Num universo saturado de capas, multiversos e ameaças cósmicas semanais, a Marvel decidiu fazer algo… estranho. E ainda bem. Wonder Man surge quase em silêncio, sem grande aparato promocional, e talvez por isso tenha conseguido fazer aquilo que muitas séries recentes não conseguiram: surpreender.
Em vez de apostar no espetáculo fácil, Wonder Man escolhe um caminho mais desconfortável e, curiosamente, mais humano. Aqui, os super-poderes não são uma bênção, nem um atalho para a grandeza. São um problema. Um peso. Um obstáculo numa vida que já é complicada o suficiente.
Um herói fora do molde
Como o Pintinho bem resumiu no episódio do Take, este não é o típico protagonista da Marvel. É “um gajo normal que por acaso tem super-poderes e por acaso isso é um problema”. E essa frase diz quase tudo. Wonder Man não quer salvar o mundo. Quer trabalhar, quer ser actor, quer ter uma vida minimamente funcional. Mas os poderes não ajudam. Pelo contrário, sabotam.
Esta inversão de lógica é refrescante. Em vez de vermos alguém a aprender a controlar dons extraordinários para cumprir um destino épico, vemos alguém a tentar encaixar numa sociedade que não tem espaço para ele tal como é. A série ganha força precisamente aí, na frustração, no desconforto e na sensação constante de inadequação.
Hollywood como campo de batalha
Outro dos grandes trunfos da série é o seu olhar sobre os bastidores da indústria do entretenimento. Castings absurdos, egos frágeis, expectativas irrealistas e decisões caóticas fazem parte do dia-a-dia das personagens. Aqui, Wonder Man aproxima-se mais de uma drama-comédia sobre sobrevivência profissional do que de uma série de super-heróis tradicional.
Há ecos claros de experiências anteriores da Marvel, como WandaVision, mas sem o mesmo foco conceptual ou experimental. Ainda assim, funciona. Como o Bigi apontou, é fácil esquecer que estamos a ver uma série de super-heróis. O conflito principal não é derrotar vilões, mas conseguir um papel, pagar contas e manter alguma sanidade mental no processo.
Entre o flop anunciado e a surpresa inesperada
À chegada, Wonder Man dividiu opiniões. Houve quem a proclamasse como uma das melhores séries recentes da Marvel e quem a descartasse como mais um tropeção do estúdio. Curiosamente, essa divisão parece ter jogado a favor da série.
Sem uma campanha de marketing agressiva, a expectativa manteve-se baixa e isso permitiu que a experiência falasse por si. Como referiu o Pintinho, muito do impacto vem precisamente do facto de ser algo inesperado. Não tenta agradar a todos e não segue fórmulas testadas. E isso, hoje em dia, é quase um acto de coragem.
Personagens secundárias que roubam a cena
Um dos aspectos mais interessantes da série é a forma como trata as personagens secundárias. O regresso de Trevor, personagem introduzida em Iron Man 3, é um bom exemplo disso. Aquilo que começou como alívio cómico ganha aqui um arco surpreendentemente sólido e emocional.
Como foi destacado no episódio, há momentos em que estas personagens crescem mais e melhor do que muitos protagonistas de outras produções do universo Marvel. Não é comum, mas é eficaz. E ajuda a dar densidade a um mundo que, de outra forma, poderia parecer demasiado pequeno ou fechado sobre si próprio.
Um lugar próprio no universo Marvel
Wonder Man não quer redefinir o género, nem competir com os grandes eventos do MCU. Quer contar uma história diferente, mais contida, mais estranha e mais próxima da realidade do que estamos habituados a ver. E consegue.
No fundo, é uma série sobre identidade, frustração e ambição, disfarçada de narrativa de super-heróis. Uma produção que troca explosões por diálogos e batalhas épicas por crises existenciais. Pode não ser para todos, mas para quem entra no jogo, é uma das propostas mais honestas e interessantes da Marvel dos últimos tempos.
E talvez isso seja, por si só, o verdadeiro super-poder de Wonder Man.