Conheci o cosplay através da Internet, mas o primeiro evento em que tive contacto na primeira pessoa foi a primeira edição da Comic Con Portugal em 2014. Entre todas as actividades e entretenimento que encontrei na Exponor, não pude deixar de me sentir “de fora”, uma vez que não estava vestido a rigor. Hoje irei falar (escrever?) sobre a primeira questão que me surgiu na cabeça assim que decidi entrar na cena: Então mas que personagem posso fazer?
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Ora, se a pergunta é “Que personagem posso fazer?”, a resposta simples é: vocês podem fazer a personagem que quiserem. Passemos à resposta ligeiramente mais complexa e, com sorte, teremos um artigo com princípio, meio e fim.

Por um lado, só vocês podem decidir o que vestir e/ou interpretar e ninguém tem direito a criticar a vossa opção. Por outro lado, o mundo do cosplay é um onde se colocam personagens fora de contexto, pelo que convém ter algum cuidado, por exemplo, com iconografia ou elementos associados a racismo, xenofobia ou outro tipo de ódio. Dando um exemplo mais específico, o Indiana Jones pode ter-se vestido de nazi para iludir os seus inimigos no filme Os Salteadores da Arca Perdida, mas isso não significa que todos compreendam a referência e associem ao que vocês têm vestido caso se inspirem nessa imagem, ainda mais fora de ambientes onde o cosplay está estabelecido. Mesmo que tenham as melhores intenções, não deixa de ser uma imagem perigosa fora de contexto.
Isso não significa que estejam proibidos de vestir esse fato especifico dessa personagem, mas, como já dizia o Professor Oak no seu mundinho dos Pokémons, “há uma altura e um lugar para tudo”. Resumindo, vistam-se como bem entenderem, mas não se esqueçam que cosplay é amor. Amor pelas personagens, pelos mundos que elas habitam e pelos fãs que partilham esse carinho. É uma forma de expressão e pode significar tanto para nós como para quem nos rodeia, sejam pessoas familiarizadas com o cosplay ou pessoas que não fazem (nem são obrigadas a fazer) a mínima ideia do que isso é. Convém lembrar disso, pôr-nos nos pés dos outros e respeitar toda a gente.

E agora vocês dizem: “Ah e tal, não, seu nabo. A questão é que não tenho mesmo ideia nenhuma de uma personagem que possa fazer.” Bem, se o que estão à procura é de inspiração, há muitas maneiras de abordar o tema. A minha primeira sugestão seria lembrarem-se dos vossos ídolos e heróis, especialmente os da vossa infância. Não só vos trará nostalgia, como ajudará a entrar em contacto com a criança que existe dentro de vocês e a tocar os corações de quem também adora essas personagens. E claro, porque não as personagens favoritas dos vossos filmes, livros ou animes?
Caso o objectivo seja deixar o vosso “eu” para trás, há perucas, tintas, lentes, maquilhagem, máscaras, etc. O que quero dizer com isto é que o nosso aspecto não deve ser um factor limitativo. Por exemplo, se quisesse fazer cosplay de Rocky Balboa, poderia achar que a minha forma física não é boa o suficiente ou que sou demasiado loiro ou, sei lá, que ser uma mulher de descendência asiática nos seus 70 anos pode ser um impedimento. Não é. Podemos não ficar exactamente iguais, mas lembro que “cosplay” não é apenas sobre o aspecto. É certo que toda a motivação para ir ao ginásio é bem-vinda (eu que o diga…), mas se o vosso sonho é ser o Rocky por um dia, não há nada no vosso caminho. Claro que se quiser ficar mesmo igualzinho a um jovem Sylvester Stallone vou ter um pouco mais de trabalho, mas todo o caminho começa com um passo e, mesmo que não cheguemos ao destino, decerto chegaremos a algum lado.

Se por esta altura ainda não sentem a inspiração a fluir, outra sugestão seria olharem para o espelho e usarem a vossa imagem como ponto de partida. Não que estejam limitados à vossa aparência, como já disse, mas simplesmente porque poupa trabalho. Sou um tipo prático e acredito que os melhores resultados surgem quando usamos aquilo que já temos, tanto em termos de aspectos como de habilidades. O produto final parece sair mais natural e “o que é natural é bom” (ou algo assim). Não esquecendo, claro, que o mais importante é ser algo que vos desperte interesse e entusiasmo.
E porque não criar uma personagem original? É um exercício criativo intenso e, na minha experiência pessoal, dei por mim a criar histórias para a minha personagem enquanto desenhava e construía fatos e props. Ia respondendo a questões como “Será que esta personagem usaria isto? Em que situação? Porquê esta cor?”. É bastante diferente do cosplay de personagens existentes, no sentido em que não há referências a seguir. Não quero com isso dizer que dê mais ou menos trabalho. Isso dependerá sempre de vocês e do quão longe estão dispostos a ir.
Por fim, quero só acrescentar que não é preciso ser um grande artista, não é preciso ser um mestre da bricolage e não é preciso criar o fato de raiz e em detalhe (a menos que seja para competir). O “cosplay”, por definição, é apenas sobre vestir a personagem e, como actividade lúdica, tem como objectivo o lazer. Por outras palavras: Sejam o que bem entenderem, porque o que se quer é diversão.
Espero que, tendo chegado a este ponto, já consigam fazer uma lista de personagens que gostariam de vestir e/ou interpretar. Caso contrário, deixem um comentário abaixo. Em conjunto, talvez possamos ter mais algumas ideias.