See You Yesterday

Embora a ficção científica se distinga dos outros géneros pela imaginação de como o futuro possa vir a ser, os melhores livros e filmes tendem sempre a reflectir os medos e preocupações do presente. See You Yesterday, de Stefon Bristol, produzido por Spike Lee, evoca filmes como Back to the Future e Edge of Tomorrow, mas lida com temas que podem ser encontrados em filmes como The Hate U Give de forma ambiciosa e com riscos criativos, fazendo de Stefon Bristol um dos próximos cineastas a ter debaixo de olho. Para além dele, temos ainda a estreia de Eden Duncan-Smith com uma performance que espero ser apenas o início de uma bela carreira. See You Yesterday consegue um equilíbrio perfeito entre o drama socialmente consciente e o filme de aventura pateta e adolescente ao mesmo tempo.

Resumindo, C.J., uma brilhante cientista adolescente no bairro de Flatbush em Nova York, e o melhor amigo Sebastian (Dante Crichlow), terão conseguido nada menos do que arranjar uma forma de viajar no tempo, mais precisamente são capazes de recuar um dia. Mais importante do que isso, See You Yesterday subscreve a visão clássica cinematográfica da viagem no tempo em que fazer a menor mudança no passado pode atrapalhar completamente o futuro, mas talvez seja exactamente isso que os dois querem e precisam.

A peripécia que lança ao ação do filme ocorre inesperadamente quando Calvin (Astro), o irmão de C.J., é assassinado pela polícia quando esta confunde o seu telefone com uma arma. C.J. decide que tem de voltar atrás no tempo e salvar a vida do irmão, mas com cada tentativa ela acaba por complicar mais o presente. A ideia parece ser a de que os ciclos de violência simplesmente não podem ser evitados, mesmo com a capacidade de brincar com as próprias propriedades do tempo. Esta acaba por ser a moral da história, a inevitabilidade de evitar o passado de violência e a necessidade de agir no presente para se ver a mudança que se quer.

Bristol torna o filme poderoso ao torná-lo simples. A premissa é fácil de perceber, trata-se da história de como será mais fácil inventar uma das invenções mais notáveis ​​da história, do que consertar a violência e o racismo numa comunidade. Embora o filme seja divertido de se ver, a sua essência é esta mesma, a de uma frustração contra um país destruído pelo preconceito. Não deixa de ser interessante a forma como quando as personagens principais passam a ser de cor, como o tema principal de um filme muda. Em vez de se voltar ao passado para salvar o casamento dos pais, como em Back To The Future, C.J. precisa de retroceder 24 horas na esperança de impedir o assassinato de seu irmão, transformando o que poderia ter sido um divertido e leve filme de viagem no tempo numa história sinistra e triste que sublinha a injustiça que aquelas vidas presenciam todos os dias.

Num momento em que se luta pelos direitos básicos de seres humanos, muitos são os que dizem que  o maior problema é que enquanto se falar de racismo este nunca irá desaparecer, que a solução está em simplesmente silenciar esta discussão e tratarmos-nos todos por iguais, que apenas assim a igualdade virá. No entanto, quando as estatísticas nos mostram que estar em silêncio não é solução, é da minha opinião que não se deve menosprezar a importância destas discussões e que é necessário trazê-las de volta, gritar nas ruas as injustiças e exigir mudança, só assim talvez a consigamos alcançar, e a arte, neste caso o cinema, é muitas vezes não só um reflexo do que se passa no mundo mas um motor de reflexão e acção para a mudança.

See You Yesterday é, assim, um filme importante que nos faz reflectir a forma como a cor da pele de alguém pode mudar a experiência humana de uma forma que não é justa. Um par de adolescentes que se fossem brancos iriam viver uma história completamente diferente no ecrã, é talvez o ponto mais realístico dentro deste filme de ação científica, um filme que não só por isto, mas pelas boas performances e pela história bem realizada e escrita merece a nossa atenção.

Capa
8
See You Yesterday
See You Yesterday
Muito Bom
Realização
Estreia 17 de maio de 2020 Duração 87 min
Distribuidor ,
João Simões
Escrito por: João Simões

Viajante perdido à procura de sentido nas respostas dos outros. O personagem do Forky no Toy Story 4 em plena crise existencial é o meu animal espiritual. Quando ganhar um Óscar agradeço pelo meio à Cris e ao Ed se não me despedirem até lá.