O Ano da Morte de Ricardo Reis

O filme O Ano da Morte de Ricardo Reis é a adaptação cinematográfica, feita pelo realizador João Botelho, da obra de José Saramago, publicada em 1984.

O Ano da Morte de Ricardo Reis passa-se em Lisboa, em 1936, ano em que o médico Ricardo Reis regressa do auto-exílio de 16 anos no Brasil. Entrelaçando a ficção com a história, José Saramago concebeu um encontro particular do defunto Fernando Pessoa com este heterónimo.

1936 é o ano de todos os perigos: do fascismo de Mussolini, do Nazismo de Hitler, da terrível guerra civil espanhola e do Estado Novo de Salazar. Fernando Pessoa (Luís Lima Barreto) e Ricardo Reis (Chico Díaz) são dois lúcidos observadores da agonia de um tempo, tão similar ao que vivemos, onde ascendem os populismos e os totalitarismos. Nessa relação intrometem-se duas mulheres, Marcenda (Victoria Guerra) e Lídia (Catarina Wallenstein), as paixões platónicas, carnais e impossíveis de Ricardo Reis.

Dos muitos heterónimos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis é um dos mais controversos. A biografia dele foi construída gradualmente e não de forma súbita. Ricardo é médico, educado num colégio jesuíta e expatriado no Brasil por fidelidade às suas ideias monárquicas.

Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, a história começa precisamente com o regresso de Ricardo ao seu país. Quando regressa a Portugal fica hospedado num hotel e começa a observar toda a vida à sua volta, por vezes confuso, por vezes curioso, mas sempre sozinho. Segundo Ricardo Reis, “as coisas devem ser sentidas, não só como são, mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regra clássicas” levando a que vivesse quase sempre uma vida simples. Ricardo valoriza o presente por ter perfeita consciência da brevidade da vida e, por isso, abdica do que ele considera serem as “ilusões” da vida.

Durante a sua estadia, Ricardo Reis é visitado pelo fantasma de Fernando Pessoa. Esta aparição tem o propósito de alertar e reforçar esta ideia que já é de Ricardo, de que a vida é efémera e curta, e que será apenas uma questão de tempo até que as memórias de quem já partiu sejam esquecidas. Uma comparação bastante agradável é o filme Coco, da Pixar, que fala precisamente disso: todos continuaremos vivos enquanto houver pelo menos uma pessoa a lembrar-se de nós.

Tirando a relação intermitente com este fantasma, Ricardo Reis tem uma relação muito intensa com duas mulheres: Marcenda e Lídia. Estas duas personagens femininas, diametralmente opostas, são muito importantes na vida de Ricardo Reis e têm também um forte valor simbólico. Marcenda anuncia a morte, a impossibilidade de agir de Ricardo Reis, mas é ao mesmo tempo uma personagem muito poética e excepcional, e a outra, Lídia, é a única personagem inteiramente verdadeira, ela é vida e não tem nada de fantástico, tem uma voz e um corpo e é o laço de Ricardo Reis com o mundo (real). As relações que Ricardo tem com cada uma delas são uma espécie de dicotomia entre o bom e o mau, sendo que o bom é sempre aborrecido e o mau é apetecível.

Há muito para salientar em O Ano da Morte de Ricardo Reis. É um filme rodado a preto e branco, algo pouco comum nos dias de hoje e uma aposta arriscada para quem não está habituado a realizar um filme usando esta opção artística. No entanto, através de uma maravilhosa realização de João Botelho, utilizando como técnica mestre a sobre-exposição de luz, este “preto e branco” deu ao filme uma vida bastante singular no grande ecrã. Como se da própria imagem viesse o distúrbio e o desnorte das personagens.

A performance do elenco principal é consistente do início até ao fim. As escolhas dos actores para as personagens foram acertadas, mas é Chico Díaz que se destaca no papel principal do filme. Não conhecendo o actor previamente a este filme, senti que foi uma escolha inequívoca para o papel de Ricardo Reis. É a imagem mental que ainda nem sabia que tinha do heterónimo de Fernando Pessoa.

A música por Daniel Bernardes é outro dos elementos do filme que, de uma maneira muito difícil de descrever, nos deixa com uma sensação de constante desconforto, familiaridade, saudade e mistério. Acabou por se revelar uma brilhante combinação entre a fotografia e o áudio do filme.

Apesar de não ter lido o livro, pessoas que o leram e viram o filme dizem que O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma adaptação perfeita. Há uma fidelidade absoluta ao texto, quase como um copy-paste da prosa do livro passada tal e qual para os diálogos.

O Ano da Morte de Ricardo Reis apresenta-se como um filme tecnicamente louvável e bem executado. Desde a realização à banda sonora, dos actores aos adereços, o filme tem poucas falhas que se possam ser apontadas de uma maneira justa e nada subjectiva. No entanto, como um livro de José Saramago, acredito que não seja um filme para todos e que vai dividir muitas opiniões pela sua história parada e difícil de acompanhar.

O filme O Ano da Morte de Ricardo Reis já se encontra disponível nas salas de cinema nacionais.

Capa
8
O Ano da Morte de Ricardo Reis
Muito Bom
Realização
Estreia 1 de Outubro de 2020 Duração 02H09M (129 min)
Distribuidor
  • Opção artística do preto e branco bem aproveitada
  • Escolha acertada do actor principal
  • Adaptação fiel
  • História parada e difícil de acompanhar
André Pinto
Escrito por: André Pinto

Engenheiro químico de dia, cinéfilo e gamer à noite, geek a tempo inteiro. Desde muito novo que a minha mãe me dizia "Não percas tempo a ver séries e a jogar esses joguinhos"... Well look at me now, mom! De todas as pancas que tenho, Harry Potter e Doctor Who são, possívelmente, as maiores de todas. Quem quiser combinar uma ida ao cinema, estou por Lisboa. Allons-y!