Há projectos de cosplay relativamente simples, mas também existem bem complexos. A construção de um fato ou acessório pode levar meses e é fácil esquecer detalhes, perder a noção das horas e gastar mais do que o orçamento inicial permitia.
Fazer um plano não só poderá ter um impacto na qualidade final, como poderá poupar tempo, recursos e dores de cabeça. Por isso, a minha melhor sugestão é listar, desenhar e descrever tudo. Aliás, escrever como se estivéssemos a escrever para outra pessoa, porque há uma boa hipótese dessa pessoa sermos nós, meses mais tarde, depois de já nos termos esquecido de algumas coisas.

Aproveito para lembrar que este artigo é escrito a partir do meu ponto de vista. Pessoas diferentes têm formas diferentes de se organizar e cada um pode e deve encontrar a sua.
Assim, apesar de não ser uma ciência exata, irei tentar dividir o meu processo de planeamento por passos, numa espécie de receita, e apresentar um exemplo mais ou menos simples. Convém notar que este é um processo iterativo, ou seja, avançamos, aprendemos, voltamos atrás e melhoramos.
Então, como fazer um plano?
Passo 1 – Objectivos: Listar os requisitos, ou seja aquilo que se espera do fato e/ou da actuação.
Passo 2 – Pesquisa: Procurar na “net”, ler livros de instrução, perguntar a outras pessoas, entre outros. Essencialmente procurar tudo o que possa ser de interesse, desde imagens de referência de todos os ângulos relevantes a técnicas de construção. Esta é a fase para perceber que materiais e habilidades serão precisos e quanto tempo cada parte poderá demorar.
Passo 3 – Experimentação: Se é para fazer coisas que nunca fizemos antes, convém testar primeiro. Antes de encomendar 10 metros de espuma para criar um Transformer, convém saber o que se está a fazer. Que tal experimentar primeiro e ver se as técnicas funcionam em pequenas amostras antes de desembolsar uma pipa de massa?
Passo 4 – Análise: Esta é a parte da retrospetiva. Aqui avaliamos o nosso plano. O importante a avaliar é o nosso grau de confiança. Caso seja satisfatório, avançamos para a criação. Caso contrário, voltamos ao primeiro passo. Isto parece algo bastante metódico e matemático, mas como é óbvio podemos paralelizar. Isto é apenas um guia.
No exemplo que se segue, irei imaginar que quero fazer cosplay de Homem-Aranha, partindo do princípio que quero fazer o fato. De notar que isto é um caso hipotético. Nunca fiz o fato que irei descrever e os valores, processos e situações mencionados são inventados para os propósitos do exemplo. Não usei um caso real de uma das personagens que fiz, porque sinto que nenhum deles daria para ilustrar o método de forma simples e abrangente. O objetivo aqui é apenas ilustrar o processo e não mostrar como fazer esta personagem em particular.

Então, ‘bora lá.
1 – Objectivos: Quero vestir-me de Homem-Aranha e quero fazer o fato.
2 – Pesquisa: A minha pesquisa revela que a personagem tem uma máscara (duh) e o fato requer conhecimentos de costura (sim, vou entrar nestes detalhes, tenham paciência). Reparo também que a personagem faz acrobacias e acho isso interessante, apesar de não ter esse tipo de habilidades.
Neste momento o meu plano contém:
- Aprender a costurar (vou dedicar uma tarde para experimentar);
- Pesquisar como fazer a máscara (ainda não sei quanto tempo demora);
- Tentar aprender algumas acrobacias (um par de horas).
3 – Experimentação:
- Experimento costura e não gosto. Não é a minha “cena”. Talvez consiga fazer a máscara, mas não tenho interesse em fazer o fato completo. Decido procurar fatos já feitos.
- Desenho a máscara. Em teoria funciona. Ótimo.
- Começo a praticar cambalhotas (com segurança) e acho que posso vir a ter jeito para a coisa.
4 – Análise: Está tudo muito em aberto, as estimativas de tempo são vagas, não há ideia nenhuma dos custos e há grande risco de várias partes não chegarem a bom porto. Está incompleto. Volto ao passo 1.

1 – Objectivos: Quero vestir-me de Homem-Aranha e quero fazer a máscara. Na parte da actuação, quero saber fazer cambalhotas devidamente, possivelmente para um skit.
2 – Pesquisa: Procuro lojas que vendam o fato e encontro um artesão que o pode fazer por mim, incluindo o calçado (algo de que me tinha esquecido inicialmente). Procuro todos os materiais que preciso para criar a máscara. Vejo vídeos com as acrobacias e poses do Homem-Aranha e procuro mais informações junto de profissionais de desporto para aprender a executá-las de forma segura.
Neste momento o meu plano contém:
- Fato (demora 15 dias a ser produzido e enviado pelo artesão e irá custar um total de 30€);
- Fazer a máscara (2 dias e 10€ em materiais);
- Aprimorar acrobacias (30 dias de prática deverão ser suficientes para o meu objetivo, o que não me impede de continuar além disso);
- Aprender algumas poses básicas da personagem (1 hora).
3 – Experimentação:
- Faço uma versão rápida da máscara só para ver se consigo e fico satisfeito com o resultado;
- Falta experimentar o fato para ter certeza que serve, mas dependo de terceiros.
4 – Análise: Ainda há possibilidade de falhas, mas sei que o custo total irá rondar os 40€, só ao fim de 15 dias terei o fato completo e só ao fim de 30 devo estar satisfeito com a minha interpretação da personagem. Assim, a informação que tenho dá-me confiança suficiente para avançar com encomendas e execução.
O plano em si pode ser mais ou menos detalhado e deverá ser organizado como cada um achar mais agradável e nada no impede de o revisitar e rever mais tarde. De qualquer forma, o importante é ganhar confiança e não começar o projeto sem qualquer noção da possibilidade de o terminar, principalmente quando há uma data limite em mente. Neste exemplo, se quisesse apresentar-me em cosplay dentro de 5 dias, não seria viável. Parece matemática básica, mas muitas vezes os planos falham precisamente neste ponto. Aliás, no que toca a estimativas de tempo, convém lembrar: melhor jogar pelo seguro e ser pessimista. Apressar projetos tem uma forte tendência para afetar a qualidade e, no limite extremo, pode mesmo afetar a nossa vida pessoal.

Além disso, sem pesquisar e experimentar durante o planeamento, as decisões irão ser tomadas mais tarde, já durante a construção. Aí poderá ser demasiado tarde, poderemos desperdiçar materiais (neste exemplo teria sido o tecido do fato) e deixar escapar detalhes que poderiam acrescentar valor (neste caso, o calçado, as acrobacias e as poses).
Indo mais longe, imaginemos, neste exemplo, que tinha um orçamento inicial de 20€ que seria suficiente se o fato fosse feito por mim. Se já tivesse avançado com a máscara antes de saber que não gostava nada de costura, esse investimento seria desperdiçado ou ficaria numa posição de me forçar a fazer algo que não me dava prazer.
Por fim, quero só acrescentar uma grande vantagem do planeamento: a otimização.
O que costumo fazer após ter o plano feito é listar as várias tarefas que tenho pela frente em detalhe e organizá-las de forma a poupar tempo. Assim, se tiver que cortar tecido para várias partes do fato, corto todas de uma vez, arrumo os restos e mantenho a mesa limpa. Muitas vezes as tarefas são tão pequenas que não justifica o esforço, mas em projetos com técnicas mais complexas podemos poupar muito “overhead”. Este overhead seria o tempo que perdemos a desarrumar, arrumar e limpar ferramentas, desembalar materiais, preparar processos, entre outros. As poupanças serão mínimas, mas somadas poderão facilmente chegar a algumas horas ganhas no fim do projeto concluído.
Concluindo, planear é o primeiro passo para o sucesso e é tão mais importante quanto mais complexo for o projeto. Informação é valiosa e poderá poupar muito tempo e dinheiro, por isso é bom procurar, aprender e ouvir o que a malta mais experiente tem a dizer (a menos que queiramos “investir” a reinventar a roda). Há uma comunidade fantástica de cosplayers portugueses (e mesmo estrangeiros) que, particularmente nas redes sociais, todos os dias partilha dicas e dúvidas.