A Plataforma

Chegou 6 meses depois de ter estreado no TIFF, mas A Plataforma de Galder Gaztelu-Urrutia acaba finalmente de estrear na Netflix para a altura perfeita do “quarentine and chill”. Este filme de ficção científica e suspense que espelha os males da desigualdade da distribuição de riqueza, traz um conceito inegavelmente inteligente. Quase todo o filme se passa numa espécie de estrutura futurista chamada “A Plataforma” com centenas de andares. Trata-se de uma prisão na qual as pessoas são colocadas duas a duas em cada andar e em que todos os dias uma plataforma desce por um grande buraco no meio, sendo essa a única chance de comida para o resto do dia. No nível 1, os prisioneiros têm acesso a um banquete de pratos cuidadosamente preparados. É claro que os aqueles que se encontram nos andares inferiores acham a plataforma reduzida a migalhas, ou completamente vazia, quando lhes chega. Certamente, se cada prisioneiro comesse sua parte, haveria comida suficiente para todos – mas como convencer os outros a fazê-lo? A situação é complicada ainda mais pelo fato de que, ocasionalmente, os prisioneiros são drogados e levados para um novo andar, aparentemente ao acaso. Um mês pode ser gasto em luxo, desfrutando a abundância de comida nos andares superiores, enquanto o mês seguinte pode ser passado sem nada, com a fome como a única companhia.

A Plataforma é um filme com várias reviravoltas impressionantes, e no seu cenário limitado, cada novo andar lança uma nova luz sobre como o filme deve reflectir a sociedade. Particularmente fascinante é a maneira como os andares em mudança impactam as pessoas que tinham estado em níveis mais baixos anteriormente, e que agora têm a sorte de estar em andares superiores. Em vez de simpatizar com os que estão por baixo de si, parecem perder ainda mais a empatia, compensando o tempo perdido, conscientes de que podem não chegar tão perto do topo novamente.

A Plataforma, porém, oferece mais do que alimento para pensamento; o filme apresenta performances emocionantes e uma história contida, cada cena lançando novas informações ao espectador, aumentando o suspense e mantendo a adrenalina aos saltos. Cada nova revelação tem uma lógica implacável – é claro que existem maneiras pelas quais a administração por trás do poço impedem as pessoas de acumular alimentos nas suas celas, e é claro que Goreng e Trimagasi (os nossos primeiros prisioneiros) foram presos por diferentes razões mostrando-nos que existem diferentes objectivos para o poço. Goreng percebe desde o início que a plataforma quase certamente começa no nível 1 com comida suficiente para todos na instalação, mas que as pessoas nos primeiros níveis devoram tudo o que podem comer, deixando as que estão por baixo a morrer à fome. Trimagasi, por outro lado, tem desprezo por qualquer um preso nos níveis inferiores: aos seus olhos, as pessoas acima dele são inerentemente superiores a ele, e as pessoas abaixo são inferiores. Para ele, não faz sentido tentar mudar o sistema ou adaptar suas próprias acções para beneficiar ou mesmo reconhecer outras pessoas. Aqui temos dois pólos opostos a mover a história, dando-nos duas visões diferentes do mundo moderno. Os andares são sombrios e simples, sem muitas possibilidades narrativas óbvias, mas desta forma os escritores (David Desola e Pedro Rivero) garantem que haja sempre uma nova faceta do cenário emergente para chocar e intrigar o público. Assim que uma situação se instala, rapidamente  muda para algo subtilmente diferente.

A história avança de forma totalmente desesperante, mas Goreng (Ivan Massagué) é um idealista, determinado a não cair em desespero. Ele tem alguma influência sobre os prisioneiros que moram no andar abaixo dele, mas não pode influenciar os que estão acima; neste lugar, o poder apenas se move para baixo. A Plataforma é um filme de terror que surpreende com um banho de sangue durante o seu ato final, cheio de acção. A estrutura levou a comparações com Cube e Snowpiercer, mas, no final das contas, o que faz o A Plataforma funcionar é que é algo em si mesmo. Não é apenas uma mistura de ideias de outros filmes, mas sim uma peça ousada de cinema de género. E, claro, como tudo, agora tem uma energia diferente. O último acto do filme revolve à volta de se querer transmitir uma mensagem aos que estão no poder, essa mensagem começa por ser de que o seu sistema tem falhas, que com solidariedade a comida chegará para todos: ao mostrar que sobra comida no poço, este deixará de fazer sentido e acabará. Mas essa mensagem muda no final ao se descobrir uma criança. Embora não fique claro do como ou o porquê da criança estar lá embaixo – não deveria haver ninguém com menos de 16 anos nas instalações. Não oficialmente, de qualquer maneira. Mas o fato de ela estar viva e ilesa certamente significa que sua mãe, Miharu, a protegeu com sucesso. Isto não fica totalmente explicado no filme, mas parece que a repetida descida da mãe na plataforma não foi uma tentativa de encontrar sua filha, mas de trazer comida para o piso inferior e garantir que ela permanecesse lá, sozinha e ilesa.

O amor de mãe garante a sobrevivência da filha que parece saudável e não traumatizada. A menina parece representar o espírito humano, ininterrupto, apesar da influência avassaladora e desumanizante do sistema. No final, no entanto, Goreng não pode subir com ela, pois foi corrompido pelo tempo que passou nas instalações. A um nível literal, é improvável que sua ascensão mude alguma coisa. Mas metaforicamente falando, a garota é o futuro, e provavelmente a única esperança que a humanidade ainda tem. A menina é um símbolo da resiliência da humanidade através da tirania e uma indicação de que a mudança só pode vir da juventude. Adultos, como Goreng, vivem no sistema há muito tempo e foram moldados por suas injustiças; eles podem lutar por um futuro melhor, mas foram irremediavelmente corrompidos no processo. Os que estão no topo não estão dispostos a desistir de seus excessos por vontade própria, e os moradores de baixo estão muito ocupados sobrevivendo para considerar o bem maior – proteger as crianças do pior que o mundo tem a oferecer pode ser nosso único caminho a seguir. A mensagem passa a ser a de que existem inocentes a ser afectados pelo poço, algo que a administração nega e condena. Que mensagem mais forte poderia haver para destruir aquela situação?

Este filme é uma metáfora maravilhosa para o imenso terror do mundo em que vivemos, cada indivíduo se entregando enquanto desfruta de seu tempo no topo, enquanto as massas invisíveis no fundo se comem vivas. O sistema não beneficia quase ninguém, e a situação parece resistir obstinadamente às mudanças, incentivando cada indivíduo a levar o máximo que puder, enquanto estiver lá. No entanto, haverá sempre alguém que lutará contra a injustiça, o abuso de poder e a subjugação. É um abrir de olhos para os problemas actuais que enfrentamos, e de como a única solução é ajudarmos-nos uns aos outros para que todos possamos sobreviver, afinal não há cidadãos de segunda e primeira, apenas seres humanos e circunstância. Enquanto vemos como a sociedade funciona (ou deixa de fazê-lo) diante de uma das crises mais devastadoras da história, este filme merece ser visto e reflectido, pois nada mais é do que um reflexo espelhado do mundo.

Capa
9.5
A Plataforma
El hoyo
Incrível
Realização
Duração 95 min
Distribuidor ,
  • Enredo surpreendente
  • Ritmo compulsivo
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.