Toy Story 5 aparece com um plot ligeiramente diferente da restante saga. Enquanto os filmes anteriores exploravam temas como a amizade, a lealdade, o medo de ser esquecido e a aceitação da mudança, esta nova estória escolhe abordar uma questão atual – o lugar da tecnologia na infância e o impacto dos ecrãs na forma como as crianças brincam e interagem com os seus pares. Ao contrário do demais universo Toy Story, centrado no medo do abandono ou na procura de identidade, este capítulo desloca o conflito para uma questão social que preocupa pais, educadores e investigadores.
A escolha não foi acidental. Andrew Stanton, realizador e argumentista do filme, afirmou que a história nasce da constatação de um problema existencial para os brinquedos: “já ninguém brinca verdadeiramente com brinquedos”. Segundo Stanton, a questão central da longa-metragem é perceber o que significa para os/as novos/as crescerem num mundo onde o tempo de ecrã ocupa cada vez mais espaço nas suas vidas.
Bonnie vê a sua atenção ser capturada por um tablet inteligente, deixando os brinquedos convencionais em segundo plano. A partir desta rutura, a obra questiona aquilo que se perde quando o brincar imaginativo é substituído por experiências mediadas por um ecrã, onde o esforço para a criatividade é nulo.
A tecnologia sem o papel de vilão absoluto
No entanto, o aspeto mais forte do argumento é que não transforma a tecnologia num vilão absoluto. A película poderia facilmente ter seguido um caminho simplista, apresentando os dispositivos digitais como os vilões da história. Em vez disso, escolhe uma abordagem mais equilibrada. O próprio Stanton reconheceu que a narrativa não é sobre uma competição entre brinquedos vs. tecnologia porque, na realidade, “a tecnologia vence”. Os ecrãs fazem parte do quotidiano das novas gerações e não podem ser ignorados nem eliminados.
Embora Lilypad (o tablet) surja inicialmente como uma ameaça ao papel dos brinquedos, o guião evita cair num discurso nostálgico e já saturado. A mensagem é que os dispositivos digitais fazem parte da realidade das novas gerações e que é impossível ignorar a sua presença. O verdadeiro problema surge quando a tecnologia ocupa todo o espaço e se sobrepõe a experiências essenciais para o desenvolvimento infantil.
E esta é uma abordagem muito sóbria que distingue Toy Story 5 da sua linhagem. Desta vez, os brinquedos não lutam apenas pela sua sobrevivência; lutam pela preservação de algo essencial: a imaginação, a criatividade e a capacidade de criar estórias próprias. Ao contrário do que acontece num ecrã, onde grande parte da experiência já vem preparada, o brinquedo exige participação ativa da criança e convida-a a construir o seu próprio mundo.
A necessidade de pertença e o fator social
Não obstante, e tal como referi anteriormente, Toy Story 5 não conta uma competição entre brinquedos e tecnologia. Uma observação mais atenta revela ainda um outro ponto. Mais humano e emocional. Bonnie não abandona os brinquedos porque deixou de gostar de brincar. Ao invés, no decorrer das cenas, percebe-se que a fantasia e o prazer de brincar continuam presentes nela. O impasse desenha-se quando ela sente a necessidade de se adaptar aos comportamentos que observa à sua volta para se sentir integrada e aceite pelo seu círculo social.
Esta é uma nuance importante, pois desloca o foco da tecnologia para a sua influência social. Os ecrãs aparecem não apenas como objetos atrativos, aparecem como símbolos de pertença a um grupo. Bonnie procura encaixar-se num determinado contexto social e acaba por adotar hábitos que não correspondem verdadeiramente àquilo que a faz feliz. O filme sugere, assim, que muitas escolhas na infância não resultam apenas das suas preferências individuais, mas também da necessidade de serem aceites pelos outros.
A evolução da personagem demonstra, contudo, que a felicidade não está em seguir cegamente aquilo que parece ser a norma. O momento em que Bonnie encontra outra criança que partilha o prazer do brincar tradicional é decisivo. Pela primeira vez, ela percebe que não está sozinha e que não precisa de abandonar aquilo de que gosta para ser incluída. O projeto apresenta uma ideia humilde, porém, poderosa: a autenticidade pode criar novas formas de pertença.
Um desfecho de integração e autenticidade
Esta mensagem ganha mais força no desfecho. Não há uma vitória dos brinquedos sobre a tecnologia. Não há uma rejeição total dos ecrãs. A narrativa opta por uma solução de integração. As crianças inicialmente dependentes dos dispositivos digitais acabam por aproximar-se das brincadeiras clássicas e juntar-se ao grupo. O filme não propõe uma divisão entre dois mundos incompatíveis. Sugere que a interação humana, o imaginário e a brincadeira têm uma capacidade contagiante de reunir pessoas com interesses diferentes.
Por essa razão, considero que a escolha do enredo foi uma das mais relevantes de toda a pentalogia. Toy Story 5 utiliza as suas personagens para discutir um desafio muito vigente sem recorrer a mensagens vulgares ou moralistas. E sem julgamentos. O filme recorda-nos que é possível viver num mundo tecnológico e beneficiar das suas vantagens sem abandonar aquilo que os brinquedos, ou qualquer outro objeto tradicional, sempre simbolizaram: a imaginação, a criatividade e a importância de brincar.