Um Sonho Chamado Scream

Tudo começou aos 12 anos: sozinho em casa, luzes acesas e um prato de torradas com manteiga. O que parecia ser apenas mais um filme de terror com a "bolinha vermelha" no canto do ecrã, tornou-se um despertar.
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Se houve filme, e eventualmente saga, que definiu quem eu sou, esse filme terá de ser Scream. Isto pode parecer estranho em várias frentes, principalmente por este filme de terror ser à volta de um assassino em série, ou por haver quem se defina por filmes que viu. 

Por motivos legais, sou obrigado a dizer que não sou nenhum assassino em série. E por motivos pessoais sou obrigado a dizer que houve muitos filmes que já me ensinaram ou mostraram coisas que nem na escola, nem a nível profissional ou pessoal, ou noutro ponto da minha vida, iria ter oportunidade de descobrir. O que descobri em Scream

Era eu um jovem rapazinho com 12 anos acabados de fazer, quando numa sexta-feira à noite, sozinho em casa e sem mais nada para me entreter, decidiu ir para a sala ver televisão enquanto iniciava uma atividade que até hoje se ia manter na minha vida: late snacking! Não foi nada de muito elaborado, um clássico até, um par de torradas com manteiga. Sei que não é por isto que aqui vieram, mas por favor, deixem-me pintar-vos a cena completa.

Ligo então a televisão e do outro lado assisto a uma conversa telefónica que já ia encaminhada quando após duas ou três linhas de diálogo ficou algo intensa demais para umas torradas. Mas eu conhecia aquela atriz, e ela parecia assustada, e realmente foi uma chamada estranha. 

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Contudo, eu estava expressamente proibido de ver qualquer que fosse o filme da saga Alien, tendo havido uma birra literal semanas antes por os meus pais não me terem deixado ver o Alien: Resurrection na RTP. Se calhar só queriam que eu visse a saga por ordem, ou não queriam que eu começasse pelo pior (anos mais tarde, nem o considero o pior!). Seja como for, não podia perder a oportunidade de agora ver algo com a famosa bolinha vermelha no canto do ecrã! 

Cada vez mais vidrado, procuro um canto no sofá e garanto que as luzes estão e ficam acesas, não vá o diabo tecê-las! De prato na mão, torradas ainda mornas, continuo a ver o pânico apoderar-se da tal atriz, daquele outro filme conhecido, que por falta de uma ligação à internet só soube quem era semanas mais tarde quando voltei a alugar o filme. 

Agora estava a ver o seu namorado, amarrado a uma cadeira, com uma piscina de fundo. A expectativa do que viria a acontecer era tanta que nem a torrada tinha metido à boca. E nos próximos minutos também não ia acontecer porque estava a presenciar as entranhas do pobre coitado da cadeira a caírem-lhe ao chão. 

Se estava algo assustado? Sim! Se estava a amar cada segundo? Totalmente! E a coisa só ia ficar ainda melhor dali para a frente.

Assim que essa sequência termina os meus pais tinham entrado em casa, deitaram um olho ao filme, agora numa preparação bem mais amigável do que a parte introdutória, e depressa ficaram colados no sofá. Havia ali algo, na altura nem estava a perceber bem o quê, que depressa chamava a atenção e nos fazia ficar mais agarrados do que um íman a um frigorífico. Mas um íman como deve ser, não um daqueles que mal abrimos a porta escorrega um pouco. 

Hoje, com a clareza de um adulto alimentado a torradas e tudo o que é slashers, posso já tirar muitas conclusões e entender que se calhar, isto foi o verdadeiro despertar de quem o Marco seria e realmente era. O Marco sou eu, nem sei porque falei na terceira pessoa. 

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Para mim, aquilo que eu via, que até à altura não tinha visto, em muito por culpa dos meus pais também não me deixarem ver Alien, era uma figura feminina, aparentemente frágil e inocente, que estava apenas a viver a sua vida, à procura de um caminho, algo que fizesse sentido após ter passado pela morte da sua mãe, quando a tragédia lhe cai novamente aos pés e agora, o caminho que tanto procurava foi-lhe forçado, temperado com uma boa dose de realidade.

Toda a sua existência foi posta em causa, o seu passado remexido, segredos vieram ao de cima, e mesmo assim, perante a adversidade e todo o peso que já carregava nos ombros, ela continua a querer sobreviver e sair por cima daquela situação. Era uma força de vontade tal que não havia como não ficar cativado e entusiasmado por vê-la passar de jovem para adulta no espaço de hora e meia. 

Mas algo também mudou em mim nessa hora e meia, aliás várias coisas mudaram. 

Primeiro, descobri um novo género que, provavelmente, continua a ser um dos meus favoritos, se não o favorito. Na altura assumi que seria apenas terror, e vim a descobrir que não era bem isto, mas sim um subgénero do terror, slashers, algo que já tinha mencionado acima.

Passei a existir apenas para descobrir o próximo filme que vinha preencher este novo espaço no meu coração que precisava desesperadamente de ser alimentado. E mal sabia eu que estava na era dourada do género, foram bons tempos! E se quiserem saber mais sobre este subgénero, não vos vou fazer perder tempo agora, mas podem ler mais aqui

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Segundo, estava a rever-me em alguém que não era propriamente como eu. Até então nunca havia questionado que num filme eu era o homem branco que salva o dia, eram os filmes que chegavam às massas, eram a realidade da altura, e era a realidade com que eu lidava e aceitava. 

A partir do momento em que me identifiquei quase a 100% com um personagem feminino, a minha cabeça já confusa por natureza, mais confusa ficou, e além de adorar a adrenalina de ver o filme por aquilo que ele era e por todo o mistério que envolvia toda a trama, havia um sentimento de pertença e visibilidade que não sentia noutros filmes. 

Isto também acabou por moldar bastante a forma como passei a ver filmes e que filmes é que ia ver a seguir. Não se limitou apenas a este tipo de filmes, mas sim a tudo o resto. Já não me satisfazia apenas ver algo apenas porque passava na TV ou porque todos viam. Passei genuinamente a perder horas no videoclube, a ler capas e contracapas a tentar perceber se ia retirar algo de valor dali. Desculpem, um videoclube era um local onde podíamos alugar uma VHS ou, mais tarde, um DVD. Tínhamos um ou dois dias para ver o filme e devolver. Anos depois acabaram por fechar, mas ainda me lembro perfeitamente do cheiro típico desses espaços e da alegria que me dava ver prateleiras cheias de filmes. 

Terceiro, nunca mais houve birras para ver os filmes que eu quisesse e bem entendesse! 

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Com o tempo, só fiquei a adorar ainda mais este filme e, posteriormente, as suas várias sequelas. Não tenho como não amar cada segundo de cada um dos filmes porque nos deram personagens como a Sidney Prescott, Gale Weathers ou Dewey Riley, isto só para mencionar o trio original. Eles eram o molde e quebraram o molde ao mesmo tempo. Aliás todo o filme é feito mesmo à volta disso, em quebrar com a norma imposta pelo género e subverter a expectativa do espectador. 

Os vilões também acabavam sempre por surpreender e ser os pontos altos de cada um dos filmes. O que faz sentido, tendo em conta que todo o mistério do filme acabava por ser quem é que agora queria pôr um fim a Sidney. E eram eles que também proporcionaram as melhores sequências cinematográficas dentro e fora do género. 

A bem dizer, isto é mais um whodunit, dentro do mesmo estilo de um Knives Out ou algum conto da Agatha Christie. Acontece que estamos a assistir a algo com mais carnificina que o costume, mas a base do mistério é a mesma. 

Mas apesar do quão importante esta saga foi para mim, há que mencionar o quanto ela mudou toda uma indústria onde o género de terror estava em declínio e que daí para a frente voltou a ver um interesse revigorado não só por parte dos estúdios, que viram o sucesso de Scream e realinharam as suas miras, como também por parte do público.

E criou um daqueles momentos em que tinham de ter lá estado para o sentir verdadeiramente. Falo claro da sequência de abertura que acompanhou as minhas torradas. Para o espectador, em que via uma Drew Barrymore na capa do filme, um dos nomes mais icónicos do momento, nem sempre pelo seu percurso cinematográfico da altura, e que do nada a vê ser morta na abertura do filme, ficou depressa a perceber que não estavam ali para brincadeiras. Se ela morria, ninguém estava safo.

Obviamente que os que se seguiram como que mantiveram essa tradição, ainda que o efeito tenha sido outro. Agora passou a ser um género de introdução ao que aí vinha e não tanto um choque inicial para desarmar o espectador. Nada tão icónico quanto o original, ainda assim bastante bem-vindo dentro do género. 

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Há mais que se podia dizer do primeiro filme, como voltou a reavivar aquele que era um nome importante do terror, Wes Craven, ou como uma máscara de Halloween, criada anos antes dos filmes, se tornou dos emblemas mais marcantes do terror, mas acho que já muito aqui se falou.

E se até hoje nunca experienciaram um filme da saga Scream, esta é daquelas recomendações que se fazem de olhos fechados, a qualquer que seja a pessoa que esteja à procura de recomendações e goste de filmes no geral. 

No final daquela minha noite com cheiro a torradas, sabem qual foi a melhor parte? Exatamente uma semana depois, a RTP ia passar a sequela!

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Marco Almeida
Viciado em tudo o que conte uma boa história, desde cinema a videojogos, séries a banda desenhada, e até um bom jogo de tabuleiro. Tudo é motivo para me atirar de cabeça a universos alternativos. E já agora, o Scorsese está errado; o MCU é o pináculo da sétima arte! Quem respira, concorda!

Colaboraram neste artigo

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