O Homem Invisível

O Homem Invisível à primeira vista parece apenas um filme de horror com alguma ficção científica à mistura, mas o verdadeiro medo que aos poucos nos vamos apercebendo com este filme é o facto de que num futuro talvez não tão distante uma história destas pudesse ser totalmente verdadeira. O facto de ser credível é o que o torna tão assolador. Ao início leva-nos a pensar que se tratará talvez de algo mais simbólico, o fantasma que aterroriza Cecilia (Elizabeth Moss, completamente no seu ambiente) será o medo, as cicatrizes que ficam do agressor mesmo quando ele se vai embora. No entanto, rapidamente nos apercebemos que se trata de muito mais do que isso. Leigh Whannel ousa transformar o trauma muitas vezes silenciado duma mulher num relacionamento tóxico em algo insuportavelmente tangível.

Neste filme o contraste entre o homem invisível e a mulher visível são óbvios, e claramente este filme torna-se num comentário ao tratamento que muitas mulheres recebem quando arriscam admitir o abuso de que são vítimas: dúvida. Provas são necessárias, a palavra não basta. Embora legalmente faça sentido, e todos sejamos inocentes até prova em contrário, é algo que num momento como o da actualidade em que movimentos como o #metoo estão cada vez mais a vir ao de cima, necessita de ser falado e sublinhado.

A câmara segue a nossa protagonista de uma forma que foca o seu isolamento, isolamento esse intensificado pela banda sonora quase diabólica de Benjamin Wallfisch, crucial para um bom filme de terror e que nos fazem sentir a presença deste fantasma sem nunca o ver. Algo refrescante e que desta vez resulta é o facto de Whannell nunca nos fazer duvidar de Cecília. Acreditamos nela quando outros, talvez compreensivelmente, se recusam a fazê-lo, questionando a sua sanidade. Sentimos a sua angústia, sentimos a sua revolta, queremos a sua vingança. Enquanto outros filmes optariam talvez por explorar a dúvida, deixando-nos no suspense do é verdade ou não, neste filme é precisamente o oposto. A mensagem é a oposta. O que se quer transmitir é exactamente isso, que não há margem para dúvidas e que mesmo assim as há. Põe-nos no lugar da vítima, mudando o ponto de vista original do livro em que este filme é baseado. Uma jogada, a meu ver, que compensa e acrescenta ao filme, à conversa que se quer iniciar.

A história é simples: um relacionamento abusivo entre um homem rico pelas suas invenções na tecnologia óptica e uma mulher comum. Ela foge. Vive com medo que ele a ache, até que se descobre que este terá morrido. A inicialmente agorafóbica Cecilia finalmente reivindica a sua liberdade de volta, pelo menos brevemente, até uma estranha força invisível a começar a assombrar.  É claro que, se algo é bom demais para ser verdade, provavelmente não é. Cecilia vê-se forçada a lutar contra uma força invisível que arruína a sua vida e controla o seu bem-estar psicológico. Um “homem invisível” que a faz parece louca aos olhos dos outros e que nos deixa num constante precipício de emoções. Moss continua a oferecer o que queremos de personagens femininas: o tipo de complexidade desarrumada, mas robusta, que nos tem vindo a habituar ao longo da sua carreira. O roteiro e a direcção de Whannell permitem generosamente a Moss esticar esses músculos complexos e variados, oferecendo-nos um final arrepiante e merecedor da nossa atenção devota ao ecrã.

Um filme que não sendo assustador pela forma, assusta pelo conteúdo, e que é sem dúvida uma escolha que vale a pena em qualquer dia que se queira ver um bom thriller.

Capa
8
O Homem Invisível
The Invisible Man
Muito Bom
Realização
Estreia 5 de março de 2020 Duração 124 min
Distribuidor ,
  • Enredo diferente
  • Performance de Elizabeth Moss
  • Banda Sonora
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.