Se tudo correr bem, chegarei a velha! Mas será a palavra “velha” a mais adequada? Quero mesmo que olhem para mim e em vez de uma mulher, uma pessoa, vejam somente um “trapo velho”?
Num Portugal cada vez mais envelhecido, sente-se um grande distanciamento entre gerações. A Covid-19 não ajudou e aumentou ainda mais a desconexão da terceira idade com o resto da sociedade. Além de “velhos”, os idosos, tornaram-se o “grupo de maior risco”, “frágeis” e “doentes”, sendo constantemente recordados da sua própria mortalidade. Isolados e silenciados, limitam-se a existir.
É isto que me espera depois dos 65 anos? Felizmente a resposta é “não”!
Muitos idosos se têm revoltado e desmistificado esta ideia. Recorrendo cada vez mais às Universidades Seniores, que auxilia a nossa terceira idade na luta contra o preconceito e na manutenção de uma vida ativa, através de um variado leque de atividades e disciplinas, abrangendo áreas artísticas, musicais, linguísticas e sociais. A aposta na formação tecnológica, assim como a interação e utilização das redes sociais, abrem portas à integração social e à relação com os mais novos. Sendo este um tipo de formação com mais procura nestas instituições, provando que os idosos têm interesse, curiosidade e acima de tudo vontade de aprender. Demonstrando que o ditado “Burro velho não aprende línguas” está completamente desatualizado e errado.
A idade é apenas um número e não uma identidade!
E como podemos provar esta exclamação de modo que a terceira idade tenha um lugar na “mesa dos grandes”? Será que os media deveriam ter um papel mais ativo na sua representação? Tanto na televisão, como na literatura, são poucas as personagens principais com mais de 60 anos. Onde está o amor e as relações, o sonho, a amizade ou o regresso às aulas na terceira idade? Será que a única representação desta faixa etária é através de memórias, luto, solidão ou na figura do avô/da avó, que aparece de vez em quando no meio do drama familiar?
Não!



Inúmeros autores já escrevem contra essa “corrente”, dando a conhecer ao mundo quem são verdadeiramente os nossos idosos. Livros como “E se Eu Morrer Amanhã” da Filipa Fonseca Silva explora a sexualidade e a vida amorosa de uma mulher com 79 anos e da reação da sua filha ao tomar conhecimento dela. Trata-se de um romance que usa o humor para explorar e refletir sobre o preconceito e o tabu que existe sobre a sexualidade na terceira idade. Outro bom exemplo é o livro “E Depois, a Paulette” da Barbara Constantine, que nos dá a conhecer um grupo de idosos que devido a diversas circunstâncias da vida e tentando combater a solidão decidem viver todos juntos numa casa. Com o tempo, eles acabam por acolher dois jovens no início da vida adulta e a história acaba por refletir sobre as suas aventuras e desavenças debaixo do mesmo telhado. Uma história repleta de compaixão e solidariedade entre gerações. O livro “O Clube do Crime das Quintas-Feiras” de Richard Osman é outro caso de sucesso, onde 4 idosos que vivem numa residência privada para reformados, decidem criar um clube para argumentar sobre crimes antigos que nunca foram resolvidos. O caso complica-se quando acontece um homicídio no pequeno bairro e os participantes do clube vêm-se apelados a tentar descobrir o que aconteceu. Um livro divertido que explora o dia-a-dia destes 4 personagens e as suas histórias, mostrando que mesmo depois dos 65 anos, uma pessoa pode manter-se curiosa e ativa.


Não podemos deixar de mencionar uma das grandes “pérolas” da televisão dos anos 80, todo o elenco das “Golden Girls” (“Sarilhos com Elas” em português), mulheres com mais de 50 anos com problemas reais que vivem amores e desavenças em cada episódio e que cativaram os telespectadores durante 7 temporadas (1985-1992). Mesmo tratando-se de uma série dos anos 80, a escritora Rachel Ekstrom Courage decidiu oferecer uma nova oportunidade para estas personagens brilharem, criando uma série literária com o nome de “Golden Girls Cozy Mystery Series”, publicada em 2025 pela editora Pinguin Random House em inglês.
Com tantos exemplos que se esforçam para mostrar uma terceira idade ativa, independente e acima de tudo “viva” em vez de “velha”, posso afirmar com segurança que estamos no caminho certo, ainda que lento, para provar que “velhos são os trapos” e que é assim que deve ser.
Texto de Valérie Agostinho e Ilustração (da primeira imagem) de Pedro Roberto