A Trilogia de Daevabad

O último livro da trilogia de Daevabad de S.A. Chakraborty foi lançado este ano em Junho. Confesso que literalmente gritei quando vi que me tinha chegado a casa. Há anos que não me apaixonava assim por uma história, pelos seus personagens e pelo seu mundo. Mal podia esperar para lá voltar. Eu tinha de saber o que ia acontecer aos meus meninos. É daquelas leituras em que uma pessoa não come, não bebe e não vai à casa de banho horas a fio.

City of Brass, o primeiro volume da trilogia, abre com Nahri, uma jovem egípcia que consegue ver o interior dos corpos das outras pessoas, incluindo os seus males, um pouco como Blimunda de O Memorial do Convento. Os seus poderes são rudimentares por falta de treino e conhecimentos, mas Nahri é capaz de curar algumas doenças. O seu sonho é estudar numa universidade para se tornar médica, mas uma mulher no século XVIII não tem essa oportunidade.

Uma orfã na cidade do Cairo, Nahri vive de roubos e intrujices. Até que um dia, ao fingir um ritual, faz magia a sério acidentalmente. Perseguida por ghouls, Nahri é salva por Dara, um misterioso guerreiro com poderes ainda mais extraordinários que os dela. Agora o único sítio seguro para Nahri é Daevabad, a cidade dos djinn. Djinn são, tecnicamente, os génios da lâmpada que todos conhecemos. Porém, a ideia que a maioria de nós tem destas entidades vem da história de Aladino, especialmente a versão da Disney, que não tem nada a ver os djinn de Daevabad. Por isso, vou manter o termo original.

O outro protagonista é Alyzaid al-Qahtani, o príncipe mais novo de Daevabad. Através dele, ficamos a conhecer o lado de intriga política do enredo que vai dominar este livro e os próximos. Em Daevabad, não só vivem as seis tribos em que se dividem os djiinn, mas também os shafit, descendentes de djinn com humanos.

Há um conflito a querer eclodir em Daevabad entre as diferentes facções. Os oprimidos querem revoltar-se e os opressores querem manter o poder. Mas nada é assim tão simples e vinganças de guerras antigas ainda determinam o que acontece hoje.

A lealdade de Ali é testada uma e outra vez. A quem se vai manter fiel: ao seu pai, o rei autoritário e homem mais poderoso da cidade; ou aos seus princípios, que exigem que proteja quem não se pode defender?

O vivido mundo criado por S.A. Chakraborty é inspirado na mitologia Islâmica. Traz-nos um cenário diferente do que estamos habituados em fantasia, que tende a inspirar-se na Europa medieval. Esta lufada de ar fresco abre-nos portas a ideias diferentes e a criaturas fascinantes, com um toque de magia que quebra as expectativas. Em vez de espadas, cavaleiros e feiticeiros, temos espadas, tapetes voadores (sim, a sério) e djinn.

Aliás, o mundo é um dos principais pontos fortes desta trilogia. Uma das principais críticas é que há muitos nomes e muitos lugares e muitas pessoas a conhecer e que tornam o cenário confuso. Para mim, é uma mais valia. Este nível de detalhe torna-o mais rico e mais real. Não é só um cenário diante do qual os protagonistas debitam as suas falas. Pelo contrário, quase nos faz acreditar que existe verdadeiramente e que outras pessoas lá vivem mesmo quando não estamos a olhar. E não é esse o objectivo da fantasia: fazer-nos acreditar em magia, mesmo que apenas por um momento?

Quando o enredo demorou a arrancar, foi a curiosidade por este mundo novo que me manteve a virar as páginas umas atrás das outras. Bem, na verdade, foi a curiosidade e os personagens. Nahri é uma mulher extraordinária. Não é boa pessoa, longe disso, mas é inteligente, pragmática e desenrascada, o que é muito mais interessante. Ninguém lhe facilita a vida, só a complicam, coitada da rapariga, mas a forma como ela tenta sempre arranjar solução faz dela uma personagem apaixonante.

Já Ali é uma jovem fanático religioso com um coração de ouro que só quer ajudar e acaba a fazer pior. No início, achei-o irritante porque não por causa do seu moralismo arrogante. Depois o rapaz foi-me conquistando aos poucos e mudei de opinião. Não está mal, vá lá. Além dos protagonistas, temos Dara, que é inexplicavelmente um dos meus personagens favoritos. Quem é não gosta de um tipo rabugento com literalmente séculos de passado trágico?

Ao longo da trilogia, somos ainda apresentados a uma multidão de outras personagens, cada um com as suas próprias motivações e interesses, e cada um a influenciar o enredo e a ser, por sua vez, influenciado por ele. São gente de todo o tipo e admito que gosto de quase todos os personagens secundários.

The Kingdom of Copper em nada fica atrás do seu antecessor. Se muitas trilogias sofrem com um segundo livro de menor qualidade, este não é o caso de todo (até é capaz de ser o melhor dos três por uma margem mínima). Aqui a trama adensa-se, como se costuma dizer, com o lado mágico e o lado político a entrelaçarem-se de forma indistinguível até culminarem num momento épico que abala não só a base de Daevabad mas de todo o mundo dos djinn.

Por último, The Empire of Gold ata todas as pontas soltas num final quase perfeito. Tenho saudades destes personagens e deste mundo, mas a sua história acabou e não consigo querer mais. Nem fan-fiction. Não há nada a acrescentar. Fica apenas o vazio no coração.

Não há ainda edição portuguesa (embora eu espere que um dia cá chegue), mas existe uma brasileira do primeiro livro. Ainda assim, recomendo a todos os amantes de fantasia. A Trilogia de Daevabad é uma nova abordagem ao género versátil que conhecemos e adoramos. E é uma abordagem tão boa.

Capa
9
The Daevabad Trilogy
Incrível
Saga/Série The Daevabad Trilogy
Editora
  • Mundo detalhado e original
  • Enredo intrigante e complexo
  • Personagens apaixonantes
  • Muito imersivo
  • Enredo lento no início
  • Mundo com muitos pormenores que pode ser confuso
  • Mudava um ou duas coisas no final
Carolina Gonçalves
Escrito por: Carolina Gonçalves

Fan girl sobre-entusiasmada. Posso ser encontrada a ler, escrever, procrastinar, ou a agonizar por causa de pessoas imaginárias. Ocasionalmente dada a filmes, séries e desenhos animados. Estou sempre pronta a falar apaixonadamente do que gosto, mas também facilmente me apanham a reclamar do que detesto com o mesmo afinco.