2026 é um ano que vem demarcar um patamar de conquistas e feitos nas mais variadas indústrias; sejam elas colossais blockbusters que fizeram gerações, videojogos que evoluíram a par daqueles que hoje já não são miúdos, reconhecidas franquias em crescente expansão e até mesmo aqueles que cruzaram, ou ainda irão cruzar, a “ternura dos 40”.
Mas é também um ano que, de uma forma especial, vem honrar o seu quadragésimo aniversário de um dos maiores eventos literários que durante cinco dias, tal como em Feiras do Livro que bem conhecemos, proporcionar o encontro entre autores e leitores, editoras e livrarias e nesta comunhão celebrar o que a qualquer um destes é comum: a Literatura.
Refiro-me, é claro, ao Salão do Livro (Salon du livre, se mais ariscos no francês.)

Fundado em 1986 por Pierre-Marcel Favre, jornalista e editor suíço, distinguido com o grau de Comandante da Ordem das Artes e das Letras em 2016, o Salão do Livro decorre em Genebra, num dos maiores complexos da Suíça, com aproximadamente 106.000 m2 de um centro internacional, em pleno coração da Europa, e com a infraestrutura necessária para congressos, exposições ou eventos como o desta natureza: o Palexpo.

Ao longo destes quarenta anos o Salon du Livre – se me permitem alternar entre idiomas – tem conferido diversos formatos de cultura, proporcionando não só a arte literária, mas também a arte visual.
Recordando a 30ª edição, e como homenagem para o desenhador Jean Maurice Cabut, “Cabu”, e as vítimas do atentado ao Charlie Hebdo em 2015, uma exposição intitulada “Cabu, la rafle du Vel’ d’Hiv”, teve a sua honra com os desenhos originais.
Em 2024, a autora portuguesa de romances, como “O dia dos Prodígios”, por entre outros projetos ou títulos, Lídia Jorge, vem destacar esta edição pela sua originalidade e de bandeira Portuguesa bem hasteada. Uma escritora com uma ampla lista de premiações, sendo que em 2025 lhe foi atribuído o Prémio Pessoa.
Porém, não venho explorar as edições passadas e o quão prestigiadas foram, não apenas pelo valor dos seus convidados, exposições, livrarias participantes, ou a sua média de 60.000 visitantes que aderem a esta festividade internacional literária; mas sim enaltecer este pináculo – estes quarentas anos – como um reflexo do que foi e do que poderá ser amanhã.
Porquê enfatizar a 40ª edição do Salon du Livre?
Porque uma luz em português guiou a minha escrita a par de outras balsas que velejaram rumo a este aniversário francófono.
Falo, pois, da Helvetia Éditions.
Tamanho convite e honra, que reconheceu 16 nomes, num outro número tão redondo quanto aquele que sublinha esta edição, que é o X Prémio Talentos Helvéticos-Brasileiros, foi a oportunidade única de absorver o ambiente vivido no interior do PALEXPO.
E é com base nessa experiência, sorvida culturalmente em pleno – e antes até de aprofundar este reconhecimento literário por parte desta editora – que se torna transcendente, para qualquer dos cinco sentidos, encarar, e assim descrever, a grandeza que acarreta esta edição especial.
Mas, a par dessa responsabilidade, a humanidade que não desconhece e acalenta cada visitante.
Efetivamente, o Palexpo é o palco que um evento desta dimensão merece e precisa. Pela sua organização, pela luminosidade e espaço amplo, pelo tema de cores suaves que pintaram esta quadragésima edição e particularmente pelas figuras que vêm simbolizar este Salon du Livre como a pomba, a maçã ou até uma peça de xadrez, o cavalo. Contudo, é no polvo bordado em muitos dos sacos azuis do salão e nos seus longos tentáculos que a metáfora mais em mim ressoou. Quais patas ventosas que se expandiram e multiplicaram para outras línguas, que não só a francesa, e que animadamente alcançaram assim uma maior diversidade literária, com distintas ideias debatidas, gerações interligadas e culturas partilhadas.
Mas, em primeiro, antes mesmo de referir alguns awards atribuídos, mencionar um recanto, dentro daquele pavilhão que, para mim, – pelo que são também os meus pessoais gostos – se revelou vibrante: um espaço dedicado à cultura pop japonesa, a Scène BD. Pleno do que a muitos apraz, tais como colecionáveis figuras de ação ou os habituais FunkoPOP, era também clara a conexão entre este género e o tema que ali imperava, através de bandas desenhada, ilustrações, o MANGA.

Posto isto, e enquanto recordo a fineza da restauração disposta pelo PALEXPO, para uma melhor logística, não só dos que visitam, mas também daqueles que com empenho favoreceram e deram forma a esta edição, tranquilizar de que não irei exaustivamente e na íntegra pronunciar-me por cada espaço editorial ou livreiro, ou mesmo em pleno conteúdo das premiações ali concedidas.
Será, sim, numa visão de quem se deixou deslumbrar, de quem admirou tópicos mais sonantes e contribuiu também com a sua literatura num espaço onde o português era, naquele oceano, uma máscara de oxigénio.
Das seis honras da 40ª Edition du Salon du Livre, notar o Prémio Fabrizio Calvi entregue a Laurent Galandon e Paolo Castaldi, pelo Le dernier costume n’a pas de poches (Futuropolis), porém é em dois méritos que me revejo, pelo que tem sido o meu percurso enquanto escritor e com isso o meu propósito, que é promover a importância da leitura e escrita junto dos mais jovens.
Daí aplaudir o Prémio de Literatura Adolescente RTS a Laureline Maumelat, pelo seu romance: Vivre sans attendant (Rageot) e o Prémio Enfantaisie, organizado pela Payot Libraire em parceria com a ISJM, onde são as crianças, dos 7 aos 12, a premiar os álbuns e os romances que desejam celebrar.
Na categoria de álbum, premiado: La folle et incroyable aventure du chevalier Léon (Margot) de Vincent Mallié.
Na categoria de romance, premiado: Tante Brigitte est revenue (L’École des loisirs) de Laurent Rivelaygue et Olivier Tallec.
Enquanto caminho, pacientemente aguardando pela minha própria sessão de autógrafos, ou a cruzar caminho com Laure Adler, convidada de honra e autora da obra Femmes d’exception : Connaître, inspirer, admirer, é impressionante admirar as exposições, os quadros e as telas que nos atraem para uma melhor e profunda contemplação.
Temos, por exemplo, através da Paquet Editions, uma experiência imersiva que vem celebrar os 50 anos da morte da “rainha do crime”, Agatha Christie. Nessa exposição cenográfica, os amantes destes romances de enigma, tinham a oportunidade de se sentirem verdadeiros Poirot’s, e recolher pistas para resolverem um enigma. Contundo, o ênfase era principalmente a adaptação moderna das suas obras para banda desenhada.

Outro espaço impactante, certo de uma das maiores vozes francesas: Édith Piaf, voz do clássico La Vie en Rose. Uma exposição para ver e escutar, transparente no seu vínculo com a Suíça, e desenhada para dar a conhecer a sua vida, as relações – como a que inspirava Jean Cocteau, poeta – e todo um legado, considerado património literário, revelado noutra forma de arte: a música.

Organizado pela “Au Tigre Vanillé”, o fotógrafo Yann Becker oferece-nos um conjunto de imagens que nos absorve em deleite, num sentimento intenso, mas súbtil; verdadeiro, sem floreados para o adulterar, sobre a real vida japonesa na comum Osaka e a interpretação que cruza o seu caminho. L’ombre d’un rêve 夢影

E, por fim, naquele que é atualmente o único ponto de língua portuguesa, encontramos a Helvetia Éditions; e aí respiramos a simpatia de um ar que nos acolhe.
Esta editora, fundada em 2015 por Jannini Rosa, de origem brasileira, veio para a Suíça interligar estes dois países, ampliando o seu catálogo de publicações em língua portuguesa ao acolher também escritores de obras em francês.
Em pessoal nota, sendo eu, um autor da ChiadoBooks, do grupo AtlanticBooks – e igualmente homenageado – devo reconhecer a extensão de um ato louvável, que vai muito para lá de grupos editoriais, e que visa reconhecer e dar visibilidade e acesso dos autores em português junto das comunidades lusófonas.
Este gesto é ainda mais memorável quando se premeia, não o selo editorial ou o tema literário, mas o autor, ou seja, o ser humano por detrás de todo o seu esforço e percurso.
O X Prémio Talentos Helvéticos-Brasileiros, tido no Centre des arts, Ecolint, vem honrar e parabenizar esses mesmos escritores nomeados, através de um corpo de jurados que considera importante valores como: o envolvimento cultural, a contribuição do autor no seu país de origem, linguagem utilizada, originalidade e criatividade.
Entre o valor de todos os premiados, temos nomes de títulos como o de Carla de Sà Morais e o seu “Monólogos em Dó Maior” ou Carla Mulhaus com o seu livro “Partida ao Cais”. Mas também profundas histórias que compõem os versos da obra “aqui está o fogo, beba”, da poetisa brasileira Gal Galeotti.

Por tudo isto, e com uma extraordinária vista sobre as montanhas com os seus cumes pintados a branco, a 40ª edição do Salão do Livro em Genebra, no PALEXPO, ressoará com o seu “merci” por uma nostalgia que se ergue até à próxima edição.