O Irlandês

O Irlandês narra a vida de Frank Sheeran, um veterano da segunda guerra mundial que virou assassino, mas a história apenas se torna interessante quando se entrelaça com a do famoso Jimmy Hoffa. Adaptado pelo co-escritor de Gangues de Nova Iorque Steven Zaillian a partir do livro de Charles Brandt, I Heard You Paint Houses, o filme é uma tentativa de trazer as antigas películas da máfia de volta ao grande ecrã.

Frank é introduzido pela primeira vez nos anos 80, acabado e pensativo. O seu monólogo interno que transparece como uma confissão, serve como narração para a ação. Robert De Niro conduz-nos, assim, através dos anos mais turbulentos de Frank – desde os eventos traumáticos da guerra até ao encontro casual com o chefe do crime Russell Bufalino (Joe Pesci), descrito por Frank como “o resto da minha vida”. E finalmente, a introdução a Hoffa (Al Pacino, o mais interessante dos três neste filme) que “nos anos 50, era tão grande quanto Elvis; nos anos 60, era os Beatles”, diz Frank. “Eu pinto casas”, diz ele, referindo-se ao sangue que fica nas paredes depois que o revólver é disparado.

A alegação mais chocante apresentada pelo livro, a base da adaptação de Scorsese, ocorre quando Sheeran alega ter assassinado o próprio Hoffa. As circunstâncias que cercam o desaparecimento repentino de Hoffa da vida pública foram desde sempre motivo de boatos e especulações, e sem dúvida esta alegação é um ponto de partida interessante para um grande filme. Num momento que faz lembrar o beijo de Judas, algo extremamente interessante visto que à máfia italiana está sempre associada uma certa devoção cristã, é através da traição de Sheeran que o intocável Hoffa pode cair. Vemos a forma trágica como este nunca perde a confiança quando ele entra no carro que o levará à morte, entrando no veículo apenas porque Sheeran lhe diz que está tudo bem. Quando Sheeran leva Hoffa para uma casa vazia, o alvo assume que houve uma confusão, acreditando até ao fim que protegem as costas um do outro. A banda sonora também não ajuda, falhando em acompanhar o enredo.

Quanto aos muito debatidos efeitos faciais regenerativos, eles são discretos, sendo que os olhos azuis de De Niro perturbam mais do que qualquer outra coisa, e só nos tornamos realmente cientes dos truques tecnológicos nas cenas em que os movimentos do corpo parecem notavelmente fora de sincronia com os anos da personagem Frank, como acontece, por exemplo, quando este anda aos pontapés com o dono da mercearia.

A história à volta de Hoffa é interessante de se ver desenrolar, principalmente porque promete desvendar o mistério que foi a sua morte, contudo esta história é apenas secundária para a da vida de Sheeran, e é aqui que o filme falha.  De Niro não convence, não encanta, não seduz. Parece que Frank é o pretexto par narrar os anos 50 a 70 nos estados unidos, o fim da máfia, é um quadro histórico, mas personagem é fraca, vazia, e não se percebe o elo de fidelidade ao russo. Percebe-se que há uma tentativa de explicar os cordéis por detrás dos acontecimentos marcantes daquela época, baía dos porcos, o sindicato, os Kennedy, mas haveria de saber adaptá-la melhor. A adaptação fica aquém das expectativas; o ritmo e a maneira como a história é contada não se compara a outros do mesmo género como é o caso de GoodFellas, também de Scorcese, e saímos desiludidos no fim. São 3 horas de filme que podiam muito bem ser cortadas para 1 hora e poucos minutos, tantas são as cenas desnecessárias e que alongam o drama sem sentido ou significado. Um filme que podia ser muito mais, tornar-se um clássico mas que não o faz, uma desilusão infeliz.

Capa
6
O Irlandês / The Irishman
Satisfatório
Realização
Estreia 27 de novembro de 2019 Duração 209 min
Distribuidor
  • Performance de Al Pacino
  • História à volta de Hoffa
  • Demasiado longo
  • Alongam o drama sem sentido ou significado
  • Cenas desnecessárias
  • Adaptação fraca
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.