MotelX – Esta foi a 14ª Edição

Durante estes tempos atípicos haviam muitas questões se o Motel X iria acontecer em 2020, mas com muito esforço de todos os membros da equipa, foi possível o evento não só ter a sua 14ª edição como fazer desta uma das mais memoráveis. Muitas questões se poderiam levantar se todas as medidas de segurança nos iriam impedir de vivenciar o espírito de terror como gostamos de fazer, mas toda a organização, estruturação e aplicação das regras aconteceu de forma a potenciar o espírito já esperado do Motel X, mantendo todo o público seguro.

Pessoalmente, tendo estado presente em 6 sessões divididas em quatro dias, nunca senti que tivesse de me preocupar demasiado com o distanciamento de segurança ou com a máscara, pois os colaboradores do Motel X e do Cinema São Jorge fizeram-no por mim e por todos ali presentes, deixam-nos seguir os filmes e as suas mensagens da melhor forma. Por isso, primeiro gostava de aproveitar já este artigo para dar os parabéns à excelente organização do evento.

Mas ao mais importante, os filmes em si! Este ano o Motel X abriu com 3 sessões de warm-up com a sessão de teatro ao vivo (com também design gráfico ao vivo) da peça A Mulher Sem Cabeça a ser o ponto alto. Depois disso, no dia 7, o Motel X começa oficialmente, com a apresentação de todos os participantes nos 2 habituais concursos de melhor longa metragem europeia e melhor curta-metragem Portuguesa. Este ano existia ainda um prémio extra para o Melhor Micro-filme português (filmes de no máximo 2 minutos e gravados em telemóvel ou tablet podiam participar); sendo de seguida apresentado um filme que de momento está em exibição nos cinemas mundiais O 3.º Andar: Terror na Rua Malasana.

Vou escrever um artigo especificamente para este filme muito em breve. É um filme espanhol, realizador por Albert Pintó e com um elenco conhecido por fãs do cinema espanhol, encabeçado por Begoña Vargas que claramente tem como público alvo os fãs de terror clássico. O filme em si não traz nada de inovador ao género, baseando-se na história de uma família que se muda para uma nova casa que está assombrada pela antiga residente, mas tem um terceiro ato com uma mensagem forte sobre a identidade de género que torna a visualização do filme interessante.

Depois disso, os restantes dias, foram recheados de sessões para os concursos, para estreias Mundiais e Europeias e para sessões do chamado Serviço de Quarto, com diferentes filmes recentes de relevância para a cultura do Terror no cinema.

Pessoalmente, de todos os filmes que vi, nenhum desapontou. Desde uma metáfora sobre a pedofilia e a influência que o abuso de crianças tem no seu desenvolvimento emocional em Sanzaru; uma excelente representação de como a cultura masculina na sociedade tenta oprimir o crescimento e  desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres na estreia como realizador de Josh Ruben com o filme Scare Me; um filme Japonês que  nos faz pensar sobre a relação entre o amor e a violência em A Beast in Love de Koji Shiraishi e uma curta metragem Espanhola intitulada Polter, que representa o terror emocional de viver preso numa falsa identidade de género.

Para além de todos estes filmes, acabei por me intrometer no concurso de longas metragens Europeia ao ver o filme Advantages of Traveling by Train; sendo esta sessão um dos pontos altos da minha experiência no Motel X. O filme Espanhol, realizado por Aritz Moreno, oferece-nos uma representação perfeita de como é viver com uma patologia psicológica e de como esta afecta as nossas relações amorosas e familiares, apresentando-nos também com uma pequena nota sobre como os media afectam a nossa visão do mundo e quão diferente esta é da realidade.

Advantages of Traveling by Train acabou por não ganhar o prémio da melhor longa metragem Europeia, que foi atribuído ao filme Pelican Blood, realizado por Katrin Gebbe.

Para além deste prémio, o vencedor do prémio de melhor curta-metragem de terror portuguesa foi Mata, realizado por Fábio Rebelo. Apesar de não ter ganho, o júri decidiu dar uma menção especial a A Grande Paródia de André Carvalho, deixando rasgados elogios à curta. Para além destes, existe uma longa lista de curtas portuguesas de grande qualidade que vou definitivamente ver e aconselho todos a fazê-lo também. Deixo-vos AQUI com a lista.

Mas, para além das sessões especiais, workshops com especialistas em terror como Takashi Miike e dos concursos aos prémios referidos, um dos pontos altos de todo o evento foi a exibição do filme Antebellum: A Escolhida, que devido à pandemia teve a sua data de estreia nos cinemas mundiais adiada, fazendo com que o filme fosse exibido no Cinema de São jorge mesmo antes de sair para os cinemas mundiais, numa uma espécie de ante-estreia.

Vou escrever um artigo detalhado sobre este filme de Gerar Bush e Christopher Renz, mas para vos deixar com um pouco de água na boca, Antebellum: A Escolhida trata dos mesmos temas de tensão racial nos EUA através de uma história de terror, como Get Out e US, mas fá-lo com imagens e símbolos muito mais poderosos que os anteriores. Fiquem atentos ao artigo que há de vir para saberem mais!

Nós

Como análise final, o Motel X foi um evento muito bem organizado, sempre preocupado com as normas de segurança obrigatórias no momento que se vive, mas sem nunca perder a aura de terror que esteve presente em Edições anteriores e que já é expectável do evento. Com os melhores filmes de terror da actualidade, criadores e realizadores de vários países, identidades e culturas, o Motel X mais uma vez apresentou-nos com uma variedade de visões e mensagens transmitidas através de terror, provando novamente que este não se faz só de sustos e monstros mas também de mensagens bem reais. Mal posso esperar pelo evento do próximo ano e que mais irei aprender com os seus contadores de histórias.

Diogo Gomes
Escrito por: Diogo Gomes

Milenial com mestrado em Psicologia Clínica com especialização em Sexologia apaixonado por Artes, Videojogos e Tatuagens. Auto-intitulado Rogue que constantemente se perde na sua própria imaginação.