Antebellum: A Escolhida – Análise com minor spoilers

Por causa do caos na indústria cinematográfica causada pelo Covid-19 e de todos os atrasos forçados nas estreias de muitos filmes, tive a sorte de poder assistir a Antebellum: A Escolhida, no Motel X, mesmo antes deste estar em exibição nos cinemas mundiais ou em video-on-demand.

O filme prometia tocar em vários assuntos modernos de tensão racial nos EUA, através de uma história de terror psicológico, seguindo o mesmo plano que Get Out e US, e pessoalmente, ao contrário de muitos críticos americanos que li após ver o filme, eu acho que entregou o que prometeu.

Antebellum: A Escolhida consegue representar de forma clara e objetiva temas como a tensão racial, racismo sistémico e corrupção política com base na discriminação, que cada vez mais são discutidos nas sociedades modernas de uma estrutura escrita raramente feita para estes temas.

Através das suas imagens fortes e cheias de significado, dos seus momentos de tensão perfeitamente temporizados e do impacto que o terror psicológico que o filme cria nas audiências, Antebellum faz-nos não só sentir a raiva e frustração que as personagens sentem, mas também pensar o quão perto de ser real este cenário realmente está, e que pode ser desvalorizado como “apenas ficção”.

Algo que pode ser apontado ao filme, como um ponto mais negativo, é que não desenvolve a sua personagem principal individualmente, focando-se demasiado em como esta se relaciona com os temas retratados no filme, mas acho que até isso foi planeado pelos escritores. O objectivo do filme é mostrar-nos não que estas atrocidades podem acontecer apenas aos personagens que vemos na história, mas como pode acontecer a qualquer um de nós, se como sociedade não combatermos um sistema que disfarça comportamentos racistas, de ódio e de segregação como “liberdade de expressão”.

Assim, com um primeiro ato que nos apresenta a situação horrível na qual os personagens se encontram, um segundo ato que deixa a audiência confusa e intrigada com a reviravolta apresentada e um terceiro ato que mostra os personagens a ultrapassar o horror em que se encontram, Antebellum: A Escolhida, faz o horror visto no ecrã crescer cada vez mais, há medida que o filme se aproxima do seu fim, mantendo-nos agarrados ao ecrã a torcer pela personagem principal brilhantemente interpretada por Janelle Monàe.

Um filme que não tem medo de imagens fortes e chocantes e de implementar humor em momentos específicos do filme para dar mais força à sua mensagem, Antebellum: A Escolhida é uma história que todos devíamos ver, sejamos ou não fãs de horror. Não se trata apenas disso, trata-se de um filme que põe a nu os problemas raciais da sociedade moderna e prova objectivamente, mesmo através de uma obra de ficção, o quão perto a realidade de um sistema politico-social baseado no ódio e na discriminação está de se tornar verdade.

No final, Antebellum: A Escolhida não oferece uma solução para os problemas levantados, e deixa-nos sair do cinema com um sentimento de não resolução do que acabámos de ver, mas é mesmo esse o objetivo! Esta históra não é suposto fazer-nos sentir bem, mas sim ajudar-nos a acordar para problemas reais que não começam e acabam numa tela de cinema, mas que devem ser combatidos na vida real, fora das salas de cinema.

Capa
8.5
Antebellum: A Escolhida
Antebellum
Muito Bom
Estreia 18 de Janeiro de 2020 Duração 01H46M (106 min)
Distribuidor
  • Horror e Tensão perfeitamente planeados
  • Mensagem Forte e Moderna
  • Imagens e Simbolismo fortes e memoráveis
  • História estruturalmente inovadora
  • Personagens Podiam ser mais individualmente desenvolvidos
  • Por vezes põe o simbolismo à frente da história
Diogo Gomes
Escrito por: Diogo Gomes

Milenial com mestrado em Psicologia Clínica com especialização em Sexologia apaixonado por Artes, Videojogos e Tatuagens. Auto-intitulado Rogue que constantemente se perde na sua própria imaginação.