamente caótico e sustentado por interpretações intensas de Timothée Chalamet e Odessa A’zion, Marty Supreme mantém um ritmo sufocante ao longo das suas duas horas e meia. A maior produção até hoje da A24 não se limita a impressionar pela escala; afirma-se como um dos filmes mais vibrantes e marcantes do ano.
Marty Supreme começa com um momento memorável: a câmara fixa uma bola de ténis de mesa que serve de title screen, apresentando as palavras Marty Supreme – Made in America. Num contexto de crescente patriotismo e nacionalismo nos Estados Unidos, parece-me uma ótima posição para ser visto como possível vencedor da noite dos Óscares.
De qualquer forma, este é um grande filme que merece todo o reconhecimento do público e da Academia. Mas, num ano recheado de histórias poderosas, cada uma com diferentes profundidades e contextos, não será fácil para Marty Supreme vencer esta partida.
Train Dreams
Dir: Clint Bentley – 102min

Mais uma surpresa nas nomeações de 2026, Train Dreams traz aos Óscares a fragilidade humana, a solidão e aqueles sentimentos tão fortes que muitas vezes nem conseguimos expressar por palavras.
O filme segue Robert Grainier (Joel Edgerton), um lenhador que vive uma vida pacífica com a sua mulher, Gladys Grainier (Felicity Jones), e a filha, numa era de mudança e desenvolvimento constante. De realçar também a participação — ainda que breve — de Kerry Condon no papel de Claire Thompson. Baseado no romance homónimo de Denis Johnson, a segunda longa-metragem de Clint Bentley (Jockey) promete ser arrebatadora.
Ao longo da narrativa, acompanhamos dois lados distintos da vida de Robert. Por um lado, a sua rotina tranquila com a família, numa casa isolada no campo; por outro, as viagens de trabalho, que lhe permitem conhecer o mundo através dos colegas e descobrir, pouco a pouco, as fragilidades e complexidades da existência.
Desde cedo, percebemos que Train Dreams nos quer deixar confortáveis para, eventualmente, nos retirar o chão e levar numa viagem emocional: quando, numa das deslocações de Robert, um colega asiático é morto pela polícia, ou quando outro é alvejado em jeito de vingança a sangue frio.
Também Robert será profundamente testado por um evento traumático que o fará questionar a própria existência e o valor da vida.
Em Train Dreams, somos presenteados com cenários lindíssimos de uma América em desenvolvimento e com uma história que promete agarrar-nos desde cedo, remexer-nos e, no fim, deixar-nos desamparados, mas com esperança para o futuro.
Apesar de ser um candidato pouco usual, Train Dreams tem um valor imenso e merece toda a nossa atenção. Não será provavelmente a escolha vencedora, mas nem por isso deve ser menosprezado.
Sentimental Value
Dir: Joachim Trier – 133min
Depois do incrível The Worst Person in the World, Joachim Trier, o realizador norueguês regressa com Sentimental Value, um filme que promete destruir-nos emocionalmente.

Para este novo projeto, Trier volta a trabalhar com Renate Reinsve, que interpretou Julie em The Worst Person in the World e que aqui assume o papel de Nora Borg, filha mais velha de Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um realizador de cinema, e irmã de Agnes Borg (Inga Ibsdotter Lilleaas). Conta ainda com a participação de Elle Fanning no papel da jovem atriz Rachel Kemp, que aceita trabalhar com Gustav.
Sentimental Value explora a relação de Gustav com as duas filhas após o falecimento da mãe — doente oncológica — de Nora e Agnes, mulher de quem Gustav estava divorciado e que abandonara anos antes.
A exploração das relações familiares já foi feita inúmeras vezes no cinema, mas raramente com a sensibilidade com que Trier a conduz. De um lado temos Gustav, um homem incapaz de comunicar emocionalmente com as filhas, mas que encontra na arte a única forma de expressão possível.
Nora, atriz e irmã mais velha, vive num constante confronto com o pai. A relação entre ambos é marcada por tensão e competição, numa disputa silenciosa de personalidades fortes. Também ela enfrenta dificuldades de comunicação, ansiedade e uma certa autodestruição.
Agnes, por sua vez, historiadora e irmã mais nova, tenta ser o elemento conciliador. Procura compreender o pai e a irmã, mas depara-se repetidamente com barreiras emocionais que a deixam numa posição ingrata e vulnerável.
A narrativa intensifica-se quando Gustav oferece a Nora um papel no seu novo filme, uma história inspirada na sua própria mãe e na casa onde a geração de Nora, do seu pai e da sua avó cresceram. Nora recusa categoricamente trabalhar com ele, levando Gustav a entregar o papel a Rachel Kemp.
Sentimental Value é um triunfo da escrita. Nada acontece por acaso e cada desenvolvimento narrativo parece cuidadosamente construído. É fácil sentir o que as personagens sentem, identificarmo-nos com os seus conflitos internos e externos. A banda sonora de Hania Rani surge como acompanhamento perfeito, ampliando os momentos mais íntimos e dolorosos.
Em teoria, é um fortíssimo candidato ao Óscar de Melhor Filme. Na prática, sabemos que a Academia tende frequentemente para produções de maior escala ou com temáticas socialmente mais evidentes. Resta saber se Sentimental Value tocará os votantes com a mesma intensidade com que toca o público.
O Agente Secreto
Dir: Kleber Mendonça Filho – 161min
Diretamente do Brasil, O Agente Secreto chega pela mão de Kleber Mendonça Filho.

No papel principal temos Wagner Moura, conhecido de Narcos, Civil War e Puss in Boots: The Last Wish, que interpreta Marcelo, também conhecido como Armando.
O filme transporta-nos para o Brasil de 1977, nos últimos momentos da ditadura. Uma população oprimida mas em constante revolta, forças policiais marcadas pelo abuso de poder e um ambiente de tensão permanente.
Marcelo está em fuga, isso percebemo-lo desde cedo. Do quê, não sabemos; apenas que precisa de desaparecer. O seu destino é Recife, cidade onde vivem os pais da sua mulher e o seu filho.
Quando chega à casa de Dona Sebastiana, torna-se claro que aquele espaço funciona como refúgio para perseguidos e pessoas que procuram esconder-se de um passado problemático. Nem o próprio Marcelo parece compreender totalmente as razões da sua fuga, apenas sabe que não pode parar.
O Agente Secreto assume-se como um thriller político com fortes doses de suspense e alguns momentos de ação. A cinematografia é excecional e a interpretação de Wagner Moura sustenta grande parte do peso emocional do filme.
O único senão é o runtime de 161 minutos (cerca de 2 horas e 40 minutos). Apesar de a narrativa ser consistente e praticamente não deixar pontas soltas, é difícil não sentir que poderia ter sido ligeiramente mais concisa sem perder qualidade.
É um muito bom filme. No entanto, dificilmente será um dos favoritos ao Óscar de Melhor Filme. A sua força poderá estar antes na categoria de Melhor Filme Internacional. Cumpre com distinção aquilo a que se propõe, mas num ano particularmente competitivo, enfrenta concorrência de altíssimo nível.
Apreciação final
Estes são, então, os dez filmes que disputam o prémio mais cobiçado do cinema mundial.
Há obras que nos tocam pela intimidade e fragilidade — Sentimental Value, Hamnet, Train Dreams. Outras impressionam pela escala, ambição e domínio técnico — One Battle After Another, Sinners, Marty Supreme. Há a surpresa inesperada (F1), a força política vinda do Brasil (O Agente Secreto) e as apostas mais ousadas do alinhamento, Bugonia e Frankenstein.
A diversidade é inegável. A imprevisibilidade também.
Os Óscares raramente são uma equação matemática. São indústria, narrativa, momento cultural e, por vezes, emoção pura. Ainda assim, depois de analisarmos cada nomeado no Café Mais Geek, há um título que surge ligeiramente à frente na corrida: One Battle After Another. Paul Thomas Anderson parece ter reunido consenso entre crítica, público e indústria — uma combinação difícil de ignorar.
Mas numa noite onde tudo pode acontecer, não seria descabido ver Marty Supreme protagonizar a surpresa final ou inclusive Hamnet arrebatar o coração do júri com a sua força sentimental.
No fim, os maiores vencedores seremos nós por podermos acompanhar os gigantes do cinema num ano claramente recheado.