Mulherzinhas

Mulherzinhas é a sétima e nova adaptação do amado livro de Louisa May Alcott pelas mãos do talento em ascensão de Greta Gerwig (roteirista e realizadora). Gerwig é respeitosa com o material de origem ao mesmo tempo que garante que as suas próprias sugestões criativas sejam ouvidas. Ao incentivar um caos alegre de personalidades e performances sobrepostas, coloca em primeiro plano os temas existentes da realização feminina e a economia da criatividade, criando algo que é fiel às suas raízes e vigorosamente atual. É nessas salas caóticas da casa da família March que o filme obtém a sua energia vertiginosa. O golpe de mestre de Gerwig é levar o diálogo como foi escrito por Alcott, mas fazer com que os seus atores entreguem as linhas em uma confusão de ideias e hilaridade em massa.

A principal razão pela qual Little Women impressiona continuamente desde o seu primeiro volume foi publicado em 1868 é Jo March, apaixonadamente capturada por Saoirse Ronan. Desde que chegou às prateleira, Jo tem sido a inspiração para jovens raparigas e aspiradoras a escritoras ao longo das gerações, devendo o seu encanto à sua imaginação descontrolada, ambição e forma desajeitada. Vista como o alter ego de Louisa May Alcott, Jo atinge aquele estatuto que a torna eternamente contemporânea e empática. Outra adição interessante é o facto de não ser a fuga de Jo para Nova York que lhe permite encontrar sua voz criativa, mas o seu retorno ao coração da família.

Para além de Jo, a principal surpresa da abordagem inclusiva de Gerwig é a irmã mais nova, Amy. Florence Pugh brilha assim mais uma vez este ano, com uma performance arrebatadora e entusiasmante. Enquanto outras versões da história a pintam como mal-criada e mimada, aqui Amy e Jo são dois lados da mesma moeda. Ambas inteligentes, talentosas e obstinadas, chocam uma com a outra mais pelas suas semelhanças do que pelas suas diferenças, embora não o queiram admitir. Timothée Chalamet, igualmente encantador no papel de Laurie, é outra escolha de elenco absolutamente perfeita, conseguindo com pouco criar muito. As transições entre as cenas são interessantes, muitas vezes comparando o passado e o presente, criando um sentimento de nostalgia e contraste.

Agora é o momento em que se tem de avisar o leitor de que esta análise tem spoilers, por isso para aqueles que inexplicavelmente nunca leram o livro, ou os que ainda não tiveram a oportunidade de ver o filme, atenção!

O elenco é sem dúvida o ponto mais forte, porém no que toca ao resto o filme deixa algo a desejar, principalmente para os que vão na expectativa de encontrar um novo clássico para ver todos os natais. Falta densidade ao filme, afinal trata-se de um filme de época e uma certa magnanimidade é espera. A história parece apressada, as histórias individuais de cada personagem são pouco exploradas, não dando tempo para nos apaixonarmos por elas, para perceber as suas emoções, motivações, como se apaixonam. Os pontos mais importante do filme são apresentados apenas como momentos de rodapé (o corte de cabelo de Jo, por exemplo, ou a morte de Beth), o que tem como consequência o facto de não nos emocionarmos. Era suposto chorarmos durante metade do filme e tal não acontece. Desilude nesse aspecto. Reestruturar a linha do tempo é um passo arriscado, que para alguns possa não ter compensado, mas que para mim não incomoda. No entanto, quando se opta por este género de “storytelling” deve-se ter uma intenção por detrás. É impossível deixar de pensar que se em vez de um filme se tivesse feito uma mini-série que o impacto teria sido muito maior e o resultado superior.

Outro aspecto seria o facto desta obra ser um ensaio sobre a diferença entre pobres e ricos, homens e mulheres, a doença, a morte, a guerra, o amor não correspondido, as diferenças sociais; é isso que faz do livro um dos grandes da literatura, e o filme fica aquém. Tenta em vários momentos e em alguns chega a conseguir, mas não é épico, não é algo que saímos da sala de cinema e nos leva a discutir estas questões.

O final alternativo que Gerwig introduz reconhece a pressão comercial da época para que uma personagem fictícia feminina tenha de casar, e não ignorando o final que todos conhecemos e que a tantos incomoda por ir tão contra o esperado, modifica-o.  Desta forma, finalmente consegue dar a Mulherzinhas o desfecho que Alcott possivelmente desejava, mostrando ainda a sua resiliência como mulher e autora. Um filme que no seu todo não é mau, mas que nos deixa com a impressão de que ficou aquém das suas possibilidades. Ainda assim, não é uma má escolha para um filme de serão de domingo.

Capa
7
As Mulherzinhas / Little Women
Realização
Estreia 30 de janeiro de 2020 Duração 135 min
Distribuidor
  • Performance de Florence Pugh
  • Transições entre as cenas são interessantes
  • Performance de Timothée Chalamet
  • Falta densidade ao filme
  • História parece apressada
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.