A literatura é uma doença

Há quem diga que Portugal é uma nação de poetas.

Só que afirmar que Portugal é um país de poetas é quase tão errado como um homem de 40 anos convidar uma rapariga de 15 a seguir o seu Tik Tok de danças exóticas. É tão aviltante como ver um episódio de Dr. Who pela primeira vez e achar que a moral da história é que nunca devemos entrar numa cabine telefónica com um estranho. Portugal não é um país de poetas.
Portugal é um país de selvagens.

Que desinfete e, de seguida, levante a mão quem nunca chorou lágrimas de sangue por ter um amigo ou um familiar conhecido por riscar, apontar, escrever e sublinhar livros como se fosse um simples animal. Poetas? Portugal é mas é um país impróprio para quem como eu padece de um transtorno psicológico gravíssimo: A LivroResguardação.

A LivroRestauração é uma condição que a Organização Mundial de Saúde teima em não reconhecer e que os psicólogos escolhem ignorar. Tudo (pasmem) pelo simples facto de a ter nomeado, pela primeira vez, agora mesmo.

Esta aflição mental leva-me a querer que todo e qualquer livro que possuo esteja sempre como novo. Mesmo que seja um exemplar de “As melhores e mais famosas Juntas de Freguesia do Mondego para cima: um estudo analítico e comparativo recheado de interesse!”.

(Quem é que eu quero enganar? Especialmente se for um exemplar de “As melhores e mais famosas Juntas de Freguesia do Mondego para cima: um estudo analítico e comparativo recheado de interesse!”).*

Mesmo que já o tenha lido dezenas de vezes (estou a olhar para ti velha edição do Cálice de Fogo), suo que nem um porco a mentir a sua mulher (sobre o porque de ela o ter visto na pocilga da porca mais sensual da quinta) de cada vez que uma página corre o risco de se dobrar. Cada vez que empresto um livro sinto que tenho de desinfectar o amigo ou familiar a quem o vou emprestar. Sinto-o de tal forma que muitos já se queixaram de eu os ter e cito “escovado na parte de trás das orelhas com aquilo que sentia e parecia ser arame”. Não confirmo mas, suspeitosamente, também não desminto.

Se são o tipo de pessoas que pode ser apanhada a dizer frases como “certo, a minha avó já não fala comigo, mas sou um homem feliz porque tenho os meus clássicos do realismo mágico sul americanos impecáveis” saibam que não estão sozinhos. Estamos juntos nesta luta, estimado leitor.

Se são dos que correm desenfreadamente pelo lado negro e riscam, escrevem e dobram os vossos livros respondam-me só a isto: porquê? Apesar do que podem ler em cima, quero que se sintam à vontade para responder. Não há respostas erradas.

Tirando aquelas que malfadadamente inscrevem nas margens do vosso livro favorito.

* Este livro não existe, mas fica a ideia. Pedia a todos os editores que se juntassem para me enviarem apenas um cartão de agradecimento assinado por todos. Não quero que me encham a caixa de correio, ainda por cima, em mês de receber o catálogo da La Redoute.

Tiago Lacerda
Escrito por: Tiago Lacerda

O Tiago é um budista reformado que neste momento vive em Portugal, mas que já residiu no estrangeiro. Nomeadamente, no Algarve. Fala para cima de 110 línguas diferentes. Infelizmente, 108 desses idiomas só ele os entende. Tem o hábito de inventar descrições sobre si próprio e ainda bem pois é um individuo que não convém conhecer.