Querida Ubisoft

Em 2014, a Ubisoft parecia imparável. Assassin’s Creed: Unity prometia a nova geração e um futuro inevitavelmente épico. Doze anos depois, restam memórias, estúdios fechados, projectos cancelados e uma pergunta difícil de evitar: onde se perdeu o caminho?
Alguns dos jogos na minha extensa coleção da Ubisoft (foto: Filipe Branco).

O ano é 2014.

Da Xbox 360, tiro o disco de Assassin’s Creed: Brotherhood e troco-o pelo do Splinter Cell: Blacklist.

Em cima da mesa está Far Cry 3, que apenas acabei de jogar há pouco tempo.

Já os terminei a todos, na verdade. Mas gosto de voltar aos seus mundos de vez em quando. Há sempre missões que ficaram por fazer ou pormenores que escaparam.

Movimento Sam Fisher cuidadosamente pelo cenário enquanto espero pela revelação do dia. Não falta muito. Ainda não será o anúncio de um novo Splinter Cell, penso, mas não faltará também muito para que tal aconteça.

O logo azul na capa destes jogos aqui comigo não me deixa mentir. A Ubisoft é o meu estúdio de videojogos favorito. Digo-o e repito-o a quem quiser ouvir. Não só pelos últimos que joguei, mas por um historial que parece quase imaculado no que à qualidade diz respeito. A Ubisoft respira ambição criativa, arrisca na mistura de vários géneros e obriga até outros estúdios a seguirem os seus passos no concorrido mundo dos videojogos, para que não fiquem para trás.

O telemóvel vibra. É o meu amigo a dizer-me que já começou. A E3 está ao rubro este ano e hoje é o dia mais esperado para mim.

Depois de vários leaks e de um pequeno teaser, aí está ele. O trailer cinematográfico de Assassin’s Creed: Unity.

Também eu vibro. O que vejo é incrível. É a próxima geração. Visuais inacreditáveis. O esplendor da Revolução Francesa com tanto detalhe. A prova de que a Ubisoft é um dos líderes desta indústria. O meu amigo liga-me. Ficámos quase uma hora ao telefone a analisar tudo o que vimos. É impossível medir o nosso hype. Nunca vimos nada assim. É este jogo que me vai fazer dar o salto para a nova geração de consolas.

Assassin’s Creed: Unity chegará já daqui a uns meses. Não falta assim tanto para Novembro de 2014. E tenho o feeling de que, com este, a Ubisoft será finalmente coroada a rainha dos videojogos. Certo?

Certo?

Alguns dos jogos na minha extensa coleção da Ubisoft (foto: Filipe Branco).
Alguns dos jogos na minha extensa coleção da Ubisoft (foto: Filipe Branco).

Errado. Tão errado. O resto é história. Como todos sabem. Assassin’s Creed: Unity chegou num estado desastroso e, com o tempo, virou um meme da indústria… pelas piores razões.

O trailer que me deixara tão empolgado trazia a voz arrastada de Lorde que cantava um cover de “Everybody Wants to Rule the World”. Irónico.

Todos querem dominar o mundo. E foi exatamente essa ambição desmedida da Ubisoft, mais em busca do lucro e quantidade do que da arte e qualidade, que a fez cair do topo e nunca ser coroada, como eu um dia imaginei.

O ano é 2026. Mais notícias tristes chegam do lado da gigante francesa. Mais estúdios fechados, milhares de funcionários despedidos, mais projetos adiados e o assombrado remake de Prince of Persia definitivamente cancelado. Splinter Cell nem vê-lo. Sam Fisher ficou abandonado em 2013 e ninguém sabe quando regressará.

Não vou bater mais no ceguinho. As notícias estão por aí. E há anos que temos vindo a assistir a uma das maiores quedas no mundo dos videojogos.

Do meu estúdio favorito restam apenas as boas memórias. Talvez quem não tenha vivido aqueles tempos áureos da Ubisoft não entenda. Adorava ter uma máquina Animus para conseguir levar-vos lá atrás, àquele ano em que o futuro parecia sempre a subir, para melhor, para algo épico.

Querida Ubisoft, conseguirás tu um dia regressar às velhas glórias do passado?

Não respondas. Prefiro não viver de promessas.

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Filipe Branco
Fã de cultura geek em geral, mas é nos livros, videojogos e cinema onde mais me perco. Adoro escrever sobre o que me apaixona e eventos de gaming é comigo. Podem encontrar-me online ou à deriva num dos extensos corredores da próxima Gamescom.

Colaboraram neste artigo

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