Quem tem medo do lobo mau?

Lembras-te de quando o PC era aquele "amigo nerd" que ficava no canto da sala enquanto as consolas (as populares da escola) dominavam a festa? Pois bem, o jogo virou. E virou de forma brutal.
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Durante anos o mercado de pc gaming pareceu estar só ali num canto. O Steam era aquele amigo nerd que sabia a lore de Warhammer de trás para a frente, que tinha as melhores dicas para FPS e que se gabava de passar horas em jogos que nós, os meninos populares das consolas, não conhecíamos nem queríamos conhecer (esta nossa arrogância ainda nos sairia muito cara, como vamos ver).

A PlayStation, Nintendo e Xbox dominavam. A era 360 chocou toda a gente quando encostou a Sony à parede, fazendo-a tremer para depois nos trazer alguns dos melhores exclusivos de sempre na era PS3. A Nintendo vacilou com a Wii U, mas anos depois renascia como Fénix com a Switch e dominava o mundo com a sua força vermelha. Popular. A Nintendo entendeu o termo e roubou-o para si (mas já lá vamos).

E o PC lá estava. Caladinho. Na sombra. O amigo nerd a quem nós, os populares da escola, olhávamos com certo interesse… e desconfiança.

Só mais um pouco de história (muito resumida, prometo). Na era Xbox One, a Microsoft cometeu muitos erros. E então a PS4 assumiu-se perante o público como “a consola com os melhores exclusivos” (podem não concordar, mas perguntem a quem quiserem.). Popular. As Xbox Series X|S pareceram vir dar mais luta à PS5 com a aposta forte no Game Pass. Os day one no Game Pass mudaram o jogo e tornaram-no… popular. Mas embora não tenha sido um fracasso de vendas ao nível da Wii U, a verdade é que estas Xbox nunca conseguiram descolar no voo da popularidade onde a PlayStation e a Nintendo há muito haviam embarcado. Mas então a PS5 trouxe uma Sony um pouco perdida e a apostar em jogos online e de serviço (muito longe dos gostos requintados do seu público alvo: os meninos dos AAA cinemáticos e premiados em cerimónias cheias de brilho e glamour). Projetos cancelados, estúdios icónicos como a Naughty Dog entregues só a à produção de remakes e remasters (e nada de jogo novo em 6 anos de PS5)e os grandes jogos PlayStation, outrora bandeiras dos grandes exclusivos da casa, começaram todos a chegar ao PC.

Ao PC! Lá estava ele, caladinho no seu canto, lobo disfarçado em pele de cordeiro. Mas depois veio a Steam Deck, outras consolas portáteis seguiram-lhe os passos, e a pele de cordeiro começou a cair. O esperto PC tornou-se uma ameaça para as arrogantes consolas caseiras. Poderia escrever um livro sobre isto, mas vou só deixar-vos com isto: em Janeiro deste ano o Steam bateu todos os recordes de sempre em número de utilizadores simultâneos. Mais de 42 milhões de jogadores! E esse número só parece crescer a cada trimestre. Ninguém pára o Steam.

Eu próprio, outrora menino devoto das consolas (tenho todas, não me venham cá acusar de clubismos), acabei por me render primeiro à Steam Deck e depois ao PC no ano passado. Se tenho lá (quase) todos os jogos da PlayStation e Xbox, se não pago para jogar online, se tenho mais lojas onde comprar e escolher os meus jogos, melhores preços, e mais liberdade, o que me faria manter uma PS ou Xbox na próxima geração? Nada. Chega-me o meu PC… e a minha Switch 2.

Mas esta semana o mundo gaming voltou a tremer. O Bloomberg diz que a Sony vai retirar os jogos PlayStation do PC (ou melhor, vai deixar de os publicar lá). Uma coisa é certa, a Sony pode estar a fazer mais dinheiro com a PS5 do que com a PS4, mas o número de vendas de consolas não aumentou (é fácil justificar o aumento de gastos dos jogadores se olharmos para as subidas de preços nos serviços e jogos, e ainda com os jogadores mais novos a gastar cada vez mais em jogos online).

Quando nos parecia que a Sony teria inesperadamente assumido o medo do lobo mau, vem a Xbox e lança outro tremor de terra. Do nada, e sob nova liderança de Asha Sharma (que substitiu Phil Spencer e Sarah Bond), revela a Project Helix, a nova geração Xbox que irá correr jogos da consola mas também do PC. Se não podes vencê-los…

Será por isto, por basicamente vir a ser possível jogar um God of War numa consola Xbox, que a Sony voltou atrás na decisão de ter os seus jogos no PC? Ou terá sido porque percebeu, finalmente, que a “casa dos grandes exclusivos” era uma bandeira que nunca devia ter largado ao vento?

Os próximos meses serão interessantes. Querem que vos diga a verdade? Isto de a guerra de consolas ter quase acabado foi um grande aborrecimento. Venha a guerra (saudável! Não sejam tóxicos!). A PlayStation precisava de ser assustada… outra vez. A Xbox, que muitos já consideravam morta, voltou à vida como aqueles zombies do Resident Evil e fez-me considerar comprar uma caixa na próxima geração. E nem eu acredito naquilo que estou a escrever. Mas vou analisar tudo com muito cuidado, pois na Microsoft, e nos seus movimentos inesperados e confusos, eu já confio pouco!

Quem tem medo do lobo mau?

As meninas populares e arrogantes que pensavam ter dominado o jogo lá nos tempos áureos em que o amigo nerd do PC parecia só um ser estranho e sem grande interesse.

E finalmente chegámos aqui. Quem não tem medo do lobo mau é a Nintendo de certeza. Esta continua a vender a Switch 2 que nem pãezinhos quentes, cheia de exclusivos únicos e premiados. “Se querem jogos Nintendo, comprem uma Switch”, parece dizer-nos a rainha vermelha lá do alto seu trono. Popular. Nintendo em PC nem parecem palavras do mesmo dicionário, vivem em dois mundos paralelos. No Japão ninguém quer outra coisa senão Nintendo (a Sony ter sido praticamente eclipsada em casa é um tema que dava outro artigo). E lá está a Nintendo a reinar no seu reinado de fantasia, onde o tempo parece ter parado em 2015. E deixam-na estar.

Histórias do lobo mau são só para os que só julgam já muito grandes.

E entre o ser e o parecer…

foto de capa: Florian Olivo (@florianolv)

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Filipe Branco
Fã de cultura geek em geral, mas é nos livros, videojogos e cinema onde mais me perco. Adoro escrever sobre o que me apaixona e eventos de gaming é comigo. Podem encontrar-me online ou à deriva num dos extensos corredores da próxima Gamescom.

Colaboraram neste artigo

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