Quantos de nós poderão algum dia esquecer as quatro palavras de um verso de uma canção tão simples, mas ao mesmo tempo tão gigante, e que recorrentemente, empática e honesta, utilizamos para os que nos são queridos?
“Sou teu amigo, sim.”

A voz inconfundível, calorosa e encorpada, do nosso grande humorista Herman José, que contrastava com a voz tímida e nasalada de Peter Michael, na versão portuguesa, em que ambos davam voz a Wheezy, o pinguim em Toy Story 2, certamente ressoará ainda na memória de muitos aquele momento musical, ao final do filme, e que reunia sob o mesmo título, e pelo tema musical que o caracteriza, brinquedos novos e antigos.
Claro que quatro anos separam estes dois filmes e a primeira versão desta canção em 1995, cantada por Mário Sereno na dobragem para português, porém a mesma moral – amizade – tem vindo a derivar de sequela em sequela. Agora com um Toy Story 5, a 18 de junho de 2026, certamente que sentiremos um novo arrepio para o mesmo ideal.
Porque é isto que cada animação da Pixar, efetivamente e, “para o infinito e mais além” tem vindo, nestes quarenta anos, a transparecer para os de sempre, para os de agora e para os vindouros: um sentimento com valor, ética e propósito, numa sensação que nos inspira a ser a melhor versão de nós mesmos.
Parabéns, Pixar! E obrigado.
No entanto, e acaso, esta música tão icónica do Toy Story, de Randy Newman, não seja suficiente para uma rápida associação a esta indústria, que tal Luxo Jr.?
Pessoalmente, era um nome que nada me dizia. Conhecia-o mais como: “o candeeiro que saltita diante da palavra PIXAR e substitui a letra I”.
E é com essa curta metragem de apenas 3 minutos do realizador John Lasseter, onde vemos um filho a brincar com uma bola com o seu pai, que eu nos transporto. Para um 1986 onde tudo começou.
No entanto, e ainda que o ano em evidência ou o nome, tão bem conhecido, e a ele associado sejam a manchete desta indústria, devo, em bom rigor, recuar um pouco mais, até 1979 e a uma lenda imensa, característica pelas suas letras flutuantes em pleno espaço estrelado, que é George Lucas.
É neste prenúncio, da LucasFilm, que encontramos a Divisão de Computação; com um objetivo de inovar tecnologicamente a indústria cinematográfica. Encontramos, então, dois dos seus primeiros pioneiros, da futura Pixar, Ed Catmull e Alvy Ray Smith, então recrutados para o Instituto de Tecnologia de Nova York. E que na exploração de sistemas digitais, de sons e grafismos nos levam até 83, onde encontramos John Lasseter como designer de interfaces.
Em poucos anos, na SIGGRAPH, uma Conferência anual sobre computação gráfica, esta divisão vem assim a apresentar o seu protótipo, Pixar Image Computer, e com isso as suas primeiras curtas-metragens, como “As Aventuras de André & Wally B.”, “Sonho do Vermelho“ (1987) ou “Tin Toy“, vencedor de um Óscar como Melhor Curta-Metragem. Tudo isto revolucionaria a até então animação 2D, na base da, inequivocamente, arte mestra do desenho à mão, e todos os processos rigorosos que o exigem, como o que conhecemos do clássico “Branca de Neve e os sete anões”.

Chega-nos, então, Steve Jobs, um nome tão gráfico para com aquela maçã meio mordida, como o é Toy Story em relação à Pixar.
Com a sua aparição em 1986, este visionário tecnológico adquire esta divisão, juntando-se a nomes já de si impactantes neste prelúdio de animações computorizadas, e com 10 milhões de dólares torna-se assim o acionista maioritário de um projeto agora independente, a Pixar Animation Studios, ou apenas Pixar, datando-lhe o “nascimento” a 3 de fevereiro de 1986.

Claro que podíamos agora explorar o mundo de Jobs, desde o Macintosh ao seu afastamento da Apple e com isso a fundação da NeXT. Mas o que importa, para além de que existe um filme bastante elucidativo sobre a sua vida, acaso se desconheça as profundezas do seu nome, é que neste interregno da sua jornada, veio assim impulsionar e revolucionar a animação como a conhecíamos.
No entanto, não quero de modo algum descurar a pureza dos contos de fadas de antigamente, tão bem nutridos por dedos graciosos que desenhavam e pintavam à mão, como o foi em 1963, com “A Espada era a Lei”, num retrato da história do Rei Artur.
Porém, a realidade é que, com esta evolução, os traços animados, as feições, e o sentimento neles transparecido aproximaram as novas animações de cada um de nós.
Podíamos estar aqui também a esmiuçar a relação Jobs-Eisner e os seus desentendimentos ou o quanto os seus “porta-moedas” se ajustaram com a força das suas convicções, mas, honestamente, e para um marco que são estes 40 anos, sinto muito mais relevante felicitar esta data com os resultados desta jornada. Ou seja, as animações e o teor das suas histórias e frases emblemáticas que naquele breve instante em que o escuro antecede as luzes que se ligam da sala de cinema nos deixa em profunda solifilia.
E que melhor deixa, ou talvez, um dos primeiros exemplos de humor sarcástico animado com: “Tu és um brinquedo de criança!”
E estamos agora em 1995, e Toy Story é a primeira longa-metragem por computador da Pixar, trazendo mais de 300 milhões ao nível mundial, um Óscar de Realização Especial da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a John Lasseter e uma nomeação para Melhor Enredo Original.
É disso que se trata: a história.
Sim, toda a estrutura, ou cada um dos seus departamentos, no melhor das suas proficiências, é o que nos conduz ao longo da produção, do design, dos orçamentos, dos patrocínios, e afins. Agora, num outrora 2006, sob um mesmo teto corporativo a Walt Disney Company compra a Pixar Animation Studios.
Duas visões independentes, ainda assim, mas um comum desejo. Nas palavras de Pete Docter, o produtor executivo do Toy Story 5, à CNN Portugal: “Um filme da Pixar? Em que momento irei chorar?”.
Esse é propósito existencial da animação. Criar emoções. Reforçar laços. Inspirar o dia de alguém. Porque as mentes por detrás de cada novo mundo animado, nesta imersiva indústria, são de apenas pessoas, com as suas pessoais vivências, referências e memórias, a desenhar para outras tão iguais a elas, que imaginam e sentem.
Quem não recorda Ratatouille? A forma carinhosa e peluda que nos demonstra que podemos ser o que quisermos ser. Que não há obstáculo, herança ou neste caso espécie, perante a nossa força de vontade.
E Wall-E? Um filme de parcos diálogos e que nos leva a sonhar e sorrir a um mesmo tom como os filmes a preto e branco de Charlie Chaplin.


Mas de notar também um parêntese às emoções daquilo que experienciamos nos filmes da Pixar. A continuidade da evolução tecnológica. Vejamos Brave, por exemplo. O notável, marcante mesmo, de um pormenor talvez despercebido no seio de toda a trama: o cabelo ruivo de Merida. Esse tato, através de um novo sistema de animação chamado Presto, atualizando o indiscutível RenderMan, humaniza a animação. Cria proximidade para com o espectador.
Já para não falar também da qualidade musical com letras que nos perseguem a mente em bom tom sinfónico. E, claro, a mestria cirúrgica com que particulares referências repassam de uns filmes para os outros de uma forma tão hábil quanto “À procura de Nemo”.

Não existem animações esquecidas. Daquilo que experienciamos a cada novo título, por mais que algum nome nos falhe em mente, a história marca-nos desde que as luzes se apagam e voltam a acender. A exigência desta indústria em aproximar o “boneco” ao “humano” é cada vez mais iluminada. Atendamos ao filme Divertida-Mente. Quão próximo das nossas vidas, das nossas inseguranças ou das nossas escolhas é uma animação que aborda as emoções que bem reconhecemos.
É sobre isso que quero rematar este meu festejo sobre a Pixar. Muito haveria a dizer. Muitas animações poderíamos ressalvar. Uma indústria em larga expansão, que muito tem agraciado o público, indiscriminadamente ao longo de gerações. Porque está para lá de qualquer idade.
A Pixar Animation Studios fez quarenta anos e o que lhe é transversal ao longo destas décadas são as variantes do amor.
Seja num contexto de amizade e lealdade, como nas grandes franquias de “Carros”, “Monstros e Companhia” ou “Toy Story”. Mas também por algo que inocentemente desejamos: a compreensão de uma mãe (Brave) e a validação de um pai (Elemental).

