O Legado

Ao assistir à antestreia de O Legado,  descobri outra das grandes tragédias de 2020. Ao que parece, a indústria cinematográfica acha que (depois de Donald Trump e Boris Jonhson) já não precisa de se esforçar para que as personagens tenham um cabelo minimamente credível. Só isso explica a irritante e ridiculamente distrativa cabeleira de Simon Pegg neste filme.

Durante todo o filme, a péssima caracterização de Pegg não é só uma distração, é um puzzle. Uma espécie de mistério que corre paralelo ao enredo principal. Como é que alguém achou que colocar aquilo, que parecem ser os restos mortais de uma taça de pot pourri, na cabeça de um personagem principal de um thriller era uma boa ideia? Depois de quase duas horas de filme, não encontrei uma resposta, mas fiquei com saudades do poderoso estilo capilar de Diogo Feio, e acho que isso diz tudo.

A cabeleira de Pegg não é o único problema desta película. Aliás, apesar de todas as suas falhas, este aglomerado de fios desirmanados chega a ter mais densidade narrativa que todos os personagens secundários. Não há um único personagem secundário com aquilo que, na gíria, chamamos de “personalidade”. São cópias de cópias, de clichés vistos e revistos. E se é verdade que o argumento de Matthew Kennedy não ajuda, as performances dos atores secundários também não merecem muito mais. Christina DeRosa em especial, na curta cena em que entra, demonstra ter a capacidade plástica de um pistão hidráulico.

Por falar em argumento, se não se importarem por aí além com falta de ousadia, previsibilidade de enredo e uma queda (na parte final) para um dramatismo mal sustentado, então este filme é para vocês! Fazendo todas as escolhas seguras e fugindo de riscos como um garoto bem informado foge de um padre, Kennedy consegue transformar uma premissa com potencial – um pai milionário deixa em herança um prisioneiro secreto à filha (Lily Collins) – num mero plot point. Um ponto de partida para contar uma história espectável. Não há nada de errado neste guião, mas também não há nada de especialmente certo.  Um pouco mais de ousadia no desfecho da história e talvez estivéssemos a ter uma conversa diferente.

O mesmo se pode dizer de Lily Collins, que tem aqui uma performance digna de um suburbano da CP. É verdade que nos conduz, ao longo do filme, de forma eficaz até aos locais onde temos de ir, mas não sem algum desconforto.

Apesar da sua ridícula peruca, o melhor do filme acaba mesmo por ser Simon Pegg. Nos dois primeiros atos, o inglês não desilude. É sólido, trabalha bem o material que lhe é dado e, em grande parte, carrega sozinho o interesse do filme. No entanto, quando, no último ato, tenta sair das águas confortáveis dos papéis a que esta habituado, fica sem pé e afoga-se numa interpretação inundada de lugares comuns. Por muito previsível que o final seja, este último ato precisava de mais unhas. Era um ato que, para funcionar, precisava de um Eddie Van Halen a malhar no bacalhau, mas que em vez disso teve um pequeno Saúl a tocar acordeão. Fofo e tal, mas não é bem o pretendido.

O Legado foi o primeiro filme que vi num cinema depois do início da pandemia. Talvez por isso o velho mantra (aplicável ao filme) de “visível, mas esquecível” não me incomode muito. Mesmo que seja num filme onde o protagonista insiste em equilibrar uma vassoura do tempo da Rainha Maria Pia no cocuruto, é bom estar de volta ao grande ecrã.

Capa
5
O Legado
Inheritance
Assim Assim
Realização
Estreia 8 de Outubro de 2020 Duração 01H51M (111 min)
Distribuidor
  • Performance de Simon Pegg durante os dois primeiros atos
  • Fez-me pesquisar fotos de arquivo do cabelo do Diogo Feio
  • Alguém achou que colocar os restos mortais de uma taça de pot pourri na cabeça de Simon Pegg era uma boa ideia
  • Argumento adverso à tomada de riscos
  • Atores secundários com a capacidade plástica de um pistão hidráulico.
Tiago Lacerda
Escrito por: Tiago Lacerda

O Tiago é um budista reformado que neste momento vive em Portugal, mas que já residiu no estrangeiro. Nomeadamente, no Algarve. Fala para cima de 110 línguas diferentes. Infelizmente, 108 desses idiomas só ele os entende. Tem o hábito de inventar descrições sobre si próprio e ainda bem pois é um individuo que não convém conhecer.