Os Novos Mutantes

Finalmente aconteceu, o regresso ao cinema após esta enorme situação que continuamos a viver deu-se em conjunto com o lançamento de um dos filmes mais adiados dos últimos anos. Tão adiado, que no arranque do painel da San Diego Comic Con @ Home foi incluído um pequeno teaser que torna esta situação numa piada. Inicialmente planeado para ser lançado em 2018, acabou por receber uma série de diferentes datas até ao momento em que finalmente a Disney determina uma data final num pós-pandemia muito complicado. O mais interessante deste assunto é ainda que os motivos para os quais este filme foi adiado tantas vezes nunca acabaram por ser concluídos. Confusos? Deixem-me explicar.

Na altura que o realizador Josh Boone terminou a primeira versão do filme, a FOX ficou muito satisfeita com o resultado e com as características únicas deste título em relação aos restantes filmes de heróis. Contudo, foi planeado o refazer de algumas cenas e com isso, aliado ao lançamento de Deadpool 2, houve necessidade de adiar por um ano completo. Durante este período não houve novas filmagens e a edição continuava a aguardar a finalização, quer na parte da montagem, quer na parte dos efeitos especiais. A nova data viria a coincidir com o lançamento de Dark Phoenix, assim e com o que estaria por terminar voltou a adiar-se. Entretanto, a FOX é adquirida pela Disney e esta agenda o lançamento do filme para abril de 2020.

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Com todo este tempo, a Disney volta a chamar Josh Boone para terminar o filme, que não consegue trazer alguns dos membros da equipa de volta devido a conflitos de calendário com outros trabalhos. Surge assim novos nomes numa tentativa de finalmente terminar o filme. No final, devido ao COVID-19, o filme volta a ser adiado, sem data prevista. Acabou mesmo por ser lançado em agosto de 2020, com 2 anos e meio de atraso em relação à data original, não havendo qualquer regresso da equipa para as filmagens que seriam necessárias. No final das contas, o filme poderia ter sido terminado e lançado em 2018 e teríamos o mesmo produto que tivemos agora.

Todas as aparências apontam para uma produção atribulada, mas no final verificamos que foi todo um conjunto de infortúnios e situações imprevistas que levaram a que tudo estivesse em pausa até agora. Os problemas do filme estão longe de se dever à produção em si, mas era algo que iria acontecer de qualquer forma. Contudo, apesar de todo o conjunto de pontos negativos que este filme suporta não consigo dar nota mais baixa que a apresentada e deixe-me explicar o porquê. Os Novos Mutantes apresenta uma premissa muito interessante, colocando um filme de super-heróis num local onde não tinha sido tentado antes, destacando-se o facto de que apesar do género ser de terror, o filme apresenta-se para maiores de 12 anos.

Tudo, desde o primeiro trailer, se mostra como sendo focado no terror e no medo, quer psicológico, quer físico, levando os personagens por caminhos diferentes que se torna extremamente interessante de ver. É aqui que encontro o primeiro problema. Um filme destes precisava totalmente que fosse classificado para maiores de 18, ou 16 na escala nacional. Essa ideia levaria a uma maior ousadia em algum do conteúdo e tenho certeza que tornaria tudo ainda mais louco e interessante. O realizador, que até ao momento apenas realizou comédias românticas, não seria o mais indicado para um filme totalmente focado no arrepiante psicológico, mas quem sabe, não teríamos uma surpresa e tendo em conta alguns pontos deste filme, tenho a certeza que seriamos surpreendidos.

O filme em si não tem nenhum problema que destrone totalmente a sua ideia inicial. O grande problema para mim é que apesar dos seus modestos 90 e poucos minutos, esta história poderia facilmente ser contada em 20 minutos. Esta questão torna o ritmo extremamente lento e aborrecido, o que com certeza deitará muitos fãs abaixo. É quase enervante olhar para as potencialidades desperdiçadas neste título e o problema é quando estas estão à vista e à frente de todos. Podia ser uma questão de produção, onde a Fox ou a Disney tivessem colocado o seu dedo julgador e tirado toda a diversão do que é ser criativo, mas não. O filme não é bom, porque simplesmente não é.

É ótimo que o realizador tenha colocado a sua visão do início ao final de toda a produção e que a versão que todos estamos a ver seja aquilo que sempre deveria ter sido. Já vimos vários exemplos no mundo cinematográfico de ideias que acabam completamente modificadas devido ao estúdio se colocar no meio dos trabalhos de desenvolvimento. Aqui isso não aconteceu, pelo menos de forma descarada, mas nitidamente a visão do realizador era demasiado curta para o desenvolvimento desta história. É um aglomerado de ideias com questões muito interessantes, tocando mesmo em pontos sociais actuais e algo sensíveis, mas que sabe manter uma naturalidade muito bem medida.

É por toda a potencialidade que vejo neste filme que o consigo apreciar de alguma forma, mas podem contar com desilusão, se é que ainda tinham algumas esperanças. O ritmo, como já referi, não ajuda em nada e parece que o filme dura o triplo do seu verdadeiro tempo. Algumas mudanças, como a cena pós-créditos ter sido removida da versão final, foram bem consideradas, pois a mudança de estúdio coloca por terra qualquer tipo de sequela logo à partida. Não tenho mais a dizer sobre este filme e espero que para alguns de vocês ainda consiga ser uma boa surpresa. Os Novos Mutantes já está nos cinemas nacionais e não será um candidato à introdução dos mutantes ao universo da Disney dos filmes da Marvel.

Capa
5.5
Os Novos Mutantes
The New Mutants
Assim Assim
Realização
Estreia 26 de Agosto de 2020 Duração 01H38M (98 min)
Distribuidor
  • A ousadia de tentar criar algo diferente no universo cinematográfico dos super-heróis atualmente
  • Premissa curiosa e interessante
  • Execução da premissa pobre e muito mal realizada
  • Filme com 90 minutos para contar uma história de 20
  • O resultado final não sabe aquilo que pretende em relação ao género
  • Um aglomerado de ideias sem conseguir uma conexão interessante
Eduardo Rodrigues
Escrito por: Eduardo Rodrigues

Considero-me um geek da cabeça aos pés. Adoro uma boa leitura, apreciar a arte da BD e da Manga, ver de uma assentada aquela série ou anime incrível, ir ao cinema e devorar um filme e deliciar-me com uma aventura interativa nos videojogos e nos jogos de tabuleiro. Sou um adepto da mágica Briosa e um assistente fervoroso no estádio.